16 de fevereiro de 2015

The Future



Miranda July, de quem se tem falado muito ultimamente a propósito da publicação do seu primeiro romance (The First Bad Man), é daqueles raros casos de talento que se estende à literatura, à performance, à realização, à interpretação e à música com doses comparáveis de dedicação e apreciação crítica. Aproveitando mais uma semana de vacas magras no que respeita a estreias, o Cinéfilo Preguiçoso viu em DVD The Future (2011), a segunda longa-metragem desta artista. Neste filme, protagonizado pela própria realizadora e por Hamish Linklater, o medo do futuro é explorado em níveis muito diversos que coexistem sem se contaminar: o metafórico, o literal, o lúdico e o trivial combinam-se para exprimir as inquietações e interrogações de um casal suscitadas pela decisão, aparentemente banal, de adoptar um gato (cuja voz antropomorfizada pontua de forma tocante e cómica todo o filme). Alguns elementos que vão talvez longe de mais na escala da gratuitidade não comprometem uma obra poderosa e inteligente. Na sua falsa ingenuidade, The Future suscita a reflexão na mesma medida em que tantos filmes supostamente com mensagem nos deixam indiferentes.



9 de fevereiro de 2015

Topsy-Turvy



(O Cinéfilo Preguiçoso agradece ao inventor do DVD o rasgo de génio que permitiu a tantos cinéfilos desfrutarem do cinema em casa nos fins-de-semana frios de Inverno.) Ao contrário do que acontece no recente Mr Turner (2014), em Topsy-Turvy (1999) Mike Leigh explora o processo colectivo de criação (neste caso, a ópera The Mikado de Gilbert e Sullivan, estreada em 1885) em vez do esforço de um único indivíduo. Fazendo lembrar obras como La Nuit Américaine (François Truffaut, 1973) ou State and Main (David Mamet, 2000), o filme desloca o seu foco de personagem para personagem ao sabor dos caprichos e conflitos entre estas. Além das componentes técnicas (óscares para guarda-roupa e maquilhagem), previsivelmente irrepreensíveis, Topsy-Turvy vale em grande medida pela maneira como gere o fluxo de diálogos, ensaios, choques de personalidades e números musicais, deixando sempre espaço para momentos de revelação de dimensões e profundidades inesperadas das personagens.

2 de fevereiro de 2015

The Theory of Everything



Numa das obras anteriores do realizador James Marsh (Man on Wire, 2008), documentário sobre o funâmbulo francês Philippe Petit, o longo trabalho de preparação de um acto criativo (a caminhada sobre um cabo suspenso entre as Torres Gémeas do World Trade Center) é mostrado com uma mistura fascinante de rigor e lirismo. Em The Theory of Everything (2014), muito pelo contrário, os processos de investigação e de criação são ignorados em benefício de um tratamento sentimental e superficial da vida do físico Stephen Hawking. Sendo o filme uniformemente convencional e carente de interesse, justifica-se destacar a odiosa montagem paralela entre o colapso de Hawking na ópera e a infidelidade cometida pela mulher com o professor de música. O facto de The Theory of Everything ter sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme diz muito pouco sobre o filme mas diz muito sobre os Óscares.

26 de janeiro de 2015

O Jogo da Imitação | Debaixo da Pele



Em O Jogo da Imitação (Morten Tyldum, 2014), o contexto parece invadir o filme e expulsar tudo o resto. A segunda guerra mundial, as leis contra a homossexualidade e a batalha contra o tempo para decifrar as mensagens criptografadas do estado-maior nazi deixam pouco espaço para o desenvolvimento da singularíssima personagem de Alan Turing. Consegue salvar-se, vá lá saber-se como, a interpretação de Benedict Cumberbatch que, apesar de ter de representar uma personalidade semelhante à de Sherlock Holmes, consegue compor uma personagem que se distingue. Em Debaixo da Pele (Jonathan Glazer, 2013, visto pelo Cinéfilo Preguiçoso em DVD), pelo contrário, a ausência absoluta de contexto é parte do contrato que o realizador tenta estabelecer com o espectador, com ou sem sucesso. Ninguém sabe de onde vem Laura (Scarlett Johansson), ou o que a leva a interpelar e seduzir homens solitários nas terras frias da Escócia. Nem parece importante sabê-lo.

19 de janeiro de 2015

Sono de Inverno



Embora esteja bem ciente de que o mundo em que vive é um mundo injusto, o Cinéfilo Preguiçoso não pôde evitar o espanto ao constatar que Sono de Inverno (2014), de Nuri Bilge Ceylan, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, ao passo que o infinitamente mais rico e complexo Era Uma Vez na Anatólia (2011) se ficou pelo Grande Prémio do Júri. Não é na duração (mais de três horas) nem no ritmo lentíssimo, coisas que não assustam o Cinéfilo Preguiçoso, que residem os problemas de Sono de Inverno; os aspectos mais irritantes são a insistência em sondar as profundezas psicológicas de personagens sem densidade e a ambição falhada de emular Bergman nas cenas de discussão do casal. O número surpreendente de pessoas que aguardavam no Nimas para assistir à sessão das 17h00 num sábado de chuva sugere que esta opinião é minoritária e que a obra de Ceylan está a fazer furor nos meios cinéfilos, nas redes sociais e noutros locais onde se faz e desfaz a sorte de um filme.

12 de janeiro de 2015

Adeus à Linguagem



Godard em 3D!!! E eis que o Cinéfilo Preguiçoso se vê compelido a vasculhar as gavetas da cómoda em busca dos óculos que usou para ver Pina, de Wim Wenders (2011). Adieu au Langage é um filme denso, exasperante e genial como qualquer outro que Godard tenha realizado desde que Jean-Paul Belmondo resmoneou «Allez vous faire foutre!» ao volante de um carro roubado – mas diferente de qualquer outro e radicalmente singular, como é próprio de alguém que sempre se soube pioneiro e que sabe que não deixará seguidores. (Vale a pena falar da extraordinária beleza plástica do filme – e de como esta vertente tem sido negligenciada nas análises à obra de JLG?) Em vez dos 70 minutos anunciados, fica-se sem a certeza de que a projecção tenha terminado, a julgar pela maneira como certas imagens e frases perduram: «Moi je suis là pour autre chose. Je suis là pour vous dire non et pour mourir. Pour vous dire non et pour mourir.»



5 de janeiro de 2015

Mr. Turner



O tema de Mr. Turner, realizado por Mike Leigh, é menos a pulsão criadora e o génio do que um homem (incidentalmente genial) e a sociedade em que este se movia, neste caso a Londres da primeira metade do século XIX. A reconstituição histórica é excelente, a direcção artística é notável, os diálogos são fluidos, o humor é abundante. Porém, o principal mérito do filme consiste em retratar um Joseph Turner imensamente humano, complexo e singular mas ao mesmo tempo tão fruto da sua época e do seu meio como qualquer um dos seus contemporâneos. Os méritos de Timothy Spall no papel principal já foram devidamente elogiados, mas não seria decente deixar de chamar a atenção para os desempenhos de Marion Bailey, Paul Jesson e Martin Savage. Fortemente recomendado.