(O
Cinéfilo Preguiçoso agradece ao inventor do DVD o rasgo de génio que permitiu a
tantos cinéfilos desfrutarem do cinema em casa nos fins-de-semana frios de Inverno.)
Ao contrário do que acontece no recente Mr Turner (2014), em Topsy-Turvy (1999)
Mike Leigh explora o processo colectivo de criação (neste caso, a ópera The Mikado
de Gilbert e Sullivan, estreada em 1885) em vez do esforço de um único
indivíduo. Fazendo lembrar obras como La Nuit Américaine (François Truffaut,
1973) ou State and Main (David Mamet, 2000), o filme desloca o seu foco de
personagem para personagem ao sabor dos caprichos e conflitos entre estas. Além
das componentes técnicas (óscares para guarda-roupa e maquilhagem),
previsivelmente irrepreensíveis, Topsy-Turvy vale em grande medida pela
maneira como gere o fluxo de diálogos, ensaios, choques de personalidades e
números musicais, deixando sempre espaço para momentos de revelação de
dimensões e profundidades inesperadas das personagens.
9 de fevereiro de 2015
2 de fevereiro de 2015
The Theory of Everything
Numa das obras anteriores do realizador James Marsh (Man on Wire, 2008), documentário sobre o funâmbulo francês Philippe Petit, o longo trabalho de preparação de um acto criativo (a caminhada sobre um cabo suspenso entre as Torres Gémeas do World Trade Center) é mostrado com uma mistura fascinante de rigor e lirismo. Em The Theory of Everything (2014), muito pelo contrário, os processos de investigação e de criação são ignorados em benefício de um tratamento sentimental e superficial da vida do físico Stephen Hawking. Sendo o filme uniformemente convencional e carente de interesse, justifica-se destacar a odiosa montagem paralela entre o colapso de Hawking na ópera e a infidelidade cometida pela mulher com o professor de música. O facto de The Theory of Everything ter sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme diz muito pouco sobre o filme mas diz muito sobre os Óscares.
26 de janeiro de 2015
O Jogo da Imitação | Debaixo da Pele
Em O Jogo da Imitação (Morten Tyldum,
2014), o contexto parece invadir o filme e expulsar tudo o resto. A segunda
guerra mundial, as leis contra a homossexualidade e a batalha contra o tempo
para decifrar as mensagens criptografadas do estado-maior nazi deixam pouco
espaço para o desenvolvimento da singularíssima personagem de Alan Turing.
Consegue salvar-se, vá lá saber-se como, a interpretação de Benedict
Cumberbatch que, apesar de ter de representar uma personalidade semelhante à de
Sherlock Holmes, consegue compor uma personagem que se distingue. Em Debaixo
da Pele (Jonathan Glazer, 2013, visto pelo Cinéfilo Preguiçoso em DVD), pelo
contrário, a ausência absoluta de contexto é parte do contrato que o realizador
tenta estabelecer com o espectador, com ou sem sucesso. Ninguém sabe de onde
vem Laura (Scarlett Johansson), ou o que a leva a interpelar e seduzir homens solitários nas terras frias da Escócia.
Nem parece importante sabê-lo.
19 de janeiro de 2015
Sono de Inverno
Embora
esteja bem ciente de que o mundo em que vive é um mundo injusto, o Cinéfilo
Preguiçoso não pôde evitar o espanto ao constatar que Sono de Inverno (2014), de Nuri Bilge Ceylan, ganhou a Palma de
Ouro no Festival de Cannes, ao passo que o infinitamente mais rico e complexo Era Uma Vez na Anatólia (2011) se ficou
pelo Grande Prémio do Júri. Não é na duração (mais de três horas) nem no ritmo
lentíssimo, coisas que não assustam o Cinéfilo Preguiçoso, que residem os
problemas de Sono de Inverno; os
aspectos mais irritantes são a insistência em sondar as profundezas
psicológicas de personagens sem densidade e a ambição falhada de emular Bergman
nas cenas de discussão do casal. O número surpreendente de pessoas que
aguardavam no Nimas para assistir à sessão das 17h00 num sábado de chuva sugere
que esta opinião é minoritária e que a obra de Ceylan está a fazer furor nos
meios cinéfilos, nas redes sociais e noutros locais onde se faz e desfaz a
sorte de um filme.
12 de janeiro de 2015
Adeus à Linguagem
Godard em
3D!!! E eis que o Cinéfilo Preguiçoso se vê compelido a vasculhar as gavetas da
cómoda em busca dos óculos que usou para ver Pina, de Wim Wenders (2011). Adieu
au Langage é um filme denso, exasperante e genial como qualquer outro que
Godard tenha realizado desde que Jean-Paul Belmondo resmoneou «Allez vous faire
foutre!» ao volante de um carro roubado – mas diferente de qualquer outro e
radicalmente singular, como é próprio de alguém que sempre se soube pioneiro e
que sabe que não deixará seguidores. (Vale a pena falar da extraordinária
beleza plástica do filme – e de como esta vertente tem sido negligenciada nas
análises à obra de JLG?) Em vez dos 70 minutos anunciados, fica-se sem a
certeza de que a projecção tenha terminado, a julgar pela maneira como certas
imagens e frases perduram: «Moi je suis là pour autre chose. Je suis là
pour vous dire non et pour mourir. Pour
vous dire non et pour mourir.»
5 de janeiro de 2015
Mr. Turner
O tema de Mr. Turner, realizado por Mike Leigh, é menos a pulsão criadora e o génio do
que um homem (incidentalmente genial) e a sociedade em que este se movia, neste
caso a Londres da primeira metade do século XIX. A reconstituição histórica é
excelente, a direcção artística é notável, os diálogos são fluidos, o humor é
abundante. Porém, o principal mérito do filme consiste em retratar um Joseph
Turner imensamente humano, complexo e singular mas ao mesmo tempo tão fruto da
sua época e do seu meio como qualquer um dos seus contemporâneos. Os méritos de
Timothy Spall no papel principal já foram devidamente elogiados, mas não seria
decente deixar de chamar a atenção para os desempenhos de Marion Bailey, Paul
Jesson e Martin Savage. Fortemente recomendado.
29 de dezembro de 2014
Tokyo Twilight | E Agora? Lembra-me
Há as
alturas em que a falta de tempo ou as circunstâncias fazem escassear as
ocasiões de ir ao cinema. Todo o cinéfilo preguiçoso sabe bem que é imperioso
dispor de um arsenal de alternativas para ocasiões como estas. Em período de
festas e de digestões laboriosas, a atenção volta-se para o armário dos DVDs. Tokyo Twilight (1957) é um Ozu sombrio, invulgarmente cru e franco no
tratamento da desilusão amorosa e familiar. E Agora? Lembra-me (2013), de
Joaquim Pinto, objecto cinematográfico salutarmente inclassificável, tem como
grande mérito a recusa de tentar impor coerência à amálgama de impressões,
memórias, tomadas de posição e anotações diarísticas que o compõem. As festas
ainda estão para durar. Enquanto houver DVDs, há esperança. Bom ano.
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