O filme Hitchcock/Truffaut, pelo qual o Cinéfilo Preguiçoso esperou e desesperou, estreou finalmente em Portugal, ao fim de múltiplos adiamentos. Ainda assim, há muitas razões para valorizar o DVD, uma das maiores invenções da humanidade. Nesta semana, a escolha recaiu sobre House of Games (1987), de David Mamet. A personagem principal deste filme, Margaret (Lindsay Crouse), é uma psicanalista que escreveu um livro de sucesso sobre comportamentos obsessivos e compulsivos. Ao tentar ajudar um dos seus doentes, envolve-se com um grupo de vigaristas liderados por Mike (Joe Mantegna) que estabelecem com ela uma cumplicidade ilusória com o objectivo de lhe extorquirem somas de dinheiro consideráveis. A maneira como Margaret reage quando percebe ter sido ludibriada é radical mas perfeitamente coerente com a ideia central do filme: a incompatibilidade entre o feitio compulsivo da protagonista e o talento para a dissimulação que caracteriza os con artists. House of Games pode também ser visto como a trajectória de auto-afirmação de uma mulher que enfrenta problemas e traumas que nunca são revelados. Essa auto-afirmação adquire contornos rigorosamente amorais – aliás, a moral está completamente ausente deste filme: o interesse e a autopreservação são as forças dominantes, sendo irónico constatar que o único acto altruísta (a tentativa de prestar auxílio a um doente) é precisamente aquele que precipita os acontecimentos, constituindo a força motriz do filme. Visto hoje, em comparação com obras do mesmo realizador como A Prisioneira Espanhola (1997) ou Heist (2001), House of Games pode deixar o espectador com a impressão de já ter visto estes mesmos truques, mas praticados com maior sofisticação. Esta primeira longa-metragem de Mamet pode parecer esparsa e contida, mas é precisamente essa contenção que permite realçar o conteúdo humano das personagens e confere maior poder à história. Crouse e Mantegna assimilam na perfeição o estilo de representação directo e no-nonsense defendido e praticado por Mamet, por detrás do qual se dissimula um trabalho subtil e rigoroso com a linguagem. Mantegna, um actor brilhante mas algo subaproveitado, tem aqui uma das suas muitas colaborações com Mamet, no cinema e no teatro. Quanto a Crouse, a sua interpretação leva a pensar que mereceria mais oportunidades e maior visibilidade numa carreira que, apesar de tudo, conta já com uma nomeação para os Óscares (em 1985 – perdeu para Peggy Ashcroft).
11 de dezembro de 2016
4 de dezembro de 2016
The Shining
Esta
semana, em vez de uma estreia recente, o Cinéfilo Preguiçoso decidiu ver The Shining (Stanley Kubrick, 1980) em
DVD. Neste filme, baseado no romance homónimo de Stephen King (1977), Jack
Torrance (Jack Nicholson), com o objectivo de encontrar a concentração necessária
para escrever, aceita o cargo de encarregado de manutenção de Inverno de um
hotel no Colorado que encerra durante essa estação. Apesar dos avisos, Jack
Torrance não está preparado para o isolamento que se instala quando o hotel
fecha e os únicos habitantes passam a ser ele, a mulher e o filho pequeno, uma
criança com competências paranormais que incluem telepatia e a capacidade de
ver o passado e o futuro. O labirinto no jardim do hotel espelha a estrutura labiríntica do edifício, que, por sua vez, parece replicar a própria desorientação
do protagonista, perdido dentro de si mesmo. A dada altura, as fronteiras entre
o real e o imaginário diluem-se em sangue e as personagens supostamente reais
começam a cruzar-se com fantasmas mais ou menos maléficos que teriam povoado o
hotel no passado, alguns deles parecendo vir de um filme que Kubrick só
realizaria no futuro (De Olhos Bem
Fechados, 1999). Impondo um ritmo
lento que lembra 2001: Odisseia no Espaço
(1968), Kubrick delicia-se a filmar os corredores intermináveis do hotel
desocupado, pelos quais de vez em quando passam figuras humanas diminutas, tanto dos
próprios protagonistas como de outras criaturas imaginadas ou não. A banda
sonora de The Shining (Penderecki,
Ligeti, Bartók…) é adequadamente sinistra, por vezes de forma exagerada,
contribuindo para que o filme seja não só assustador mas também faça rir de vez
em quando – nem sempre um riso agradável. Podemos imaginar que todos os
horrores do hotel representam as dificuldades com que um escritor se debate quando
tem de trabalhar num livro. Já houve também quem dissesse que The Shining é um filme sobre o cinema, cujas
personagens sonham as peripécias em que participam. Uma das ilustrações desta teoria é a
sequência em que Jack se dirige ao bar vazio do hotel e imagina ou convoca todo um
conjunto de clientes e funcionários. Também é nesta cena que o protagonista supostamente
contacta com um seu antecessor, que lhe proporciona a estranha revelação de que
o próprio Jack terá estado sempre ali – faz parte do elenco do Hotel Overlook. A
força de The Shining reside em não se
levar demasiado a sério e em não procurar impor explicações ou leituras,
deixando essa tarefa, espinhosa e estimulante, para o espectador. Também nisto The Shining se aproxima de De Olhos Bem Fechados.
27 de novembro de 2016
Animais Nocturnos
De Tom Ford, estilista e ex-director artístico da Gucci e Yves Saint Laurent reconvertido ao cinema, conhecíamos A Single Man, um filme visualmente sofisticado, interessante mas sobrevalorizado. A sua segunda longa-metragem, Animais Nocturnos, confirma a propensão estetizante deste realizador, traduzida em planos e movimentos de câmara que aspiram à elegância formal e à afirmação de um cunho pessoal, mas que se tornam rapidamente irritantes. Nenhum dos dois enredos do filme desperta interesse. O primeiro consiste no retrato da crise conjugal da protagonista, Susan (Amy Adams), dona de uma galeria de arte. O segundo confunde-se com a história narrada pelo romance que o autor, ex-marido de Susan (Jake Gyllenhaal), lhe enviou, naquilo que parece ser uma tentativa de reaproximação. O primeiro é banal e insignificante; o segundo, sórdido e nos limites do tolerável, envolve o encontro entre uma família e um bando de rufias numa estrada do Texas e parece um mau remake de No Country for Old Men (2007), dos irmãos Coen. A intersecção entre a história da vida de Susan e o enredo do livro não traz qualquer valor acrescentado; os raccords pueris a que Ford se entrega, sugerindo uma afinidade espiritual entre Susan e o protagonista do romance (que o espectador é convidado a identificar com o ex-marido) não ajudam a que algo de significativo surja desse cruzamento. O único elemento redentor é a presença de Amy Adams, uma actriz magnífica que merecia bem mais do que os filmes medíocres ou indiferentes em que a temos visto recentemente (por exemplo, American Hustle, de 2014, e Big Eyes, de 2016). Animais Nocturnos, baseado no romance Tony and Susan, de Austin Wright, recebeu o Grande Prémio do Júri no último Festival de Veneza: claramente, Sam Mendes e os seus colegas jurados descobriram no filme virtudes a que o Cinéfilo Preguiçoso é insensível.
20 de novembro de 2016
Ela
Baseado
no romance Oh..., de Philippe Djian, Ela, de Paul Verhoeven (2016), gira em
torno da história de Michèle Leblanc (Isabelle Huppert), fundadora e directora
de uma empresa de videojogos. Como vamos descobrindo ao longo do filme, a vida
de Michèle ficou marcada por um acontecimento sinistro na sua infância, em que,
num episódio psicótico agudo, o pai, católico fervoroso e cidadão exemplar, matou
todos os filhos e animais dos vizinhos. Talvez este seja o tema mais interessante
do filme: a possibilidade de a violência e a loucura se manifestarem de modo
inesperado no contexto da normalidade supostamente mais inofensiva. Este tópico
é declinado de acordo com as regras amorais dos jogos de vídeo caracterizados
pela violência contra as mulheres. A recusa da protagonista de recorrer à
polícia para se proteger das ameaças e dos ataques de que é alvo permite que o seu
quotidiano seja contaminado, sem violação das regras do realismo, por este tipo
de universo. Apesar de depender de uma protagonista feminina e ser difícil de
imaginar sem a figura forte de Isabelle Huppert, Ela é um filme com conteúdo misógino. Quase todas as personagens
masculinas são retratadas como figuras fracas e vulneráveis a determinadas debilidades
ou doenças (o próprio atacante de Michèle se destaca pela simpatia e bonomia, o
filho é um irresponsável gentil), enquanto a protagonista, a única que consegue
manter-se à tona, é filmada como
uma criatura manipuladora e perigosa – também por fazer o que faz sendo mulher,
como o próprio título do filme sublinha. Nem sequer lhe falta um gato, como se
espera das bruxas. (O tema arcaico do carácter maléfico das mulheres que se
atrevem a tentar «actividades próprias dos homens» ainda não se esgotou, como
também pudemos constatar nas recentes eleições norte-americanas.) Em suma, Ela é um filme interessante em alguns
aspectos, por ajudar a pensar sobre o que é a normalidade e sobre a
representação das mulheres com poder, mas deve ser visto com algum
distanciamento irónico. Felizmente, nem a vida nem todos os filmes se assemelham
a jogos de vídeo, ainda que por vezes pareçam arriscadamente próximos desse
contexto.
13 de novembro de 2016
L'Ombre des Femmes
Apesar de ter um cunho individual inconfundível, a já longa carreira do realizador Philippe Garrel (n. 1948), que começou na ressaca da Nouvelle Vague, tem estado em relativa sintonia com as principais fases do cinema francês: do experimentalismo e hermetismo dos anos 70, evoluiu para um naturalismo desencantado, pontuado por referências ocasionais à política e à história (por exemplo em Liberté, La Nuit, de 1983, e Les Amants Réguliers, de 2005). L’Ombre des Femmes (2015), visto pelo Cinéfilo Preguiçoso em DVD, insere-se nesta linhagem realista, embora a Paris filmada a preto-e-branco pelo lendário Renato Berta (que trabalhou com Oliveira, Resnais, Straub/Huillet, Rohmer, Godard e Rivette, entre outros) tenha algo de feérico: as ruas desertas, banhadas numa luz crua, parecem existir apenas para servir de cenário a encontros, perseguições e vigilâncias. O enredo poderia ser o de qualquer outro filme de Garrel: um casal, dois amantes, ruptura, reconciliação. O aspecto mais interessante e vagamente original do filme talvez seja a maneira como encena um esboço de introspecção e análise, concretizado pela voz-off (de Louis Garrel), que parece assumir a perspectiva da personagem masculina mas usando uma terceira pessoa onde cabem a cumplicidade mas também uma lucidez amarga. O final, ambiguamente feliz, pode ser visto como um prodígio de minimalismo emocional ou enquanto constatação de que o reencontro é tão arbitrário e despido de significado como qualquer outra peripécia amorosa. O que fica ainda deste filme saudavelmente avesso a mensagens profundas são os actores, quase todos soberbos: Stanislas Merhar, cuja personagem de ciumento patológico faz recordar o seu papel em A Prisioneira (2000), de Chantal Akerman; Clotilde Courau, cada vez mais interessante à medida que envelhece; e ainda a fabulosa Vimala Pons (vista em A Rapariga do 14 de Julho), num papel secundaríssimo. Por razões misteriosas (homenagem despropositada a Proust?), L’Ombre des Femmes foi traduzido em Português por À Sombra das Mulheres.
6 de novembro de 2016
Hitchcock/Truffaut
Cansado
de esperar pela estreia em sala do filme Hitchcock/Truffaut
de Kent Jones (2015), o Cinéfilo Preguiçoso comprou o DVD. Este documentário
explora as conversas que deram origem a um livro famoso e interessante não só
para cinéfilos e realizadores, publicado em Portugal com o título Hitchcock: Diálogo com Truffaut. O filme
organiza-se em torno de alguns excertos das gravações destas conversas. Isto revela-se
uma opção inteligente na medida em que o próprio tom de voz de Hitchcock
fornece enquadramentos diferentes a momentos particulares das entrevistas. Um
exemplo é a célebre citação segundo a qual «os actores são gado»: percebemos
que foi articulada com indignação e incredulidade porque um actor (Montgomery
Clift durante a rodagem do filme I
Confess, de 1952) quis «desequilibrar toda a estrutura espacial de um
filme» por ter dúvidas existenciais sobre um plano. Os excertos das gravações são
pontuados por depoimentos de realizadores como Martin Scorsese, David Fincher,
Arnaud Desplechin, Olivier Assayas ou James Gray, a propósito não só da
importância do livro nas suas vidas mas também dos filmes de Hitchcock que
consideram mais marcantes. Neste ponto, apesar de Hitchcock/Truffaut seguir uma estrutura muito semelhante à de Trespassing Bergman, distingue-se deste documentário
pela positiva devido ao facto de nestes depoimentos serem comentadas com
pormenor cenas específicas da obra de Hitchcock (nomeadamente de Vertigo, The Wrong Man e Psycho),
em vez de se privilegiarem aproximações impressionistas. A perversidade dos
interesses de Hitchcock tornou-se um lugar-comum que continua a ser repisado
nestes testemunhos, mas muito mais fascinantes são as referências à
inteligência formal do realizador e ao modo como o seu pensamento se traduz em
imagens: predomina a ideia de o realizador ser «um teórico do espaço» que vê cada filme como uma estrutura, um cineasta com uma mente «puramente matemática», capaz,
no entanto, de sobrecarregar o cinema de emoção. Só uma abordagem formal pode
verdadeiramente fazer justiça a toda a emoção e admiração que a obra deste
realizador suscita. Ao mesmo tempo, a tensão emocional com que vemos os filmes
de Hitchcock está presente nos depoimentos: talvez o ponto mais alto seja aquele
em que James Gray se refere à cena de Vertigo
em que Scottie faz Madeleine regressar dos mortos como o momento mais belo da
história do cinema – mesmo que nos ocorram outras cenas, como discordar? Hoje a
questão que, de acordo com o filme de Kent Jones, mais terá preocupado
Hitchcock – seria ele um artista ou só um entertainer?
– está mais do que resolvida: aliás, parece inacreditável que alguma vez tenha
havido dúvidas a este respeito.
30 de outubro de 2016
O Ornitólogo
Em O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues (2016), seguimos o percurso de Fernando, um ornitólogo que se dedica à observação dos hábitos de várias espécies de aves enquanto desce o rio Douro de caiaque, numa zona isolada e quase desprovida de presença humana. Uma distracção na aproximação a uns rápidos quase precipita o seu afogamento. Acaba por ser salvo por duas improváveis peregrinas chinesas, mas esse é apenas o começo de uma sequência de aventuras e encontros, cada vez mais bizarros, repletos de referências etnográficas, mitológicas e sobretudo cristãs. De forma progressiva, e sem concessão a qualquer lógica ou realismo, Fernando metamorfoseia-se em Santo António e acaba o filme na berma da estrada, a caminho de Pádua; não falta sequer um sermão aos peixes. Essa transformação ocorre em paralelo com a substituição gradual do actor principal, Paul Hamy (uma agradável surpresa), pelo próprio realizador – até à sequência final do filme, em que João Pedro Rodrigues assume totalmente o papel de Fernando/António. A multiplicidade de alusões, citações e referências é desconcertante. Fica a impressão de que, mais do que impor uma qualquer leitura simbólica coerente, João Pedro Rodrigues pretendeu descrever um percurso do registo realista para o registo onírico e fantástico, da lucidez para a alucinação. O Ornitólogo dispensa densidade hermenêutica; é visualmente empolgante e poderoso na sua singularidade de objecto desligado de qualquer justificação ou contexto. A singularidade não exclui a tentação de apontar semelhanças com Veredas (1977), de João César Monteiro (onde o Portugal profundo é palco de intersecções inesperadas entre o mito e a realidade) e O Desconhecido do Lago (2013), de Alain Guiraudie (o elemento líquido, a proximidade entre o desejo e a morte…). João Pedro Rodrigues recebeu o Leopardo para Melhor Realização no Festival de Locarno, por este filme.
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