Nunca
se sabe muito bem o que esperar de Paul Thomas Anderson. Já tivemos filmes
localizados na era contemporânea, no início do século vinte, em meados do
século vinte, sobre um grupo de actores de cinema pornográfico, sobre pessoas
religiosas ou com problemas de drogas, e até filmes com sapos que caem do céu. Linha-Fantasma passa-se nos anos
cinquenta do século XX, em Inglaterra, e conta uma história um pouco gótica em
que servir cogumelos venenosos funciona como acto de amor. A narração do filme assenta
em momentos da conversa da protagonista, Alma (Vicky Krieps), com um médico, a
quem esta vai explicando o segredo da sua relação com Reynolds (Daniel
Day-Lewis), um costureiro obcecado com a sua profissão. Em vão se procura o
título do livro de que o argumento possa ter sido adaptado: saiu tudo da cabeça
imprevisível do próprio Thomas Anderson. Um costureiro obsessivo como
protagonista pareceria terreno fértil para os desmandos dramáticos em que Day-Lewis
costuma ser pródigo, mas este actor aparece aqui surpreendentemente contido,
sobretudo quando se pensa na actuação descontrolada que tem em There Will Be Blood (Paul Thomas
Anderson, 2007). Tanto Krieps como Lesley Manville, no papel da ambígua irmã de
Reynolds (que lhe valeu uma nomeação para os óscares), aproveitam esta
contenção para assinarem duas interpretações seguras que contribuem para o
equilíbrio do filme. Linha-Fantasma não
é um filme tão olvidável como Inherent Vice (2014), nem tão enigmático como The
Master (2012). Anos depois de ter visto ambos, o Cinéfilo Preguiçoso
recorda o primeiro como uma palhaçada sem pés nem cabeça, enquanto continua a
pensar com interesse nas personagens complexas e poderosíssimas do segundo, sem
ter a certeza de as ter compreendido plenamente. Linha-Fantasma não tem personagens tão interessantes. Ainda assim, ao
contrário de Inherent Vice, é um
filme suficientemente coeso para não desaparecer totalmente da memória. A sua
maior virtude talvez seja a de evitar derivar para meditações grandiloquentes
sobre a natureza do génio e da criação, e a maneira como descreve a evolução de
uma relação em que a procura de conforto e dedicação mútua, um dos motores mais
convencionais da sociedade, adquire contornos singularmente perversos. Não vale
a pena procurar uma mensagem transcendental naquilo que afinal não passa de um
exercício, estilisticamente requintado, por vezes irritante, mas que funciona satisfatoriamente
como divagação sobre a maneira bizarra e improvável que algumas pessoas
encontram para se aproximarem e serem felizes juntas.
11 de fevereiro de 2018
4 de fevereiro de 2018
Gatos
Numa época em que certas vozes clamam que o amor pelos animais não passa de um tosco sucedâneo da solidariedade entre seres humanos e que é imoral preocuparmo-nos com o bem-estar animal quando há tantas pessoas a sofrer, é refrescante assistir a um filme que sugere que cuidar dos animais pode ser um acto eminentemente moral, terapêutico e compatível com as qualidades humanas mais prezadas. Falamos de Gatos (2016), um documentário da autoria da realizadora turca Ceyda Torun que se debruça sobre a numerosa população de gatos de rua de Istambul e sobre os habitantes que se dedicam a alimentá-los, tratá-los e protegê-los. Não se pode dizer que o filme traga alguma inovação formal ou que adopte um ponto de vista particularmente ousado. Mais do que atingir a imortalidade cinematográfica ou distinguir-se dos seus pares a todo o custo, Torun aposta em retratar uma realidade singular de forma discreta e inteligente. Talvez o maior trunfo do filme seja o equilíbrio que atinge entre a dimensão humana e felina: é dada ênfase à maneira como as pessoas beneficiam, afectiva e espiritualmente, da convivência com os gatos, mas sem que estes surjam como mero pretexto ou veículo. Os gatos são retratados em todo o esplendor da sua natureza doméstica mas com uma componente selvagem impossível de anular. É prestada a devida atenção às manifestações temperamentais dos animais e aos seus feitos atléticos, mas também à sua fidelidade aos que os protegem e alimentam. Os impressionantes movimentos de câmara, adoptando o ponto de vista dos gatos que calcorreiam as ruas da cidade, permitem-nos explorar bairros de Istambul que nada têm de turístico ou de fotogénico (alguns fazem lembrar singularmente Lisboa) e que provavelmente nunca veríamos noutras circunstâncias. Pode argumentar-se que o filme, apesar das menções dispersas a situações mais trágicas (atropelamentos, abandonos), apresenta uma versão edulcorada da realidade e evita abordar frontalmente questões mais pragmáticas sobre a convivência entre felinos e humanos numa metrópole tão vasta. Por exemplo, nunca se fala em números nem se discute que tipo de políticas municipais existem para gerir esta superabundância de animais de rua. Mas reconheça-se que Gatos, no seu tom assumido de quase-fábula urbana, funciona e transmite correctamente uma mensagem bem-vinda de apego, devoção e compromisso.
28 de janeiro de 2018
Jogo da Alta-Roda
O
Cinéfilo Preguiçoso é um grande fã de Aaron Sorkin, mais conhecido como
argumentista de séries como The West Wing
e The Newsroom ou de filmes como Rede Social e Steve Jobs. Em Jogo da
Alta-Roda (2017), além de assinar o argumento, baseado no livro de memórias
Molly’s Game, Sorkin estreia-se na
realização de longas-metragens para cinema. O filme segue a história de Molly
Bloom (Jessica Chastain), uma esquiadora de alta competição que, depois de sofrer
um acidente numa prova que poderia assegurar a sua participação nos Jogos
Olímpicos, decide abandonar o desporto e, um pouco por acaso, começa a
organizar jogos de póquer com ricos e famosos. Pela sua vulnerabilidade,
Jessica Chastain é uma escolha interessante para desempenhar o papel desta
mulher fortíssima, várias vezes derrubada pelas circunstâncias, mas que nunca
desiste. Desde pequena, Molly é educada para vencer – ao ponto de, na idade
adulta, depois de ter abandonado a carreira desportiva, continuar a desejar obter
vitórias, embora sem saber exactamente o que pretende ganhar. Jogo da Alta-Roda é um filme
interessante mesmo para quem embirre com temas como drogas, máfia e desporto.
Talvez o ponto mais fraco seja a insistência numa explicação psicológica para o
comportamento da protagonista: a sua relação com um pai exigente e ao mesmo
tempo cheio de falhas. Entre outras características típicas dos argumentos de
Sorkin, contudo, encontramos aqui o discurso rápido e espirituoso, personagens
inteligentes que, mesmo assim, cometem erros ingénuos, e a exploração de temas
e ideais como a honra e a perseverança em face da adversidade – sem, ao mesmo
tempo, o filme ostentar um moralismo irritante. (Por exemplo, é um prazer – e um alívio
– ouvir a protagonista dizer, perto do fim: «Será que aprendi muito com esta
experiência? Nem por isso.») A estrutura do filme (alternância entre analepses e
um momento narrativo presente em ambiente de inquérito judicial) também faz
lembrar a de Rede Social. Por se
tratar de um filme sobre póquer e pelo facto de o discurso das personagens ser
tão cativante, recordamo-nos imediatamente de David Mamet e ficamos à espera de
uma reviravolta para a desonestidade, que nunca acontece – e talvez esta seja
não só a maior surpresa do filme mas também a jogada mais importante da
protagonista. Tal como Molly não se deixa comprar pela proposta do procurador,
Sorkin não se vende ao fascínio generalizado pela venalidade e pelo cinismo cultivado
por tantos filmes e séries americanos – e isso é refrescante.
21 de janeiro de 2018
Chama-me pelo Teu Nome
Adaptado do romance homónimo de André Aciman, Chama-me pelo Teu Nome (2017) é um filme realizado por Luca Guadagnino. James Ivory, cuja extensa carreira como realizador dispensa apresentações, assina o argumento. O enredo, que tem lugar na Lombardia no verão de 1983, é protagonizado por Elio (Timothée Chalamet), um adolescente multilingue e de temperamento artístico, e Oliver (Armie Hammer), um americano de proporções hercúleas que visita a família de Elio para trabalhar com o pai deste, um professor de arqueologia. Chama-me pelo Teu Nome não traz nada de essencialmente novo ao subgénero coming of age e ao tema da paixão estival em cenário idílico, explorada até à exaustão na história do cinema. A aproximação entre Elio e Oliver é mostrada de forma bastante clássica, não faltando os avanços, recuos, elipses, hesitações e mal-entendidos. A «reconstituição» dos anos oitenta contrasta com o carácter fora do tempo da relação, acentuado pelas descobertas arqueológicas no mar. Alguns dos maneirismos de Guadagnino, toleráveis nas suas obras anteriores (em particular no soberbo Eu Sou o Amor, de 2009, mas também no mais desequilibrado Mergulho Profundo, de 2015), resultam aqui deveras irritantes, talvez por se tratar de um filme com um tom mais calmo e isento de erupções emocionais muito explícitas, onde qualquer truque ou exibicionismo se torna mais conspícuo. Um exemplo é a maneira como o realizador explora a profundidade de campo para acentuar a tensão dramática entre duas personagens. O recurso a metáforas visuais eróticas envolvendo fruta fresca também deixou o Cinéfilo Preguiçoso um tanto céptico, embora se enquadre na tendência de Guadagnino para esticar a corda e incluir momentos de gosto duvidoso em todos os seus filmes. Ainda assim, o filme vale pela maneira discreta mas eficaz como nos mostra uma época relativamente próxima mas que parece já tão distante, pelo modo como, apesar da atmosfera idílica, consegue captar algumas das correntes subterrâneas típicas do melodrama, pela fotografia belíssima (da responsabilidade de Sayombhu Mukdeeprom, habitual colaborador de Apichatpong Weerasethakul e que trabalhou com Miguel Gomes em As Mil e Uma Noites, de 2015) e pela magnífica banda sonora que inclui três canções de Sufjan Stevens, além do excelente primeiro movimento de Hallelujah Junction, de John Adams.
14 de janeiro de 2018
O Meu Belo Sol Interior
O Meu Belo Sol Interior, de Claire Denis (2017), foi
inspirado pelo famoso livro Fragmentos de
Um Discurso Amoroso, em que Roland Barthes reflecte sobre os dilemas das
relações afectivas – não só heterossexuais. No filme seguimos as aventuras
sentimentais de uma pintora (Juliette Binoche) de meia-idade com os homens com
quem se vai relacionando. O Meu Belo Sol
Interior assenta em confrontos verbais longos e cansativos em que os
parceiros da protagonista debitam as banalidades que se convencionou serem
tipicamente masculinas, suscitando uma insatisfação que também se convencionou
ser tipicamente feminina: enquanto os homens pretendem apenas relações breves,
a protagonista procura uma relação mais duradoura. O facto de as banalidades discursivas
ficarem quase todas a cargo dos homens, quando o próprio discurso feminino
sobre o amor pode ser igualmente rico em dislates e absurdos, não contribui
para tornar o filme interessante. Além disso, enquanto o livro de Barthes
explora subtilezas e percepções mínimas, O
Meu Belo Sol Interior fica à superfície, insistindo em lugares-comuns para os
quais a paciência do Cinéfilo Preguiçoso se vai mostrando escassa. Parece ser
intenção do filme proceder a uma abordagem irónica ao papel das palavras na
vida, nas relações humanas e no cinema: a protagonista surge quase sempre
enredada em conversas sem saída e só encontra alguma paz e felicidade quando o
silêncio se impõe. É inevitável, no entanto, por um lado, duvidar-se um pouco
da ironia de diálogos que já ouvimos em tantos sítios diferentes e, por outro,
sentir falta de protagonistas femininas que não tenham a vida afectiva como
preocupação exclusiva – em contraste, ver, por exemplo, a personagem de
Isabelle Huppert no filme L’Avenir,
de Mia Hansen-Løve. Claire Denis é (a par, por exemplo, de Jean-Claude Brisseau
ou Alain Guiraudie) uma daquelas realizadoras cuja originalidade e ousadia
contribuem muito mais para a riqueza do cinema francês do que alguns nomes bem mais
mediáticos. Fica-se à espera de um filme seu que se aproxime da excelência do
extraordinário Beau Travail (1999),
do belíssimo 35 Rhums (2008), ou
ainda desse maravilhoso filme-entrevista a Jacques Rivette (co-realizado por
Serge Daney) chamado Jacques Rivette, le
Veilleur (1990).
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