19 de janeiro de 2015

Sono de Inverno



Embora esteja bem ciente de que o mundo em que vive é um mundo injusto, o Cinéfilo Preguiçoso não pôde evitar o espanto ao constatar que Sono de Inverno (2014), de Nuri Bilge Ceylan, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, ao passo que o infinitamente mais rico e complexo Era Uma Vez na Anatólia (2011) se ficou pelo Grande Prémio do Júri. Não é na duração (mais de três horas) nem no ritmo lentíssimo, coisas que não assustam o Cinéfilo Preguiçoso, que residem os problemas de Sono de Inverno; os aspectos mais irritantes são a insistência em sondar as profundezas psicológicas de personagens sem densidade e a ambição falhada de emular Bergman nas cenas de discussão do casal. O número surpreendente de pessoas que aguardavam no Nimas para assistir à sessão das 17h00 num sábado de chuva sugere que esta opinião é minoritária e que a obra de Ceylan está a fazer furor nos meios cinéfilos, nas redes sociais e noutros locais onde se faz e desfaz a sorte de um filme.

12 de janeiro de 2015

Adeus à Linguagem



Godard em 3D!!! E eis que o Cinéfilo Preguiçoso se vê compelido a vasculhar as gavetas da cómoda em busca dos óculos que usou para ver Pina, de Wim Wenders (2011). Adieu au Langage é um filme denso, exasperante e genial como qualquer outro que Godard tenha realizado desde que Jean-Paul Belmondo resmoneou «Allez vous faire foutre!» ao volante de um carro roubado – mas diferente de qualquer outro e radicalmente singular, como é próprio de alguém que sempre se soube pioneiro e que sabe que não deixará seguidores. (Vale a pena falar da extraordinária beleza plástica do filme – e de como esta vertente tem sido negligenciada nas análises à obra de JLG?) Em vez dos 70 minutos anunciados, fica-se sem a certeza de que a projecção tenha terminado, a julgar pela maneira como certas imagens e frases perduram: «Moi je suis là pour autre chose. Je suis là pour vous dire non et pour mourir. Pour vous dire non et pour mourir.»



5 de janeiro de 2015

Mr. Turner



O tema de Mr. Turner, realizado por Mike Leigh, é menos a pulsão criadora e o génio do que um homem (incidentalmente genial) e a sociedade em que este se movia, neste caso a Londres da primeira metade do século XIX. A reconstituição histórica é excelente, a direcção artística é notável, os diálogos são fluidos, o humor é abundante. Porém, o principal mérito do filme consiste em retratar um Joseph Turner imensamente humano, complexo e singular mas ao mesmo tempo tão fruto da sua época e do seu meio como qualquer um dos seus contemporâneos. Os méritos de Timothy Spall no papel principal já foram devidamente elogiados, mas não seria decente deixar de chamar a atenção para os desempenhos de Marion Bailey, Paul Jesson e Martin Savage. Fortemente recomendado.

29 de dezembro de 2014

Tokyo Twilight | E Agora? Lembra-me



Há as alturas em que a falta de tempo ou as circunstâncias fazem escassear as ocasiões de ir ao cinema. Todo o cinéfilo preguiçoso sabe bem que é imperioso dispor de um arsenal de alternativas para ocasiões como estas. Em período de festas e de digestões laboriosas, a atenção volta-se para o armário dos DVDs. Tokyo Twilight (1957) é um Ozu sombrio, invulgarmente cru e franco no tratamento da desilusão amorosa e familiar. E Agora? Lembra-me (2013), de Joaquim Pinto, objecto cinematográfico salutarmente inclassificável, tem como grande mérito a recusa de tentar impor coerência à amálgama de impressões, memórias, tomadas de posição e anotações diarísticas que o compõem. As festas ainda estão para durar. Enquanto houver DVDs, há esperança. Bom ano.

22 de dezembro de 2014

Boyhood



Com Boyhood (2014), Richard Linklater confirma o seu interesse por confundir o tempo de um filme com o tempo de uma vida. Contudo, tal como sucedia na sequência Before Sunrise (1995)/ Before  Sunset (2004)/Before Midnight (2013), o que faz sobressair o filme é menos o estratagema e mais o talento para dinamitar a partir de dentro uma matriz clássica (o encontro romântico de uma só noite ou o filme “coming of age”). Está lá tudo: o primeiro beijo, a primeira namorada e a primeira bebedeira não faltam à chamada. Mas também estão lá os momentos de ligeireza e irrelevância que sustentam uma vida.

15 de dezembro de 2014

Lamentações gerais | Saint Laurent



Os humores da distribuição cinematográfica portuguesa (entenda-se “lisboeta”, com a nossa vénia e perdão para o resto do país cinéfilo) são fonte de pasmo continuado para o Cinéfilo Preguiçoso. Como aconteceu em 2013, o final de 2014 regista uma concentração estonteante de estreias e reposições. Entre as quatro curtas de Manoel de Oliveira (incluindo a sua mais recente obra, O Velho do Restelo), o último Cronenberg (Mapas para as Estrelas), dois clássicos de Chaplin que nos caem não se sabe bem de onde (mas que não se recusam), um documentário animado de Michel Gondry sobre uma conversa com Noam Chomsky (É Feliz o Homem que É Alto?) e mais um capítulo da saga de Ventura (Pedro Costa, Cavalo Dinheiro), sobra pouco tempo comprar as prendas e o bolo-rei. Tamanha fartura tem como efeito secundário a indolência e a vontade de ficar no recato do lar a ver um DVD (por exemplo, o último capítulo de A História do Cinema, de Mark Cousins - muito recomendável, mau grado os ocasionais desvarios e a ausência de menção a Éric Rohmer) e a recordar os detalhes de Saint Laurent, um filme singularmente cerebral e físico que confirma Bertrand Bonello como um realizador a não perder de vista.

14 de dezembro de 2014

O Cinéfilo Preguiçoso

O Cinéfilo Preguiçoso gosta muito de cinema, mas acontece-lhe com frequência ver-se traído pela falta de energia e pela falta de imaginação e pontualidade dos responsáveis pela distribuição de filmes em sala. É por isso que o leitor de DVDs e o sofá são dois dos seus amigos mais fiéis.