O cinema Nimas continua a apresentar a retrospectiva de Kenji Mizoguchi e ainda bem, porque assim temos tempo para ver os filmes que queremos, sem saturação nem stress. Nesta semana o Cinéfilo Preguiçoso viu A Senhora Oyu (1951) e O Intendente Sansho (1954), que têm em comum um dos temas mais caros ao realizador japonês: o sacrifício, quase sempre protagonizado por uma personagem feminina, em prol da felicidade de outrem. Ambos os filmes são adaptações de obras literárias: um romance de Junichiro Tanizaki e um conto de Mori Ogai, respectivamente. As semelhanças, contudo, ficam-se por aí. O enredo de A Senhora Oyu gira em torno do casamento da personagem masculina principal, Shinnosuke, com Shizu, apesar de estar apaixonado pela irmã desta, Oyu, uma viúva forçada pelas convenções sociais a consagrar-se à educação do filho. O filme é um retrato íntimo de três personagens infelizes, cujos desejos são contrariados pela força dos costumes e pelos azares da cronologia: quando, devido à morte do filho, Oyu readquire a liberdade para contrair matrimónio, Shinnosuke está casado com Shizu, que sabe não ser amada mas que aceitou a união para permitir que Shinnosuke ficasse próximo da irmã. A câmara de Mizoguchi mostra-nos uma coreografia de corpos que esboçam aproximações, mas se forçam a manter as distâncias, tolhidos pelo dever e eternamente desfasados. O filme vale ainda pela personagem extraordinária de Oyu, uma figura de beleza intemporal que se mantém sempre digna na adversidade. O Intendente Sansho também possui um certo teor coreográfico, mas neste caso os corpos interagem de forma cruel e violenta, sempre em contexto de agressão, coacção e punição. O enredo, centrando-se em dois irmãos que são vendidos como escravos no Japão medieval, pode ser visto como uma representação da emergência da lei e da compaixão num mundo dominado pela prepotência. Duas notas finais sobre os elencos: destaque para Kinuyo Tanaka, que participa em ambos os filmes e entrou em mais de quinze obras de Mizoguchi, e também para Kyoko Kagawa, que desempenha o papel da irmã em O Intendente Sansho e que muitos cinéfilos recordarão de Tokyo Monogatari, de Ozu – era ela quem contracenava com Setsuko Hara no famoso diálogo «A vida não é decepcionante?»/ «É.» O ciclo Mizoguchi prossegue até 19 de Julho.
9 de julho de 2017
2 de julho de 2017
A Viagem de Chihiro | Lixo Extraordinário
Estamos
no Verão. Além de Paterson, não há
nada de apaixonante para ver nos cinemas. O Cinéfilo Preguiçoso recorre à colecção
de DVDs e ao que de interessante possa passar na televisão que entretanto lhe
tenha escapado. Em A Viagem de Chihiro,
uma animação do estúdio Ghibli com realização de Hayao Miyazaki (2001), vista
na RTP2, uma menina de dez anos e os pais vão mudar-se para uma cidade
diferente. Prestes a chegarem, encontram por acaso um misterioso túnel que vai
dar ao que parece ser um parque de diversões abandonado, onde estranhamente
encontram um restaurante com comida a que não conseguem resistir. Os prodígios
e aventuras que se seguem, com deuses, feiticeiros e espíritos, combinam
referências a Alice no País das
Maravilhas, Murakami, mitologia grega, cultura oriental e ecologia. Ainda
assim, este filme consegue não só surpreender, por meio das reviravoltas do
enredo, mas também encantar, graças à beleza e das imagens. É como darmos por
nós num sítio onde pensávamos nunca ter estado antes mas que parece
estranhamente familiar. A Viagem de
Chihiro recebeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2002 (ex aequo com Bloody Sunday, de Paul Greengrass), além do Óscar de Melhor Filme
de Animação de 2003. Mais recentemente, ouvimos falar deste filme por fazer
parte da (discutível) lista dos melhores filmes do século vinte um do New York Times. Por sua vez, o
documentário Lixo Extraordinário (Lucy
Walker, João Jardim, Karen Harley, 2010), visto em DVD, acompanha o projecto do artista
brasileiro Vik Muniz no Jardim Gramacho, um aterro que funcionou entre 1976 a
2012, tendo chegado a receber mais de sete mil toneladas diárias de resíduos
químicos e orgânicos. Este documentário tem interesse não tanto por desenvolver
uma reflexão digna de nota sobre o universo da arte moderna e sobre a
antropologia do lixo, dimensões muito incipientes no filme, mas sim, por um
lado, pela informação que fornece sobre este aterro e, por outro, pela participação
de sete catadores de material reciclável que lá trabalhavam. Estes tornam-se
também assunto da obra de Muniz, que os faz posar para composições que misturam
imagem fotográfica e materiais do aterro, posteriormente vendidas para apoiar a
associação de trabalhadores. Sem escamotear o horror das condições de trabalho
do local, o documentário trata sempre estas pessoas como seres humanos dignos e
iguais a todos nós.
25 de junho de 2017
O Sentido do Fim
Ver um filme baseado num livro de um autor estimado suscita inevitavelmente comparações que raramente são lisonjeiras para os responsáveis pelo filme. O Cinéfilo Preguiçoso nunca leu O Sentido do Fim, de Julian Barnes, mas admira o autor e alimentava expectativas quanto à adaptação realizada em 2017 por Ritesh Batra, cineasta indiano que obteve um sucesso colossal com a longa-metragem de estreia (The Lunchbox, 2013). O tema principal do enredo é a falibilidade da memória e a tendência para distorcer ou ocultar acontecimentos biográficos, de forma mais ou menos voluntária. A personagem principal, Tony Webster (Jim Broadbent), um londrino reformado e divorciado que se ocupa de uma pequena loja de máquinas Leica, força um reencontro com uma ex-namorada, Veronica, quando recebe um legado inesperado da mãe desta. A reaproximação com Veronica (interpretada por Charlotte Rampling, que ofusca tudo e todos quando entra em cena, como habitualmente) obriga-o a confrontar episódios dolorosos do seu passado. O filme tenta ao mesmo tempo gerir as revelações que vão sendo feitas sobre o passado das personagens (essencialmente mediante doses generosas de analepses), ilustrar as repercussões das investigações de Tony na sua vida actual (sobretudo nas relações com a ex-mulher, com a filha e com o neto recém-nascido) e encaminhar a narrativa para um final marcado pelo apaziguamento. O resultado é um filme competente, mas que se dispersa demasiado por estas diversas frentes, levando a que a caracterização das personagens e das relações entre elas seja bastante incipiente. O final, em particular, soa a falso: a reconciliação entre Tony, os seus próximos e o mundo em geral (nem falta uma chávena de café oferecida ao carteiro, que ele antes ignorava) não convence e revela uma tentativa de forçar algo parecido com um final feliz tradicional, como se confrontar o indizível fosse suficiente para apagar os traumas do passado e virar a página. Apesar da complexidade do argumento e de um punhado de boas interpretações, O Sentido do Fim é um filme dispensável.
18 de junho de 2017
O Conto dos Crisântemos Tardios
Felizmente, o
cinema Nimas continua a passar filmes de Mizoguchi. Esta semana o Cinéfilo
Preguiçoso viu O Conto dos Crisântemos
Tardios (1939), um filme que explora a ligação entre a arte e a vida, a
história individual e a tradição social e artística, a partir da longa
aprendizagem de um actor de teatro kabuki no final do século XIX. O argumento,
baseado num romance de Shofu Muramatsu, centra-se na personagem de Kikunosuke,
um jovem actor adoptado como herdeiro e futuro sucessor pelo actor mais
importante da época. Kikunosuke vê-se obrigado a abandonar a família e Tóquio quando
escolhe casar com Otoku, uma empregada humilde e também a única pessoa que é sincera
com ele sobre as suas capacidades dramáticas em vez de o bajular. O filme segue
os esforços do protagonista para se impor como actor sem a protecção do pai
adoptivo, mas sempre apoiado por Otoku, que tudo sacrifica pela carreira dele. O Conto dos Crisântemos Tardios tinha
tudo para ser um dramalhão insuportável, mas a dignidade das personagens e o
rigor com que Mizoguchi filma as situações mais angustiantes, situando sempre o
individual num pano de fundo colectivo extremamente complexo e diverso, equilibra
qualquer emoção mais exagerada. Particularmente interessantes são, por um lado,
todas as cenas nos bastidores labirínticos do teatro, as suas figuras nervosas
a correr de um lado para o outro, as trocas de palavras marcadas pela tensão
própria da representação, e, por outro, as cenas que caracterizam a relação dos
dois protagonistas, em espaços mais privados e sossegados, como a conversa ao
ar livre às duas da manhã em que aparece um vendedor de espanta-espíritos vindo
do nada, ou, mais tarde, a partilha de talhadas de melancia com sal. O ciclo
que o cinema Nimas tem apresentado centra-se em obras mais tardias de
Mizoguchi, essencialmente realizadas nos anos cinquenta. É de aplaudir a inclusão
deste filme anterior à Segunda Guerra Mundial, tão emocionalmente rico e subtil,
marcado por um brilhantismo formal impressionante – apesar de a qualidade da
cópia deixar a desejar.
11 de junho de 2017
Summertime
Nesta semana o Cinéfilo Preguiçoso viu o DVD de Summertime, filme de 1955 realizado por David Lean. Por comparação com as superproduções que se lhe seguiram e que trouxeram fama mundial a este cineasta (A Ponte do Rio Kwai, Lawrence da Arábia, Doutor Jivago), Summertime impressiona pela ligeireza formal e pela relativa simplicidade do enredo, baseado numa peça de sucesso (The Time of the Cuckoo, de Arthur Laurents). Jane Hudson (Katharine Hepburn), uma secretária do Ohio em visita a Veneza, envolve-se com Renato (Rossano Brazzi), um antiquário italiano que esconde inicialmente ser casado e que, quando a verdade vem ao de cima, critica Jane tanto por não aproveitar aquilo que a vida lhe oferece como por aspirar a um ideal inatingível. O filme distingue-se pela franqueza com que os protagonistas discutem aspectos sentimentais e pela frontalidade com que Lean nos mostra uma mulher e um homem em busca de amor e tão agudamente conscientes disso mesmo. Visualmente, Summertime parece uma apologia do Technicolor: Veneza é filmada em gloriosos tons de pastel e em enquadramentos que não fogem ao pitoresco (as gôndolas, a Praça de São Marcos e os canais são omnipresentes) e que podiam ser o resultado das filmagens que Jane, empunhando uma câmara, vai fazendo ao longo da sua estadia, como num filme dentro do filme que vai sendo abandonado à medida que a relação com Renato passa a absorver a sua atenção. É difícil não comparar este filme belo e tocante com Brief Encounter (1945), que, tendo em comum o tema do encontro sem futuro entre duas personagens sentimentalmente insatisfeitas, confirma que Lean se sentia tão à vontade com estes registos mais minimalistas como com os frescos históricos monumentais que lhe trouxeram visibilidade internacional e dois óscares de melhor realizador. Os rohmerianos também poderão encontrar alguns pontos em comum entre o percurso de Jane e o de Marie Rivière em O Raio Verde (1986), outra mulher habituada à solidão e ao sentimento de estar a mais, outra personagem entregue a deambulações estivais em busca de companhia e afecto.
4 de junho de 2017
Paterson
Devido
aos sucessivos adiamentos da data de estreia em Portugal de Paterson (Jim Jarmusch, 2016), o
Cinéfilo Preguiçoso já tinha comprado o DVD do filme há mais de um mês. Porém, por
se tratar de um dos seus realizadores preferidos, e com receio de ter
expectativas exageradas, só agora concretizou o visionamento. Afinal, apesar de
Paterson vir sendo descrito como
«grande filme», não corresponde a esse estereótipo. Em vez de um «grande filme»
temos, muito melhor, uma pequena maravilha. O filme segue a estrutura de uma semana do casal de protagonistas (Adam
Driver e Golshifteh Farahani) e do seu animal de estimação, o buldogue Marvin
(interpretado pela cadela Nellie, merecidamente premiada com o Palm Dog Award
no Festival de Cannes de 2016). O título do filme é simultaneamente 1) um
topónimo, que identifica a cidade do estado de New Jersey onde a acção decorre;
2) um antropónimo, que nomeia o protagonista; 3) e o título de um poema longo
de William Carlos Williams, poeta que também viveu nessa cidade. Como outros
filmes de Jarmusch, Paterson gera um
certo desconforto até nos habituarmos, por um lado, à estrutura formal
repetitiva e às rotinas das personagens, e, por outro, ao que de inesperado e
fantástico este quotidiano pode conter. Neste filme, um poeta não é um ser
excepcional que aparece nos jornais e na televisão irradiando literatura, mas
sim um condutor de autocarros cujos poemas nunca ninguém leu e que nem sequer
faz cópias do caderno onde os escreve. A famosa citação «no ideas but in
things», de William Carlos Williams, tem aqui todo o cabimento. A poesia está
imersa nas circunstâncias: o percurso entre casa e o emprego, o intervalo do
almoço, a conversa com um colega de trabalho antes de o percurso diário ter
início, as palavras dos passageiros do autocarro, os pares de gémeos que vão
aparecendo, alguns encontros imprevistos com personagens que transmitem
informação importante, o passeio com o cão à noite, a cave onde o protagonista
escreve, rodeado dos livros dos poetas preferidos. Até as interrupções, quando
se escreve um poema, fazem parte da poesia. Já nos interrogámos muitas vezes,
perante outros filmes de Jarmusch, sobre o que poderão estar a pensar as suas personagens
mais enigmáticas. Em Paterson, as
palavras dos poemas (da autoria de Ron Padgett) que vão surgindo no ecrã e no
caderno do protagonista dão-nos uma resposta. A cena final é típica de
Jarmusch: profunda e tocante apesar do tom minimalista e banal. A personagem do
turista japonês poderia ter saído de Mystery
Train (1989), The Limits of Control
(2009), ou, em boa verdade, de qualquer outro filme de Jarmusch, um realizador com
uma obra repleta de rimas internas que, tal como este filme, se caracteriza por
uma discreta harmonia de temas e de meios.
28 de maio de 2017
Aquarius
Com Aquarius (2016), o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, cuja actividade na realização se estende já por duas décadas, alcançou de repente uma visibilidade pouco habitual para o cinema brasileiro contemporâneo, além de um apreciável sucesso crítico e de bilheteira. Este filme foi apontado por muitos como uma metáfora dos tempos conturbados que o Brasil atravessa, mas essa leitura parece forçada e oportunista: o enredo, centrado em torno de Clara (Sônia Braga), uma mulher de 65 anos que resiste às propostas de uma construtora para vender o apartamento onde vive na cidade do Recife, poderia passar-se em muitos outros lugares do mundo, e questões como a corrupção e a especulação imobiliária são, infelizmente, universais. A denúncia das maquinações da construtora cai demasiado no maniqueísmo, com excepção das cenas finais, em que as térmites fornecem um equivalente visual à corrupção reinante. O principal interesse do filme reside na maneira como retrata a personagem principal e nos mostra como a obstinação desta, longe de ser um capricho, está ancorada numa profunda rede de afectos e memórias associados ao edifício. Mendonça Filho filma os espaços, quer do apartamento de Clara, quer das zonas circundantes, com notável atenção aos objectos e uma liberalidade judiciosa na utilização dos travellings e na exploração da profundidade de campo, resultando daí um filme lento no ritmo mas visualmente exuberante, embora também repleto de zonas de sombra e amargura. Apesar da omnipresença de Clara e da secundarização de todas as outras personagens, o filme nunca se resume a um veículo para Sônia Braga, o que não deixaria de acontecer nas mãos de um realizador menos hábil perante uma actriz tão poderosa e subtil. Duas referências finais: para a música, usada de forma profusa mas muito original (as canções surgem quase sempre integradas na acção do filme, postas a tocas por Clara em diferentes suportes) e para o prólogo, situado em 1980, que retrospectivamente pode parecer algo deslocado, mas que serve, através da personagem da Tia Lúcia, para consolidar as componentes de dignidade e de transmissão de valores entre gerações, assim como a identificação entre o espaço afectivo e o espaço arquitectónico.
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