26 de fevereiro de 2023

Loving Highsmith

O Cinéfilo Preguiçoso tem pensado na obra, na biografia e nos Diários e Cadernos de Patricia Highsmith (livro de que em breve sairá uma tradução na Relógio D’Água). O documentário Loving Highsmith (2022), da realizadora suíça Eva Vitija, está disponível na plataforma Filmin e é uma boa introdução ao universo da escritora. Sem se desviar muito da ordem cronológica, a realizadora articula imagens de entrevistas a Highsmith, excertos de adaptações cinematográficas da sua obra, citações dos livros, depoimentos de pessoas que conviveram com ela, fotografias e vídeos caseiros, desenhando um retrato desta escritora enigmática e complexa. Para alguém que conheça bem a sua biografia e os seus Diários e Cadernos, os excertos das entrevistas a Highsmith são, sem dúvida, os elementos mais interessantes deste documentário. Quando se sabe como ela detestava dar entrevistas, é uma boa surpresa encontrá-la nas casas onde viveu, captar um vislumbre dos seus gatos, ver as suas expressões, perceber a tensão do seu corpo, ouvir a sua voz e testemunhar o seu esforço para dar respostas inteligentes e sem lugares-comuns mesmo às perguntas mais desinteressantes. Nestas imagens, recolhemos sobre ela informação preciosa, que não encontramos em mais lugar nenhum. Os depoimentos, nomeadamente de algumas mulheres com quem teve relações amorosas, são interessantes para a caracterização histórica de um contexto que empurrava os homossexuais para a clandestinidade, acabando por inspirar formas alternativas de expressão da orientação sexual tanto na esfera social como na artística. A identificação de Highsmith com Ripley, a sua personagem mais famosa, parece limitativa, na medida em que a vida e a obra da escritora são bem mais amplas do que esta personagem, por muito fascinante que seja. Aliás, a maior fraqueza do documentário é a parcialidade do retrato da escritora. Não são referidas várias mulheres que, como amantes, amigas e mentoras, desempenharam um papel decisivo na sua vida. Pior, não se explica que Highsmith também teve relações longas (ou breves) e confusas com alguns homens, tendo até posto a hipótese de casar com um ou outro – também pelo facto de, naquela época, ser mais fácil viver como mulher lésbica casada com um homem do que sem marido. Fora do filme ficou também outro elemento importantíssimo sobre a autora, por ela própria omitido durante grande parte da vida: a circunstância de ter trabalhado durante muitos anos como guionista de banda desenhada – e note-se que a fluidez e a nitidez de alguns dos seus romances e contos mostram bem que ela aprendeu alguma coisa com esta experiência profissional. Loving Highsmith traça um retrato interessante desta escritora que, apesar de ter sido considerada menor enquanto viveu, tem sobrevivido ao tempo, ajudando a perceber os nossos medos e cobardias, como Wim Wenders disse. É um retrato parcial e incompleto, mas Highsmith foi uma figura tão rica e misteriosa, que ainda haverá muito a descobrir sobre ela, inclusivamente no que toca ao seu interesse por artes visuais.

19 de fevereiro de 2023

Tár

Todd Field é um caso curioso dentro do cinema norte-americano. Começou por se destacar como actor: muitos recordar-se-ão dele na pele do pianista Nick Nightingale em Eyes Wide Shut (1999), de Stanley Kubrick. Em paralelo, foi realizando curtas-metragens e, a partir do início do século XXI, dedicou-se quase a tempo inteiro à carreira de realizador. A duas longas-metragens muito elogiadas (In the Bedroom, de 2001, e Little Children, de 2006), seguiu-se um hiato de quinze anos. Apesar de ter sido associado a projectos de adaptação de obras de autores como Cormac McCarthy e Jonathan Franzen, o seu novo filme parte de um argumento totalmente original, escrito pelo próprio Field. Tár (2022) tem como protagonista a maestrina Lydia Tár, que, no auge da carreira, está à frente da Filarmónica de Berlim e ensaia a quinta sinfonia de Mahler, para terminar a gravação integral das sinfonias deste compositor. Este filme já foi descrito quer como uma exploração do tema do poder, quer como uma ilustração dos efeitos da cancel culture e das redes sociais num meio artístico que, hegemonicamente dominado por homens brancos, tem sido afectado por escândalos que envolvem abusos hierárquicos, assédio e orientações políticas malvistas. Estas descrições não são inadequadas, mas Tár é muito mais do que isso. O poder e os abusos são abordados como fenómenos complexos e recíprocos, que, longe de emanarem apenas de um chefe de orquestra tirânico, estão entranhados na sociedade e resultam dos mecanismos de vigilância e policiamento de crenças e opiniões cada vez mais implacáveis. Lydia Tár não é nem uma vítima inocente nem um monstro: é uma mulher dotada do carácter obstinado que é indispensável para singrar no mundo proibitivamente competitivo da música clássica. Field parece menos apostado em denunciar do que em encontrar maneiras de respeitar a personalidade da personagem que criou, e fá-lo mostrando plena confiança no enorme talento de Cate Blanchett. A actriz controla o tempo do filme do princípio ao fim, desde as cenas longas do início (entrevista e aula numa escola de música) até à sequência vertiginosa de viagens, encontros e episódios avulsos após a sua queda em desgraça. O filme pode ser visto como uma partitura. Tal como afirma Leonard Bernstein, uma das inspirações de Lydia Tár, o significado da música confunde-se com a impressão que esta causa em cada um dos ouvintes. Tár é uma obra de arte complexa que afecta cada um de maneira diferente, independentemente das leituras políticas ou sociológicas que é possível extrair do filme. O papel do realizador, como o do maestro, é servir de intermediário entre a intenção artística original e a subjectividade do espectador. Esta equação, que obriga a um equilíbrio delicado entre a individualidade do artista e o respeito pela inteligência daqueles a quem este se dirige, é resolvida de forma muito inteligente por Field. Tár ressente-se um pouco da intenção de fazer justiça às numerosas facetas da personagem, o que o leva a ocasionalmente a dar a impressão de alguma superficialidade. Ainda assim, a impressão final é de que se trata de um filme amplamente conseguido, que possui, entre outros, um grande mérito: em vez das certezas e posições firmes que alguns prefeririam, é um objecto ambíguo e vivo que perdura e nos incita à reflexão.

12 de fevereiro de 2023

Aftersun

Visto no cinema, Aftersun (Charlotte Wells, 2022) acompanha um pai de trinta anos (Calum/Paul Mescal) e uma filha de onze (Sophie/Frankie Corio) que passam férias numa estância turística da Turquia no fim dos anos 1990, conforme recordado pela protagonista cerca de vinte anos mais tarde. É um filme sobre processar recordações e imagens, algumas das quais captadas por meio das câmaras de vídeo que na altura se usavam, com os movimentos bruscos e os pontos de interesse tantas vezes aleatórios que caracterizavam estes registos “para mais tarde recordar”. Seguimos o olhar sempre em movimento da protagonista, que, entre a infância e a adolescência, procura a sua própria identidade e autonomia através de proximidades e distâncias em relação às pessoas em redor, sobretudo em relação ao pai, de quem é muito próxima. (Os versos iniciais da canção “Losing My Religion”, que a dada altura canta no karaoke, expressam bem esta ideia: “Oh life is bigger/It's bigger than you/And you are not me”.) Entre estas imagens, nem sempre percebemos bem o que estamos a ver: por exemplo, o que acontece realmente na noite em que os dois protagonistas se separam, o pai adormece no quarto e a filha só consegue regressar porque o recepcionista lhe abre a porta? O filme é exímio a captar percepções parciais, nomeadamente a compreensão imperfeita, por parte da filha, das dimensões mais misteriosas da figura paterna e das intimações da morte que rodeiam esta personagem. Calum é filmado através de portas, como reflexo no espelho ou no ecrã de televisão, semiobscurecido e entrecortado pelas luzes de uma rave, ou até engolido pela escuridão do mar. Em algumas cenas, sem isso ser explorado através de um dramatismo sobrecarregado, percebemos que há nele uma vertente depressiva acentuada, que, como muitas depressões perigosas, não é explicada. Paul Mescal adquiriu fama planetária como protagonista da série Normal People (adaptação de um livro de Sally Rooney), mas neste filme tem uma personagem muito mais subtil, entre a alegria e uma tristeza quase mortífera, e o seu desempenho é decisivo para o interesse com que o espectador segue a acção. Por explorar não só os temas das férias e do luto, mas também a noção de imagem como sensação, Aftersun lembra bastante Morvern Callar (Lynne Ramsay, 2002), também filmado por uma realizadora escocesa, mas talvez se destaque mais devido ao inquestionável carisma dos protagonistas. Aftersun é uma longa-metragem interessante, que estabelece uma tensão subtil entre o tempo da acção e o tempo da evocação, por parte da protagonista adulta. Ignoramos o que se passou entre esses dois momentos, mas a angústia associada à incapacidade de conhecermos verdadeiramente aqueles que nos são próximos sobressai com nitidez. Este filme recebeu numerosos elogios e prémios, e até uma nomeação para o Óscar de melhor actor principal; tem suscitado grande entusiasmo, mas ainda não se percebe bem tudo o que a realizadora poderá fazer depois desta longa-metragem de estreia.

5 de fevereiro de 2023

Poeta

 
Ouve-se muitas vezes dizer que já ninguém lê poesia e que se trata de uma actividade quase marginal e pouco reconhecida pela sociedade. Por isso, é interessante constatar a relativa abundância de filmes recentes, normalmente bastante bons, que abordam a actividade poética. Não estamos a falar de filmes biográficos, como o excelente A Quiet Passion (2016), de Terence Davies, sobre Emily Dickinson, mas sim de filmes como Poesia (Lee Chang-Dong, 2010), Un Jeune Poète (Damien Manivel, 2014) e Paterson (Jim Jarmusch, 2016). Todos eles têm como protagonistas pessoas normais que escrevem poemas, entre a indiferença, os encorajamentos mais ou menos sinceros ou a condescendência daqueles que as rodeiam. Apesar de Poeta (Darezhan Omirbaev, 2021), visto esta semana no Nimas, se distinguir destes filmes pelo facto de Didar, a personagem principal, já ter obra publicada e algum reconhecimento, as dúvidas e hesitações sobre o lugar da poesia na sociedade e a tensão entre a criação e as imposições do dia-a-dia também são temas recorrentes. Didar tem uma vida modesta, com um emprego que parece enfadonho, mas estável. No metro, lê um livro sobre o poeta cazaque Makhambet Otemisuly, que liderou uma revolta contra o domínio russo no século XIX. A morte violenta de Makhambet e as tentativas das gerações seguintes para honrar a sua memória, através de um busto e de um monumento, alimentam um enredo paralelo. A recusa de Makhambet de pôr a sua arte ao serviço do invasor tem como paralelo a recusa de Didar, quase dois séculos mais tarde, de escrever a biografia de um magnata, apesar da vultuosa quantia que lhe oferecem. Poeta aborda o tema da independência artística de forma frontal e explícita. O paralelismo entre o século XIX e a época contemporânea reforça a ideia de base, ao mesmo tempo que introduz um elemento de sátira e ironia: ao passo que a atitude de Makhambet lhe custou a vida, a única consequência que Didar sofrerá será não ter dinheiro para comprar o Cadillac com que sonha. Na sociedade de hoje, escrever ou não escrever poesia, ser ou não ser íntegro, são decisões acolhidas com uma indiferença muito semelhante. Os apontamentos de sátira e crítica, juntamente com breves cenas oníricas ou menos realistas, são inseridos com moderação e inteligência, contribuindo para uma impressão global de sobriedade e equilíbrio. Poeta mostra uma situação de domínio cultural e linguístico: por um lado, o russo, segunda língua oficial do Cazaquistão, ameaça o futuro do idioma cazaque; por outro, ambas as línguas são ameaçadas pela hegemonia crescente e globalizante do inglês. Escrever poemas em cazaque é um acto que coloca o seu autor numa posição minoritária do ponto de vista linguístico, cultural e artístico. A poesia, no entanto, já não é veículo para heroísmos nem para grandes gestos simbólicos. Omirbaev mostra, com discrição e justeza, um homem que sabe que não será a poesia a subtraí-lo ao anonimato nem à mediania. O gesto de continuar a escrever, apesar dessa certeza, talvez seja o único acto de resistência ao seu alcance.