Esta
semana, Double Bill na Cinemateca,
com os filmes City Girl (F.W. Murnau,
1930) e Divine (Max Ophüls, 1935). Há
mais de dois meses que o Cinéfilo Preguiçoso não entrava numa sala de cinema –
e, desta vez, não propriamente por preguiça –, mas quando as luzes da sala M.
Félix Ribeiro se apagaram e o pianista Daniel Bruno Schvetz começou a tocar
piano para acompanhar o filme de Murnau, outro universo se impôs. O tema
unificador das duas sessões desta Double
Bill era o suposto contraste entre o campo e a cidade. Em City Girl, temos um agricultor que vai a
Chicago vender a colheita de trigo e se apaixona por uma empregada de
restaurante, a rapariga da cidade do título, acabando por casar com ela e
levá-la para o campo. Cansada da confusão e da poluição, esta rapariga urbana
sonhava com a «a vida limpa» e as pessoas amáveis do campo, mas quando lá chega
conclui que as pessoas não são tão diferentes como se
pensaria. Por sua vez, no filme de Max Ophüls temos uma rapariga do campo que
uma amiga convence a ir trabalhar como corista em Paris. A grande ironia deste segundo
filme reside no facto de a protagonista nunca se deixar seduzir pelos encantos
da cidade (aventuras, luzes da ribalta, tentativas de sedução, roupas, drogas,
etc.), acabando por preferir uma vida muito semelhante àquela que inicialmente
deixara. Sobre o filme de Murnau, diga-se que a secção que se passa na cidade,
subtilmente hopperiana, é muito mais interessante do que a que se passa no
campo, apesar da beleza dos momentos iniciais desta segunda secção. Na folha da
Cinemateca, Manuel Cintra Ferreira explica que o projecto inicial de Murnau era
fazer um filme sobre «o carácter sagrado do pão», mas o realizador viu-se depois obrigado
pelo produtor a dar mais destaque aos conflitos familiares e sentimentais. Nos
episódios que decorrem no campo, a presença das personagens desagradavelmente
estereotipadas do pai e dos ceifeiros contribui para a impressão de um filme
algo desequilibrado, embora ocasionalmente muito belo. Quanto a Max Ophüls, se
alguma vez fez um mau filme, o Cinéfilo Preguiçoso ainda não o viu. Neste Divine, consegue captar na perfeição a
energia do teatro, tanto no palco como nos bastidores, em parte graças à
versatilidade e ousadia dos movimentos de câmara – uma das imagens de marca
deste cineasta. Pela liberdade formal e pelo humor iconoclasta e pueril,
Divine poderia ter sido filmado em plena Nouvelle
Vague.
8 de outubro de 2017
1 de outubro de 2017
Transe
Tem-se instalado uma certa tendência para fazer crer que um bom argumento é aquele que submete o espectador a truques, armadilhas e reviravoltas infindáveis, revelando-lhe gradualmente a verdade sobre os factos narrados. Os Suspeitos do Costume (1995, realização de Bryan Singer, argumento de Christopher McQuarrie) foi talvez o filme que mais ajudou a lançar essa tendência, que se presta aos abusos mais irritantes, mas também a variações fascinantes e engenhosas (veja-se, por exemplo, alguns filmes de David Mamet). Transe (2013), de Danny Boyle, visto esta semana em DVD, encaixa-se perfeitamente nesta categoria. O enredo gira em torno de um assalto a uma casa de leilões e das consequências da amnésia de Simon (James McAvoy), um funcionário, cúmplice dos criminosos, que sofre uma agressão durante o assalto e se esquece do lugar onde escondeu a tela de Goya roubada. Para recuperar a memória de Simon, o bando recorre aos serviços de uma hipnoterapeuta (Rosario Dawson), que depressa revela saber muito mais sobre o caso do que se pensaria à primeira vista. A ideia de construir um thriller baseado na evocação de memórias obliteradas pelo trauma não é destituída de interesse. Infelizmente, Boyle faz questão de gastar a sua energia a usar cada plano para supostamente demonstrar virtuosismo e ousadia formal, em vez de aproveitar as potencialidades da ideia de base. Transe é o exemplo perfeito de um filme que se confunde com um longo número de prestidigitação e cujo objectivo parece resumir-se a trocar as voltas ao espectador. As personagens são exploradas de forma artificial, os actores trabalham em piloto automático e os clichés do filme de gangsters estão bem presentes, se bem que camuflados pelo aparato visual e por várias camadas de pretensa sofisticação. Para cúmulo, a associação ao tema da arte é extremamente ténue e parece existir apenas para conferir uma frouxa caução cultural: em vez de um quadro de Goya, o objecto escondido poderia ser um diamante ou um caderno com uma fórmula secreta, sem que o resto de filme sofresse alterações de maior. É curioso notar que, dois anos depois de Transe, Danny Boyle realizou Steve Jobs (2015), filme muito mais consistente e interessante. Sem dúvida que o facto de ter Aaron Sorkin como argumentista ajudou um bocadinho. Saber escolher os colaboradores é tão, ou mais, importante do que ter talento.
24 de setembro de 2017
Glengarry Glen Ross
O Verão já lá vai, estamos quase no fim de Setembro, e
mesmo assim ainda não estreou nada de jeito nas salas de cinema. Para evitar o
desânimo, o Cinéfilo Preguiçoso decidiu recorrer a um autor – David Mamet – que
raramente desilude (confirmar em textos sobre The Spanish Prisoner e House of Games). Visto em DVD, o filme Glengarry
Glen Ross (1992) foi realizado por James Foley, mas adaptando uma peça de
David Mamet, com guião do mesmo dramaturgo. Apesar de o seu tema – conflitos e dramas profissionais de
vendedores/vigaristas –
não parecer imediatamente apaixonante, o filme não permite sequer um segundo de
desinteresse ou desatenção, graças à intensidade dos diálogos e ao desempenho
dos actores. Glengarry Glen Ross espanta-nos
com um elenco de estrelas masculinas: Ed Harris, Al Pacino, Alan Arkin, Kevin
Spacey e sobretudo Jack Lemmon, merecidamente premiado com a taça Volpi, para
melhor actor, no Festival de Veneza – a gama
de emoções que perpassam por um rosto aparentemente tão banal como o de Lemmon é
assombrosa. (Por este filme, nos Óscares de 1993, Al Pacino, um actor que
representa sempre a mesma personagem – ele próprio –, recebeu uma nomeação como
melhor actor secundário, no ano em que venceu o prémio de melhor actor
principal, com o medíocre Scent of a
Woman. Lemmon não foi nomeado.) A mestria de Mamet é evidente nos longos diálogos destes vendedores que têm de apresentar lotes de terreno
mirabolantes como oportunidades de investimento imperdíveis. Há um contraste
marcado entre o conteúdo ténue destas conversas e a energia com que são
enunciadas, como se fossem uma questão de vida ou de morte. As personagens
falam para mostrarem que estão vivas, apesar da profissão que têm e de a vida no
escritório despertar o que há de pior em cada ser humano. Como noutros filmes
de Mamet, há um objecto de cobiça mais ou menos abstracto, referido até à
exaustão: em A Prisioneira Espanhola
era um misterioso «processo», descrito num caderno vermelho; em Heist, umas barras de ouro; em Glengarry Glen Ross há umas enigmáticas
«leads», uns cartõezitos de aparência insignificante, alguns dos quais incluem
informação decisiva para as vendas se realizarem, enquanto outros não passam de
becos sem saída, por conterem apenas contactos praticamente impossíveis de
explorar. Estas «leads» são tão cobiçadas, que desencadeiam um assalto aos
escritórios da empresa, precipitando um desenlace surpreendente. Glengarry Glen Ross permite leituras a
vários níveis, incluindo o político e sociológico, mas é também (e nisto o
filme é mametiano até à medula) uma extraordinária exploração de como a linguagem,
supostamente um instrumento de elucidação e representação do mundo, pode ser
usada para ludibriar e para adquirir ascendente sobre um adversário.
17 de setembro de 2017
Queen of Earth
Catherine, a personagem principal do filme Queen of Earth (2015), de Alex Ross Perry (de quem o Cinéfilo Preguiçoso já abordou Listen Up Philip e Golden Exits), sofreu recentemente um duplo trauma: a ruptura com o namorado e o suicídio do pai, um artista plástico famoso de cuja sombra ela nunca se conseguiu libertar. O filme divide-se entre duas épocas, separadas por um ano. Na actualidade, Catherine (interpretada por Elizabeth Moss, excelente como sempre), instala-se na casa de férias da amiga, Virginia (Katherine Waterston), onde já estivera no ano anterior, na companhia do então namorado. Uma quarta personagem, particularmente irritante, fornece um elo de ligação adicional entre os dois tempos: trata-se de Rich (Patrick Fugit), um vizinho que estabelece uma relação com Virginia e cuja superficialidade e sobranceria fomentam as clivagens e atritos entre as amigas. Os raccords entre as duas épocas são frequentes e súbitos, como se qualquer detalhe fosse suficiente para evocar a memória, agora dolorosa, do ano interior. Perry insiste em grandes planos e em diálogos que, muitas vezes, se transformam em monólogos. Praticamente não existe estrutura narrativa ou exploração do espaço que possam servir de escape: tudo se resume às emoções lidas nos rostos e às palavras, quase sempre usadas para ferir ou culpar. Os planos intercalares da natureza servem meramente para ilustrar a passagem do tempo. As efusões verbais funcionam como instrumento de catarse para as personagens, mas essas catarses nunca são definitivas e alternam com períodos de apatia profunda. Queen of Earth, no seu estilo quase bergmaniano (menos a dimensão espiritual), rigorosamente expurgado da ironia e sofisticação comuns no cinema independente norte-americano actual, é um filme profundamente honesto e lúcido sobre a maneira como planos emocionais distintos interagem de forma a precipitar a queda num abismo de insanidade, neste caso uma separação, uma amizade que se desagrega e a necessidade de se emancipar da influência póstuma de um ente querido que desapareceu. A ausência de qualquer sugestão reconfortante de que Catherine está no bom caminho para superar a crise faz parte dessa honestidade.
Queen of Earth é o mais satisfatório de entre os três filmes de Perry que o Cinéfilo Preguiçoso teve a oportunidade de ver.
10 de setembro de 2017
David Lynch: The Art Life
O Cinéfilo Preguiçoso tinha
perdido David
Lynch: The Art Life (Jon Nguyen,
Rick Barnes e Olivia Neergard-Holm, 2016) não só no DocLisboa 2016 mas também há cerca de um mês, quando passou nas
salas. Constatando que estava disponível no videoclube de uma operadora de
telecomunicações, esforçou-se por não desperdiçar a terceira oportunidade de
ver este documentário. David Lynch: The
Art Life organiza-se em torno das palavras de Lynch (n. 1946), em
associação livre, como numa sessão de terapia. Este relato é ilustrado por vídeos
caseiros e fotografias da família do realizador, bem como por imagens dos
quadros da sua autoria e cenas um pouco decorativas que mostram o artista,
sempre muito fotogénico, bem-vestido e bem penteado, a trabalhar no ateliê. Apesar
de Lynch se ter destacado essencialmente enquanto cineasta, a sua relação com a
arte iniciou-se na pintura, uma prática que cultiva até hoje e parece não só
tê-lo ajudado a concentrar energias e a preparar-se para a sua obra
cinematográfica, mas também funcionar como elemento indissociável do seu olhar
e da sua vida. Neste filme, Lynch recorda os acontecimentos mais marcantes do
seu percurso artístico, até à realização de Eraserhead
(1977), quando, um pouco inesperadamente, encontra no cinema o meio adequado
para se expressar. Vai referindo as dificuldades da relação com os pais, a estranheza
de certos acontecimentos quotidianos que testemunhou na infância e adolescência,
descrevendo ao mesmo tempo os ateliês em que que trabalhou e dando destaque às
pessoas que desde cedo o compreenderam e apoiaram. Trata-se de um discurso surpreendentemente
ingénuo, desprovido de eloquência, quase desinteressante, mas que ainda assim
transmite a enorme singularidade da perspectiva deste artista. Vamos percebendo
lentamente aquilo que as pessoas que o foram apoiando souberam adivinhar nele
desde o início: um olhar único, assente no interesse por assuntos que a maioria
de nós evita e nunca consideraria inspiradores, mas que em Lynch se traduz em
filmes de culto como Blue Velvet (1986)
ou Mulholland Drive (2001). Quem vir
este documentário à procura de lições de vida, citações sobre arte ou
afirmações brilhantes e memoráveis sentir-se-á defraudado. Ao adoptar um
testemunho na primeira pessoa do singular como solução narrativa exclusiva, David Lynch: The Art Life reflecte
fielmente a personalidade do realizador (ou a personalidade que ele opta por
projectar), avessa a teorizações e moralismos, e funciona essencialmente como
uma janela para um universo criativo que é muito mais sensorial e emocional do
que verbal.
3 de setembro de 2017
Uma Viagem pelo Cinema Francês
No documentário Uma Viagem pelo Cinema Francês (2016), que passou recentemente pelas salas portuguesas e está disponível tanto em DVD como nos videoclubes das operadoras de televisão, o realizador Bertrand Tavernier revisita as obras e pessoas que marcaram o seu percurso pessoal de jovem cinéfilo, crítico, assistente de realização e cineasta, focando-se essencialmente no período entre 1930 e 1970 e em personalidades como Jean Renoir, Jean Gabin e Jean-Pierre Melville. O narrador é o próprio Tavernier, ajudado por depoimentos de numerosos actores, realizadores e técnicos, e são abundantes os excertos de filmes que funcionam como ilustração das características e inclinações dos cineastas abordados. Uma Viagem pelo Cinema Francês pouco traz de novo do ponto de vista formal, mas possui mérito pela homenagem que presta a um período riquíssimo do cinema francês, que era, e continua a ser, mau grado as crises periódicas, um caso de pujança criativa e de sustentabilidade económica que pode ser considerado singular no contexto europeu. O olhar de Tavernier é o de um crítico: apesar da paixão evidente que o move, resiste à tentação de transformar o documentário numa elegia sentimental e mantém uma postura analítica e didáctica, que, contudo, evita o pedantismo. Além disso, consegue um bom equilíbrio entre a exploração do seu percurso pessoal e a representatividade histórica, apesar do destaque dado aos realizadores de quem foi mais próximo, em particular Melville e Claude Sautet. Este equilíbrio só é posto em causa quando Tavernier se permite derivas extracinematográficas, perfeitamente dispensáveis, sobre as posições políticas e as personalidades de Renoir e de Gabin. São ainda de louvar o destaque atribuído a realizadores caídos no esquecimento, como Edmond T. Gréville, e a aspectos normalmente menosprezados neste tipo de documentários, como a composição de música para o cinema e a conservação de filmes (a dada altura, Tavernier narra um episódio rocambolesco que envolve o resgate de filmes antigos que iam ser reciclados para o fabrico de pentes…) Sem dúvida, os fãs do cinema francês encontrarão neste documentário alguma informação interessante e invulgar não só sobre personalidades e filmes emblemáticos, mas também sobre figuras e obras mais obscuras, a descobrir ou redescobrir.
30 de julho de 2017
A Quiet Passion
Antes das
férias, o Cinéfilo Preguiçoso termina o mês de Julho em grande, com o filme A Quiet Passion, de Terence Davies
(2016), visto em DVD, sobre a vida da poeta americana Emily Dickinson
(1830-1886). Não se trata bem de um biopic.
Davies não tem como objectivo principal a biografia propriamente dita, mas sim
retratar o pensamento e as ideias da escritora em face de um tempo em que nunca
consegue integrar-se. Para tal, Davies explora o contraste entre Dickinson e
outras figuras femininas – a mãe, a tia, a amiga, a irmã, a cunhada –, não
hesitando em colocar lado a lado personagens que na realidade nunca se
conheceram (facto que tem causado alguma celeuma desinteressante). Uma das
grandes surpresas e trunfos do filme é este contraste revelar uma Emily Dickinson
insatisfeita, descontente, infeliz, revoltada, irónica e insolente, ainda que
com muito sentido de humor. Esperaríamos antes a imagem tradicional da
escritora tímida e sossegada que se tornou conhecida por raramente sair de
casa. Em vez disso, temos uma figura muito semelhante a certas personagens das
irmãs Brontë – referência forte neste filme –, sempre sincera e aguerrida,
pensando livremente e dizendo o que lhe vai na alma, sem qualquer preocupação
com as conveniências. A dada altura, a irmã faz-lhe a seguinte repreensão: “Não
penses que és Jane Eyre!” Davies filma com enorme sobriedade e sem grandes
preocupações naturalistas, privilegiando os planos frontais. Um dos grandes
momentos do filme é o da sessão fotográfica da família em que assistimos aos
efeitos da passagem do tempo sobre as personagens fotografadas. Como em Paterson, os poemas ocupam
um lugar importante, mas, ao contrário do que se verifica no filme de Jarmusch,
em A Quiet Passion não há ligação
ilustrativa directa entre textos, acção e imagens. Em Paterson, a poesia emergia das rotinas do protagonista, no filme de
Terence Davies deriva claramente das aventuras mentais da escritora, muitas
vezes filmada a escrever a partir das três da manhã, para não sofrer
interrupções nem distracções. Se quisermos, por outras palavras, em Paterson a literatura é feita de vida; em A Quiet Passion a vida é feita de literatura. São de salientar ainda a omnipresença da música,
que nos remete para o sublime Distant
Voices, Still Lives (1988), primeira longa-metragem do realizador, e as
interpretações de Jennifer Ehle no papel de Lavinia, irmã de Emily, e de
Cynthia Nixon – esta verdadeiramente soberba – no papel principal. Ehle
tinha-se tornado conhecida graças ao papel de Elizabeth Bennet numa adaptação
televisiva de Pride and Prejudice
(1995); Nixon é sobejamente conhecida dos fãs da série Sex and the City.
O Cinéfilo Preguiçoso regressará em Setembro e deseja aos seus fiéis leitores umas boas férias.
O Cinéfilo Preguiçoso regressará em Setembro e deseja aos seus fiéis leitores umas boas férias.
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