11 de maio de 2015

O Passado e o Presente




O Passado e o Presente, filme de 1971 cuja reposição recente pela RTP2 merece todos os louvores, pode ser encarado como o primeiro da carreira regular de Manoel de Oliveira e como o ponto final nos longos hiatos que marcaram as quatro décadas iniciais da sua carreira. Não parece, pois, descabido, olhar para este filme como a primeira obra de um realizador de 62 anos, na qual coexistem a ousadia, uma desenvoltura juvenil e a experiência que só a acumulação de anos, vida, frustrações, filmes vistos e livros lidos pode trazer. Nesta adaptação de uma peça de Vicente Sanches centrada na obsessão pelos maridos defuntos da personagem principal (Maria de Saisset), as leituras sociológicas ou psicológicas que o espectador possa ser tentado a esboçar pesarão sempre pouco quando comparadas com a sublime evidência de um puro objecto de cinema formalmente rico e desconcertante, em que os temas do casamento e do duplo são explorados através das relações dos diversos casais. Entre os actores, destaque-se a estreia cinematográfica da grande Manuela de Freitas e a presença de João Bénard da Costa (aliás Duarte de Almeida), que por sinal está longe de ser dos mais inábeis. Seria injusto esquecer o trabalho de Acácio de Almeida na direcção de fotografia.

4 de maio de 2015

Whit Stillman no IndieLisboa




O Cinéfilo Preguiçoso tinha visto no Verão passado os filmes Last Days of Disco (1998)  e Damsels in Distress (2011) de Whit Stillman. No IndieLisboa deste ano, a retrospectiva dedicada a este realizador norte-americano criou a oportunidade de ver os seus outros dois filmes: Metropolitan (1990) e Barcelona (1994). Presente no início de cada sessão, Stillman mostrou ser quase idêntico às personagens dos seus próprios argumentos: falando e pensando depressa, com um sentido de humor algo retorcido e nem sempre imediatamente agradável. Enquanto Barcelona, mais ambicioso, se dispersa um pouco em enredos secundários, Metropolitan revela uma densidade e coesão impressionantes. Este filme gira em torno de um grupo de amigos em transição para a idade adulta. Os elementos deste grupo gostam de se caracterizar pela pertença à UHB (urban haute bourgeoisie) e também de pensar que por isso estão condenados ao fracasso. Neste filme, o mais interessante, além do actor Chris Eigeman (igualmente presente e também brilhante em Barcelona), são os diálogos abundantes em que as personagens se autodescrevem mal sem saber que se estão a enganar a si próprias e umas às outras. Ao contrário, porém, do que se verifica em Last Days of Disco, também sobre um grupo de amigos em transição, mas em que a protagonista representada por Chloë Sevigny percebe quem é através das distinções que identifica entre si e os outros, em Metropolitan as personagens chegam a uma espécie de reconciliação com o passado quando percebem que são mais parecidas umas com as outras do que inicialmente imaginavam.

27 de abril de 2015

La Sapienza | Une Histoire Américaine




O Cinéfilo Preguiçoso está no IndieLisboa! Os dois filmes vistos até agora, La Sapienza (Eugène Green, 2014) e Une Histoire Américaine (Armel Hostiou, 2015) têm em comum a origem (França) e o facto de serem maioritariamente falados numa língua que não o francês (italiano e inglês, respectivamente). As semelhanças ficam-se por aqui. Eugène Green permanece fiel ao seu estilo: grandes planos frontais, dicção extremamente cuidada e artificial, rigor quase maníaco na composição dos planos. Os encontros e desencontros de dois pares (marido e mulher, irmã e irmão) entre a Suíça italiana, Turim e Roma e as revelações suscitadas pela obra do arquitecto barroco Borromini são mostrados com a limpidez programática que fazem do visionamento de qualquer filme de Green uma experiência estética poderosíssima. Em Une Histoire Américaine, pelo contrário, dominam a deriva e a improvisação (aparente ou não), igualmente devedoras da Nouvelle Vague e do Cassavetes de Shadows. Os méritos desta segunda longa-metragem de Hostiou fundam-se em grande parte na presença de Vincent Macaigne (visto nos ecrãs portugueses em A Rapariga do 14 de Julho) e no lirismo amargo com que é filmada a cidade de Nova Iorque, cenário da obsessão do protagonista pela mulher com quem viveu um passado que não nos é dado ver.

20 de abril de 2015

Carta de Uma Desconhecida



Baseado numa novela de Stefan Zweig, o filme Carta de Uma Desconhecida (Max Ophüls, 1948) conta os encontros e desencontros de um casal, representado por Joan Fontaine, no papel de Lisa Berndle, e Louis Jourdan, no papel do pianista Stefan Brand. O filme é narrado a partir da carta de despedida da personagem feminina. Ao longo do tempo, acompanhamos a ascensão e a queda da carreira de Stefan. Lisa descreve-o como «alguém que anda à procura de alguma coisa mas ainda não conseguiu encontrá-la». Esta lacuna traduz-se a nível profissional e sentimental; apesar de fazer sucesso nas salas de concerto e com as mulheres, Stefan não se sente feliz. Ainda que Lisa identifique Stefan como o grande amor da sua vida desde o início, este revela-se incapaz de a reconhecer (literalmente) nos diversos momentos em que com ela se vai encontrando ao longo do tempo. O reconhecimento e a compreensão, demasiado tardios, ocorrem com a leitura da carta. Falhar este reconhecimento implicou falhar a própria vida. Os famosos movimentos de câmara de Ophüls, vigorosos mas extraordinariamente delicados, e a soberba interpretação de Joan Fontaine contribuem para o lugar de destaque do filme na carreira deste realizador.

13 de abril de 2015

Roma, Cidade Aberta | Paisà



Os caprichos das distribuidoras que operam no diminuto mercado português deixam o Cinéfilo Preguiçoso fora de si. Um exemplo entre tantos: “Clouds of Sils Maria”, de Olivier Assayas, várias vezes anunciado e cujo rasto na lista de próximas estreias é agora impossível de encontrar. Constata-se com alívio que a carência de novidades é em parte compensada por algumas reposições. Na retrospectiva de Rossellini que o Nimas está a mostrar, podemos comparar entre si dois dos três filmes da chamada “trilogia da guerra”: “Roma, Cidade Aberta” (1945) e “Paisà” (1946), além da proximidade cronológica, partilham o cenário de uma Itália abalada pelos últimos estertores da Segunda Guerra Mundial e o estilo despojado que os guindou, com ou sem razão, ao estatuto de representantes do neo-realismo. Setenta anos depois, torna-se claro que “Paisà”, graças à agilidade da realização, ao equilíbrio notável entre os diferentes episódios, à quase total ausência de retórica e à capacidade de fazer coexistir acção e clarividência psicológica, envelheceu melhor. Porém, a força de “Roma, Cidade Aberta”, que tanto deve à interpretação extraordinária de Aldo Fabrizi, permanece intacta. Estes filmes voltarão a passar nos próximos dias 27 e 29 de Abril. Por essa altura, o IndieLisboa já estará aí, para alegria de todos.

6 de abril de 2015

Na morte de Manoel de Oliveira


Nos anos 80 e 90, Manoel de Oliveira era amiúde remetido para a categoria de realizador para as elites intelectuais e acusado de fazer filmes impenetráveis pela perspicácia do cidadão comum. Passadas duas ou três décadas, superadas todas as expectativas de longevidade e de reconhecimento internacional, as reacções à morte deste realizador insistem de forma surpreendente na sua faceta mais ligeira: repetem-se em círculo as anedotas ligadas à boémia dos anos 20 e ao salto com vara ou as momices chaplinescas. Talvez a vontade de privilegiar esta imagem mais superficial e clownesca surja como reacção às pulsões hagiográficas que se manifestaram e continuarão a manifestar (ah, o Panteão!), mas não há desculpa para remeter para segundo plano a extraordinária dimensão e complexidade artística da obra de Oliveira. A melhor homenagem é ver e rever os filmes. Para isso seria importante que estes estivessem mais acessíveis, ou em sala ou em DVDs a preços aceitáveis.

30 de março de 2015

The Outsiders



Não surpreende, depois de se ver “The Outsiders/Os Marginais” (1983), que Francis Coppola se tenha referido a “Rumble Fish” (1983), o filme que rodou imediatamente a seguir (e também baseado num romance de S. E. Hinton), como «my carrot for what I promised myself when I finished The Outsiders».  O tema e o cenário são essencialmente os mesmos: a vida numa pequena cidade americana, a rivalidade entre gangues, o mosaico de ilusões e dramas que daí fatalmente resultam. Contudo, o registo visual arrojado e a estilização deliberadamente levada ao extremo de “Rumble Fish” contrastam com o naturalismo adimensional de “The Outsiders”, com uma dose apreciável de esquematismo sentimental e com um simbolismo algo fraco. As excepções são as cenas esplendorosamente filmadas por Stephen H. Burum em que Ponyboy (C. Thomas Howell) e Johnny (Ralph Macchio) se escondem numa igreja abandonada e se entregam aos gestos simples da sobrevivência e da passagem do tempo, fazendo lembrar Sissy Spacek e Martin Sheen no seu éden provisório em “Badlands” (1973), de Terrence Malick.