The Royal Tenenbaums (2001,
visto pelo Cinéfilo Preguiçoso em DVD em dia de grande canícula) foi a terceira
longa-metragem realizada por Wes Anderson. O estilo deste autor estava já
perfeitamente consolidado: planos cuidados até ao mínimo pormenor visual, humor
melancolicamente absurdo, espaços geográficos alheios a qualquer lugar real mas
dotados de uma intensa coerência interna, personagens caracterizadas
essencialmente por aquilo que têm de excêntrico. O filme conta a história da
família Tenenbaum, cujos filhos, criados para serem prodígios, entram em crise
e perdem o rumo quando chegam à idade adulta. Tal como nas restantes obras de
Anderson, os momentos mais conseguidos deste filme desconcertante mas sedutor
(ao seu modo muito próprio) são aqueles em que as personagens desafiam a sua
caracterização tipificada e ousam assumir-se como pessoas, carentes de sentido
ou simplesmente de carinho: falamos, por exemplo, da tentativa do patriarca
(Gene Hackman, excelente como sempre) de se reconciliar com a família ou da
aproximação entre Margot (Gwyneth Paltrow) e o irmão adoptivo (Luke Wilson). Em retrospectiva, é curioso reconhecer
pequenos detalhes que antecipam temas e ideias explorados mais tarde pelo
realizador, como a peça cujas personagens são todas animais (Moonrise
Kingdom, 2012) ou o ambiente de hotel grandioso e decadente (The Grand
Budapest Hotel, 2014).
22 de junho de 2015
15 de junho de 2015
Enquanto Somos Jovens
Se por
acaso nos acontecesse ver o filme Enquanto Somos Jovens sem sabermos quem era
o realizador, não seria muito difícil adivinhar o nome: Noah Baumbach (n. 1969).
Esta facilidade de identificação deve-se a certos traços distintivos dos filmes
do realizador, como a atenção ao espaço urbano e a exploração exaustiva de
alguns temas: o fracasso, o problema da autenticidade e as dificuldades da
autopromoção. Outra característica importante do cinema de Baumbach é o talento
para explorar as dimensões mais negativas e mesquinhas das personagens sem
deixar que isso afecte a compaixão com que as filma. Em Enquanto Somos Jovens
encontramos explicitamente todas estas questões, girando em torno do contraste entre a
meia-idade e a juventude. Este contraste é encenado através da relação entre os
dois casais principais, interpretados magistralmente por Ben Stiller e Naomi
Watts, do lado da meia-idade, e por Adam Driver e Amanda Seyfried do lado da
juventude – os mais velhos com uma existência quase virtual, os mais novos
ostentando um interesse por actividades práticas e artesanais que às vezes não
passa de pose. Do ponto de vista da distribuição, este filme tem sido tratado
como um produto mais mainstream do que a restante obra do realizador, mas só se
pode dizer que este é o seu filme mais comercial porque a obra de Baumbach,
permanecendo sempre fiel a si mesma, já atingiu um estatuto em que ela própria
dita as regras do que pode interessar ao grande público. Um espectador da
geração de Baumbach revê-se imediatamente nos gestos, nos hábitos, nos
conflitos e nas preocupações das suas personagens; os restantes dificilmente
deixarão de empatizar com o que há de universal e eterno no medo de envelhecer
e na procura da felicidade e do equilíbrio.
8 de junho de 2015
Gaslight
Gaslight
(visto em DVD, já que nada em sala parecia ter interesse) é um filme de 1944,
realizado por George Cukor. A personagem principal, Paula, interpretada por
Ingrid Bergman (num papel que lhe valeu o primeiro de três óscares), vive
assombrada pelo assassinato da tia que ocorreu numa casa situada numa praça
pacata de Londres. Quando Paula parece a caminho de refazer a vida, o casamento
e o regresso subsequente à casa da tia trazem de volta terrores antigos
associados ao homicídio, que ficou por esclarecer. O marido (Charles Boyer)
tenta persuadi-la de que está a perder o juízo e ameaça interná-la; em
paralelo, entrega-se a actividades misteriosas que o filme dá generosamente a
entender estarem relacionadas com o crime. A comparação com filmes aproximadamente
contemporâneos que também exploram o tema da duplicidade do marido (por exemplo
Suspicion, de Hitchcock, ou Secret Beyond the Door, de Lang) não é muito
favorável a Gaslight, em termos de complexidade e subtileza. Contudo, não
faltam pontos de interesse, em particular a maneira como o regresso de Paula e
a sua alienação são encenados como um processo de descoberta do próprio
passado, cujo culminar lhe permite por fim iniciar a sua própria vida. O filme
vale ainda pela tortura psicológica que Paula inflige ao marido no confronto
final e pela maneira como deixa brilhar em papéis secundários duas grandes
actrizes, respectivamente em fim e início de carreira: May Whitty e Angela
Lansbury.
1 de junho de 2015
National Gallery
Nos planos finais do filme The Great Museum eram focados diferentes pormenores de uma das telas em que Bruegel representou a Torre de Babel, exposta no Museu de História da Arte de Viena. Em National Gallery, Frederick Wiseman também trabalha esta visão de museu como um edifício em permanente construção e desconstrução, onde toda a gente fala linguagens diferentes sem chegar a um consenso estável. Contudo, enquanto The Great Museum abordava exclusivamente o museu vienense, o filme de Wiseman, fascinado pela diversidade dos discursos e comportamentos dos funcionários do museu londrino, desencadeia uma reflexão sobre arte que ultrapassa a questão dos limites físicos e circunstanciais do espaço museológico. Contrastando momentos de visitas guiadas, de aulas, de reuniões da direcção, de um espectáculo de dança inspirado por uma exposição dedicada a Ticiano e de discussões sobre assuntos tão diferentes como restauro, propriedades físicas das obras de arte e acções de marketing, Wiseman mostra que não há realmente oposição entre interpretações subjectivas e interpretações supostamente objectivas tanto das obras de arte como da própria instituição do museu. Em relação a este tema, destacam-se dois momentos. Num deles, um especialista explica que, ainda que o restauro se apoie em estudos exaustivos dos objectos, restaurar uma obra nunca pode ser simplesmente reconstituir o seu estado original; este processo exige uma reinterpretação da obra de arte tomando em consideração o contexto em que esta passará a integrar-se e não só o seu passado. Noutro momento, durante uma conversa sobre uma tela de Vermeer, uma historiadora afirma que o importante nas obras de arte é a capacidade destas de reterem a nossa atenção sempre que nos aconteça observá-las, muitas vezes por motivos que os ensaístas que escreveram sobre ela não previram (a hora do dia, a pessoa com quem se está, um pormenor, uma tonalidade, um gesto, uma acção).
25 de maio de 2015
O Grande Museu
O Grande Museu (real. Johannes Holzhausen, 2014) é um
documentário sobre o Museu de História da Arte de Viena que estreou em Portugal
conjuntamente com National Gallery,
do veterano Frederick Wiseman (que o Cinéfilo Preguiçoso ainda não viu mas espera
ver em breve). Além da ligação temática óbvia, existem semelhanças de registo e
método que justificam o emparelhamento destes filmes. Como costuma acontecer
nos documentários de Wiseman, Holzhausen abdica dos comentários e abrange uma
grande diversidade de facetas, escalas e aspectos, sem parecer obedecer a
qualquer sistema ou hierarquia. O resultado é um convite tácito a que o
espectador crie as suas próprias narrativas, o que não quer dizer que o
realizador pretenda oferecer objectividade absoluta, situando a subjectividade
interpretativa totalmente na recepção do filme. Filmar e escolher aquilo que se
mostra implica tomar partido e influi nas dinâmicas do que é filmado, como se
pode constatar vendo como os participantes, dos directores aos conservadores,
passando pelos vigilantes, resistem mal à tentação (ou ao incitamento do
realizador?) de dramatizar as suas intervenções e representar pequenas cenas,
de acordo com aquilo que se espera que suceda num filme. Subsiste uma noção de
museu como máquina dotada de lógica e orgânica, sustentada por uma
multiplicidade de gestos e negociações quotidianos, onde se esbate a distinção
entre as minúcias do protocolo para receber o Presidente da República e a
avaliação dos estragos provocados num quadro pelo escaravelho-da-farinha.
18 de maio de 2015
Éden | Phoenix
Se o
Cinéfilo Preguiçoso se distraísse mais um bocadinho, teria perdido Éden (2014), da
muito apreciada Mia Hansen-Løve, um filme que explora a dificuldade de desistir
dos próprios sonhos, começando nos tempos em que os Daft Punk se formaram e seguindo
alguns músicos – amigos dos elementos deste grupo – que não alcançam o mesmo
sucesso. Assim recordado da rapidez vertiginosa com que alguns bons filmes
passam pelas salas de Lisboa, o Cinéfilo Preguiçoso apressou-se a ver
Phoenix (2014), de Christian Petzold. À semelhança do que se verifica com Carta de
Uma Desconhecida (Max Ophüls), o enredo de Phoenix gira em torno de uma
falha estranha de reconhecimento: o marido não reconhece a mulher judia (Nelly
Lenz, interpretada por Nina Hoss) que regressou de um campo de concentração. Com o
objectivo de receber indevidamente a herança da mulher que ele próprio enviara
para a morte e acreditando que se tratava apenas de alguém parecido com ela,
tenta convencê-la a fazer-se passar por quem na realidade é. Esta falha de
reconhecimento combina-se com um problema de conhecimento: só quando é finalmente
reconhecida pelo marido consegue Nelly Lenz não só aceitar que ele a traiu, mas
também conhecê-lo como ele é. Falta a este filme um golpe de criatividade e
heterodoxia que o liberte de uma realização sóbria e meticulosa, mas não se
pode dizer que os seus objectivos fiquem por cumprir.
11 de maio de 2015
O Passado e o Presente
O Passado e o Presente, filme de 1971 cuja reposição recente
pela RTP2 merece todos os louvores, pode ser encarado como o primeiro da
carreira regular de Manoel de Oliveira e como o ponto final nos longos hiatos
que marcaram as quatro décadas iniciais da sua carreira. Não parece, pois,
descabido, olhar para este filme como a primeira obra de um realizador de 62
anos, na qual coexistem a ousadia, uma desenvoltura juvenil e a experiência que
só a acumulação de anos, vida, frustrações, filmes vistos e livros lidos pode
trazer. Nesta adaptação de uma peça de Vicente Sanches centrada na obsessão
pelos maridos defuntos da personagem principal (Maria de Saisset), as leituras
sociológicas ou psicológicas que o espectador possa ser tentado a esboçar pesarão
sempre pouco quando comparadas com a sublime evidência de um puro objecto de
cinema formalmente rico e desconcertante, em que os temas do casamento e do
duplo são explorados através das relações dos diversos casais. Entre os
actores, destaque-se a estreia cinematográfica da grande Manuela de Freitas e a
presença de João Bénard da Costa (aliás Duarte de Almeida), que por sinal está
longe de ser dos mais inábeis. Seria injusto esquecer o trabalho de Acácio de
Almeida na direcção de fotografia.
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