12 de março de 2017

A Toca do Lobo


Procurando uma alternativa às propostas nas salas, o Cinéfilo Preguiçoso decidiu ver em DVD o documentário A Toca do Lobo (2015), de Catarina Mourão. O filme é construído em torno da figura do escritor Tomaz de Figueiredo (1902-1970), avô da realizadora. Na ausência de recordações directas deste antepassado que morreu antes do seu nascimento e em face das histórias problemáticas que se contam sobre ele, Catarina Mourão recorre a depoimentos (em particular os da sua mãe) e arquivos, incluindo o extenso dossiê da PIDE sobre o seu tio (filho de Tomaz de Figueiredo), bem como o excerto de uma emissão da RTP dos anos 60 em que o escritor fala da sua colecção de saquinhas de cachimbo e manifesta o desejo de que uma sua futura neta («talvez chamada Catarina») venha a brincar com estas e a encontrar novos usos para elas. A investigação é mostrada de forma bastante exaustiva, com algumas descobertas inesperadas mas sobretudo muitas lacunas e zonas de sombra relacionadas com falta de informação ou impedimentos resultantes de querelas familiares nunca ultrapassadas. A Toca do Lobo está longe de ser um documentário formalmente inovador, mas vale pela forma extraordinariamente lúcida como explora o conflito entre o desejo de saber e os constrangimentos associados à falibilidade ou renitência das testemunhas, destacando-se também por explorar uma história individual no contexto da história colectiva de todas as famílias que viveram o século XX em Portugal: não será um exagero dizer que todos nós teremos para contar uma história semelhante, com consequências que se prolongam até ao presente. Tem também o mérito de não criar uma aura de excelência ou de heroísmo em torno do retratado. No final do filme, a realizadora e os filhos brincam com as saquinhas de cachimbo (resgatadas ao espólio do escritor, guardado ciosamente por uma tia distante e refractária a todas as tentativas de contacto), cumprindo assim a profecia do avô e bisavô Tomaz. As cenas finais, deste modo, mostram algo que se aproxima de um final feliz, mais relacionado com a sucessão tranquila das gerações (não é por acaso que o filme começa e acaba com imagens dos elementos mais jovens da família) do que com a revelação de um qualquer segredo grave e obscuro.


5 de março de 2017

Personal Shopper


Depois de sair da sessão em que viu o filme Personal Shopper (2016), de Olivier Assayas, o Cinéfilo Preguiçoso percorreu a pé a distância entre as estações de metro do Saldanha e da Alameda discutindo possíveis interpretações para os momentos mais problemáticos do filme: o primeiro encontro com o fantasma da «rapariga perdida» na casa abandonada; a cena no hotel, fora de campo, em que a protagonista supostamente se confronta com o remetente incorpóreo com quem trocava mensagens; a cena final. Sem dúvida, Personal Shopper tem várias fraquezas e algumas pontas soltas e incongruências. Ainda assim, é um filme em que continuamos a pensar. O realizador explicou que escreveu especificamente para Kristen Stewart, depois de ter trabalhado com ela em As Nuvens de Sils Maria, onde a actriz também representa o papel de assistente de uma celebridade. Com efeito, a personagem de Maureen Cartwright, uma rapariga que acabou de perder o irmão gémeo (Lewis), morto inesperadamente aos 27 anos devido a uma malformação no coração de que a irmã também sofre, assenta como uma luva a esta actriz que ainda mal começou a descobrir aquilo de que é capaz, como a realizadora Kelly Reichardt salientou depois de terminar Certain Women. Maureen é uma personagem em transição. Os dois irmãos tinham combinado que o primeiro a morrer daria ao outro um sinal para confirmar que a comunicação com os mortos é possível – Maureen partilha os dons mediúnicos com o irmão mas sempre os encarou com mais dúvidas e reticências do que ele. Maureen permanece em Paris à espera deste sinal, encarregando-se, para sobreviver, das compras de uma celebridade antipática, um trabalho de que não gosta. Os momentos mais belos do filme são os percursos da protagonista entre casas, lojas e hotéis, por Paris e arredores, incluindo uma viagem de comboio entre Paris e Londres, além de uma passagem final por Omã. Kristen Stewart, que estamos habituados a ver em revistas, aparece aqui como uma figura arrapazada, mal vestida, sem maquilhagem; compra roupas e acessórios para outra pessoa, mas gosta de os experimentar, como se estivesse à procura de uma forma, tentando perceber quem é e o que fazer com a própria vida. Talvez Personal Shopper seja um dos filmes que até agora melhor retratam a importância da tecnologia na definição da subjectividade das pessoas no século XXI. Os momentos em que a protagonista consulta referências na Internet (Hilma af Klint, precursora da pintura abstracta, um filme sobre as sessões espíritas de Victor Hugo, etc.), troca mensagens ou chamadas de Skype, são essenciais. Em contrapartida, as cenas de contacto com o sobrenatural são as mais fracas do filme; além de receberem um tratamento visual e sonoro convencional (imagens pouco nítidas, ruídos assustadores, copos estilhaçando-se), parecem muitas vezes desarticuladas do resto. Ainda assim, há algo da atmosfera intrigante de Vertigo neste filme que valeu o prémio de melhor realizador do Festival de Cannes de 2016 (partilhado com Cristian Mungiu) a Olivier Assayas, que aqui confirma o seu gosto pela reapropriação e exploração dos códigos e convenções de géneros cinematográficos – neste caso, o filme de terror.

26 de fevereiro de 2017

Toni Erdmann


Toni Erdmann (2016) é a terceira longa-metragem da realizadora alemã Maren Ade e sucede ao muito interessante Todos os Outros (2009). A acção do filme gira em torno da relação entre Winfried, um professor de música, e a sua filha Ines, consultora em Bucareste. Winfried, que gosta de partidas e disfarces, decide surpreender a filha com uma visita (para desespero desta) e começa a intrometer-se nos seus encontros de negócios, envergando dentes falsos e uma peruca ridícula e apresentando-se como “Toni Erdmann”, especialista em coaching. Grande parte do interesse do filme reside no facto de Winfried/Toni ser aceite como parceiro e interlocutor credível pelas pessoas que gravitam em torno da filha, apesar das suas tropelias e aparência grotesca, que pareceriam dever conduzir à sua alienação do universo extremamente formatado e pragmático que invade. De corpo estranho, Toni transforma-se quase em peça da engrenagem, chegando a provocar, inadvertidamente, o despedimento de um operário; o universo corporativo mostra-se sinistramente capaz de integrar a heterodoxia e de a desviar para os seus fins. Em paralelo, a relação entre a filha e o pai parece evoluir positivamente quando este assume o seu alter ego, embora neste capítulo Ade tenha o cuidado de injectar uma saudável dose de ambiguidade nas cenas finais. Sem ser uma obra-prima, Toni Erdmann é um filme inteligente e original, suscitando boas expectativas sobre a carreira futura de Ade – que também é produtora, incluindo dos filmes mais recentes de Miguel Gomes. Como explicar o extraordinário sucesso de bilheteira e de crítica, incluindo nomeação para um Óscar e o primeiro lugar nas listas de melhor do ano de revistas como Sight & Sound e Cahiers du Cinéma? Talvez porque funciona bem a vários níveis e está repleto de momentos de comic relief, talvez por ter sido confundido com uma comédia ligeira com uma mensagem positiva antiglobalização e pró-valores familiares. Quanto ao eventual remake norte-americano, de que já se fala por aí, há que esperar o pior.


19 de fevereiro de 2017

Elementos Secretos


Interessado nos temas da conquista do espaço e da matemática, o Cinéfilo Preguiçoso viu Elementos Secretos, de Theodore Melfi (2016), um filme baseado no livro Hidden Figures: The Untold Story of the African American Women Who Helped Win the Space Race, de Margot Lee Shetterly. Retratando o trabalho em torno da preparação do voo espacial de John Glenn, o primeiro americano a orbitar a Terra, Elementos Secretos tem como protagonistas Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson (Taraji P. Henson, Octavia Spencer – nomeada para o Óscar de melhor actriz secundária graças a este papel – e Janelle Monáe), mulheres negras que, num tempo em que a cor da pele podia ser considerada uma marca de inferioridade, conseguiram alguma realização profissional na NASA graças ao conhecimento de matemática, à garra e ao talento. O mais interessante deste filme relaciona-se com a reconstituição do contexto histórico tanto do programa espacial dos EUA, em competição com a URSS durante a Guerra Fria, como da segregação racial ainda vigente em alguns estados norte-americanos em 1962 (incluindo o estado da Virgínia, onde se situa o centro de investigação da NASA em questão) e das dificuldades acrescidas que esta situação impunha (por exemplo, zonas especificamente para negros em espaços públicos como autocarros, bibliotecas, casas de banho, etc.). Principalmente na segunda metade, destaca-se também o esforço de representar as dimensões concretas do trabalho das protagonistas e dos seus colegas: os cálculos, as dificuldades, a engenharia das máquinas, a adaptação aos primeiros computadores. No fim, a apresentação de fotografias da época que serviram de apoio à reconstituição histórica é cativante, chegando a ser comovente quando nos mostra os verdadeiros rostos das mulheres que inspiraram o filme. Tendo em conta a riqueza do material de base, Elementos Secretos poderia ser realmente interessante se não insistisse de modo quase exasperante em certos lugares-comuns de filmes sobre mulheres – festas, piqueniques, casamentos, convivência –, como se não fosse possível caracterizar personagens femininas sem estas referências, mesmo num filme que denuncia atitudes discriminatórias contra as mulheres. Tal como é, não pode ser considerado propriamente uma perda de tempo, mas fica muito abaixo das expectativas.

12 de fevereiro de 2017

Uma Discussão com 50 Anos


O documentário Uma Discussão com 50 Anos (The 50 Year Argument, 2014), co-realizado por Martin Scorsese e David Tedeschi, segue um figurino muito semelhante ao de outros que o Cinéfilo Preguiçoso abordou anteriormente, como Trespassing Bergman ou Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt: uma sucessão de depoimentos intercalados com imagens de arquivo. Será que este formato reúne aceitação consensual entre a comunidade documentarista como o modo mais eficaz de discutir ou homenagear uma personalidade ou instituição? O pretexto deste filme é a festa do 50.º aniversário da revista New York Review of Books, fundada em 1963. O tom combina bem com a ocasião: a grande maioria das intervenções assumem um tom francamente laudatório do espírito da revista, da sua tradição de independência intelectual e intervenção em questões sociais (da guerra do Vietname ao movimento “Occupy Wall Street”) e, em particular, da personalidade de Robert Silvers, que a edita desde a fundação (em colaboração com Barbara Epstein, até à morte desta, em 2006). A conduta predominante de Silvers enquanto editor assenta numa ideia simples: convidar autores inteligentes e cultos a escreverem sobre determinado livro ou assunto (não necessariamente dentro da sua especialidade), sem intervir demasiado a não ser para sugerir leituras de pontos de vista diferentes a debater. Analogamente, um documentário onde se vêem e ouvem pessoas do calibre intelectual de Isaiah Berlin, Susan Sontag, Mary Beard, Joan Didion, Mary McCarthy ou Timothy Garton Ash não pode deixar de ser cativante, mau grado o formato algo convencional. É talvez de lamentar que Scorsese e Tedeschi, apesar de um título que salienta a importância da discussão de perspectivas divergentes na New York Review of Books, não tenham apresentado pontos de vista menos abonatórios em relação a esta. O documentário funciona como um prolongamento em forma de filme da festa das bodas de ouro desta revista que continua a insistir na urgência de pensar e debater, numa era em que a superficialidade e a intoxicação mediática ganham terreno a um ritmo assustador. (Nota final: no final desta sessão, o Cinéfilo Preguiçoso teve a grata surpresa de se cruzar com uma multidão que enfrentou a chuva para assistir à projecção de Vida Activa: o Espírito de Hannah Arendt, no cinema Ideal.)


5 de fevereiro de 2017

Wiener-Dog


O filme Wiener-Dog (Todd Solondz, 2016), visto pelo Cinéfilo Preguiçoso em DVD, difere muito pouco de outras obras do realizador que estrearam em Portugal, como Felicidade (1998) ou Conta-me Histórias (2001). Tal como estes dois filmes, assenta em narrativas autónomas que se vão sucedendo, com personagens diferentes. Em Wiener-Dog o ponto comum das diferentes histórias é um cão da raça dachshund ou teckel, conhecido também como cão-salsicha, que vai transitando de dono para dono e de desastre em desastre. (Saliente-se, de passagem, que não é um filme aconselhável para amantes de cães.) Das quatro histórias, a única que revela verdadeiro investimento narrativo e um mínimo de compaixão e empatia pelas personagens é protagonizada pelo excelente Danny DeVito, no papel de um guionista falhado que trabalha como professor de guionismo. Todas as outras se limitam a mostrar pequenos incidentes e diálogos desinspirados retirados de vidas banais. Nem sequer Greta Gerwig, que o Cinéfilo Preguiçoso há muito admira, consegue salvar a história insípida onde intervém. Tal como Felicidade e Conta-me Histórias, Wiener-Dog é um filme sobre personagens inadaptadas, cruéis, estúpidas, passivas ou criminosas e partilha os mesmos problemas destes dois filmes: a falta de complexidade e o carácter unidimensional. Como nada nem ninguém escapa à mediocridade e à falta de significado na obra de Todd Solondz, a dada altura o espectador começa a interrogar-se sobre a pertinência não só do filme mas também das horas que desperdiçou a vê-lo quando podia estar a fazer coisas mais proveitosas. Filmes sobre personagens com vidas desinteressantes podem ser interessantes? Não se o realizador estiver sempre sempre a bater nessa tecla, por incapacidade de fazer coisas mais subtis.

29 de janeiro de 2017

Arrival


Até o seguidor mais ocasional e distraído do cinema de ficção científica reconhecerá sem dificuldade em Arrival/O Primeiro Encontro (2016) numerosos temas e tropos recorrentes: a ansiedade e as fricções decorrentes do contacto entre terrestres e visitantes alienígenas (Encontros Imediatos do Terceiro Grau, 1977), o contraste entre a cegueira e brutalidade das autoridades e as intenções puras de uma personagem que consegue estabelecer uma relação significativa com os extraterrestres (E.T. – O Extraterrestre, 1982) e até uma alusão visual ao monólito negro de 2001: Odisseia no Espaço (1968), cuja semelhança com cada uma das doze naves que aterram subitamente em vários pontos do globo parece ser mais do que acidental. Usando de um pouco de cinismo, poderiam apontar-se mais dois aspectos que ancoram este filme na tradição e nas convenções da ficção científica hollywoodesca: o facto de, mesmo tratando-se de uma situação planetária, caber aos norte-americanos o papel de salvadores do mundo; o paralelismo entre o problema global e os problemas pessoais das personagens. A vertente mais original deste filme  a oitava longa-metragem do canadiano Denis Villeneuve  é também a mais interessante: a exploração dos problemas linguísticos inerentes às tentativas de comunicação e o papel preponderante da personagem principal, Louise, uma linguista e tradutora recrutada pelo exército para a missão de contacto e que percebe que a linguagem ideogramática que os extraterrestres oferecem é indissociável de uma concepção não-linear do tempo. O filme vale sobretudo pela maneira austera mas envolvente como mostra as tentativas de estabelecimento de uma linguagem comum, mas seria injusto não mencionar a belíssima banda sonora de Jóhann Jóhannsson, a sofisticação técnica que felizmente não redunda em espalhafato visual e as interpretações de Amy Adams e de Forest Whitaker, dois actores que o Cinéfilo Preguiçoso há muito admira.