Godard em
3D!!! E eis que o Cinéfilo Preguiçoso se vê compelido a vasculhar as gavetas da
cómoda em busca dos óculos que usou para ver Pina, de Wim Wenders (2011). Adieu
au Langage é um filme denso, exasperante e genial como qualquer outro que
Godard tenha realizado desde que Jean-Paul Belmondo resmoneou «Allez vous faire
foutre!» ao volante de um carro roubado – mas diferente de qualquer outro e
radicalmente singular, como é próprio de alguém que sempre se soube pioneiro e
que sabe que não deixará seguidores. (Vale a pena falar da extraordinária
beleza plástica do filme – e de como esta vertente tem sido negligenciada nas
análises à obra de JLG?) Em vez dos 70 minutos anunciados, fica-se sem a
certeza de que a projecção tenha terminado, a julgar pela maneira como certas
imagens e frases perduram: «Moi je suis là pour autre chose. Je suis là
pour vous dire non et pour mourir. Pour
vous dire non et pour mourir.»
12 de janeiro de 2015
5 de janeiro de 2015
Mr. Turner
O tema de Mr. Turner, realizado por Mike Leigh, é menos a pulsão criadora e o génio do
que um homem (incidentalmente genial) e a sociedade em que este se movia, neste
caso a Londres da primeira metade do século XIX. A reconstituição histórica é
excelente, a direcção artística é notável, os diálogos são fluidos, o humor é
abundante. Porém, o principal mérito do filme consiste em retratar um Joseph
Turner imensamente humano, complexo e singular mas ao mesmo tempo tão fruto da
sua época e do seu meio como qualquer um dos seus contemporâneos. Os méritos de
Timothy Spall no papel principal já foram devidamente elogiados, mas não seria
decente deixar de chamar a atenção para os desempenhos de Marion Bailey, Paul
Jesson e Martin Savage. Fortemente recomendado.
29 de dezembro de 2014
Tokyo Twilight | E Agora? Lembra-me
Há as
alturas em que a falta de tempo ou as circunstâncias fazem escassear as
ocasiões de ir ao cinema. Todo o cinéfilo preguiçoso sabe bem que é imperioso
dispor de um arsenal de alternativas para ocasiões como estas. Em período de
festas e de digestões laboriosas, a atenção volta-se para o armário dos DVDs. Tokyo Twilight (1957) é um Ozu sombrio, invulgarmente cru e franco no
tratamento da desilusão amorosa e familiar. E Agora? Lembra-me (2013), de
Joaquim Pinto, objecto cinematográfico salutarmente inclassificável, tem como
grande mérito a recusa de tentar impor coerência à amálgama de impressões,
memórias, tomadas de posição e anotações diarísticas que o compõem. As festas
ainda estão para durar. Enquanto houver DVDs, há esperança. Bom ano.
22 de dezembro de 2014
Boyhood
Com Boyhood (2014), Richard Linklater confirma o seu interesse por confundir o
tempo de um filme com o tempo de uma vida. Contudo, tal como sucedia na
sequência Before Sunrise (1995)/ Before Sunset (2004)/Before
Midnight (2013), o que faz sobressair o filme é menos o estratagema e mais o
talento para dinamitar a partir de dentro uma matriz clássica (o encontro
romântico de uma só noite ou o filme “coming of age”). Está lá tudo: o primeiro
beijo, a primeira namorada e a primeira bebedeira não faltam à chamada. Mas
também estão lá os momentos de ligeireza e irrelevância que sustentam uma vida.
15 de dezembro de 2014
Lamentações gerais | Saint Laurent
Os humores da distribuição
cinematográfica portuguesa (entenda-se “lisboeta”, com a nossa vénia e perdão
para o resto do país cinéfilo) são fonte de pasmo continuado para o Cinéfilo
Preguiçoso. Como aconteceu em 2013, o final de 2014 regista uma concentração
estonteante de estreias e reposições. Entre as quatro curtas de Manoel de
Oliveira (incluindo a sua mais recente obra, O Velho do Restelo), o último
Cronenberg (Mapas para as Estrelas), dois clássicos de Chaplin que nos caem
não se sabe bem de onde (mas que não se recusam), um documentário animado de
Michel Gondry sobre uma conversa com Noam Chomsky (É Feliz o Homem que É Alto?)
e mais um capítulo da saga de Ventura (Pedro Costa, Cavalo Dinheiro), sobra
pouco tempo comprar as prendas e o bolo-rei. Tamanha fartura tem como efeito
secundário a indolência e a vontade de ficar no recato do lar a ver um DVD (por
exemplo, o último capítulo de A História do Cinema, de Mark Cousins - muito
recomendável, mau grado os ocasionais desvarios e a ausência de menção a Éric
Rohmer) e a recordar os detalhes de Saint Laurent, um filme singularmente
cerebral e físico que confirma Bertrand Bonello como um realizador a não perder
de vista.
14 de dezembro de 2014
O Cinéfilo Preguiçoso
O Cinéfilo Preguiçoso gosta muito de cinema, mas acontece-lhe com
frequência ver-se traído pela falta de energia e pela falta de
imaginação e pontualidade dos responsáveis pela distribuição de filmes
em sala. É por isso que o leitor de DVDs e o sofá são dois dos seus
amigos mais fiéis.
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