16 de novembro de 2015

Trois souvenirs de ma jeunesse | A Academia das Musas

 

No LEFFEST deste ano, o Cinéfilo Preguiçoso viu os filmes mais recentes de quatro grandes realizadores no activo: Arnaud Desplechin, José Luis Guerín, Aleksandr Sokurov e Hong Sang-Soo. Destes, os mais imediatamente inspiradores são o de Desplechin e o de Guerín. Enquanto Comment je me suis disputé... (ma vie sexuelle) (1996) girava em torno das desventuras amorosas e intelectuais de Paul Dédalus durante o doutoramento em antropologia, Trois souvenirs de ma jeunesse (2015)  mostra-nos episódios da infância e adolescência desta personagem, com destaque para a relação conturbada e pouco convencional que estabelece com a namorada, Esther, e cujo não menos conturbado epílogo ficáramos a conhecer em Comment je me suis disputé… Os estreantes Quentin Dolmaire e Lou Roy-Lecollinet saem-se bem na delicadíssima tarefa de assumirem as personagens dos extraordinários Mathieu Amalric e Emmanuelle Devos. (Há muito que Desplechin é um realizador admirado pelo Cinéfilo e Trois Souvenirs de ma jeunesse não desilude: aguardemos calmamente que estreie em sala para escrevermos mais sobre ele.)

Se o filme de Desplechin se integra sem atrito na obra do seu realizador, A Academia das Musas (2015, José Luis Guerín) revela-se um filme absolutamente inesperado. Simulando algumas técnicas do documentário, A Academia das Musas começa com uma aula de literatura sobre Dante durante a qual o professor aborda o tópico das musas literárias perante um público maioritariamente feminino e invulgarmente disponível para a discussão. O resto do filme assenta em confrontos verbais entre o professor e as cinco mulheres que considera suas musas. Duas delas (a ‘legítima esposa’ e uma aluna de cabelo curto que insiste em escrever poesia sem rima) mostram-se resistentes ao estatuto, enquanto as outras três procuram explorar esta condição nas suas vertentes literárias, críticas e existenciais, havendo inclusivamente a sugestão de que uma das musas se autonomizou ao ponto de ser ela própria, em vez do professor, a dirigir e a manipular a academia do título. Em contraste com A Cidade de Sílvia (2007), filmado maioritamente no exterior, as cenas de A Academia das Musas, com excepção de uma sequência bela e irónica entre pastores e ovelhas, decorrem preferencialmente em espaços interiores (a sala de aula, o carro, um quarto de hotel, a nova casa do professor e da mulher, onde uma nova organização da biblioteca sugere uma mudança de pensamento e de atitude). Curiosamente, em comum entre os filmes de Desplechin e de Guerín encontramos, por um lado, o tópico dos mal-entendidos do amor (associado à ideia de que nunca há comunicação verdadeira nem entre homens e mulheres nem entre mulheres), por outro as contradições entre o estatuto de musa (e de amante, mesmo que só platonicamente) e a realidade da figura feminina enquanto dotada de existência e de voz autónomas. A súmula de tudo isto é um filme desconcertante, estimulante para o intelecto e para os sentidos e de uma originalidade extrema.

9 de novembro de 2015

As Irmãs Brontë



A colecção de DVDs 120 Anos de Cinema Gaumont oferece aos cinéfilos deste país, por um preço simpático, a possibilidade de rever obras de realizadores como Godard (Paixão, Atenção à Direita), Renoir (Toni) ou Vigo (A Atalante), entre outros. André Téchiné, cujos filmes têm estreado com alguma regularidade em Portugal, está representado pela sua quarta longa-metragem: As Irmãs Brontë, de 1979. Esta obra pode ser considerada uma raridade na filmografia do realizador, pelo seu carácter biográfico e pelo trabalho de reconstituição histórica. O período abarcado desenrola-se entre 1834 e 1852. É-nos mostrada a vida quotidiana nas charnecas solitárias do Yorkshire, a estadia de Charlotte (Marie-France Pisier) e Emily (Isabelle Adjani) em Bruxelas, o desgosto amoroso do irmão das escritoras, Branwell (Pascal Greggory), antes do seu descalabro físico e morte, a celebridade literária das irmãs (sob pseudónimos masculinos), as mortes de Emily e Anne (Isabelle Huppert) e a crescente intimidade entre Charlotte e o homem com quem viria a casar. Do princípio ao fim, o filme é esteticamente coerente e fiel a um objectivo: representar momentos escolhidos das vidas destas criaturas extraordinárias, abdicando do pathos ou de qualquer veleidade de virtuosismo. Não existe aqui um projecto teórico com o fim de recorrer à vida para explicar a obra. Contudo, os interiores soturnos e opressivos, a não menos opressiva imensidão das charnecas que Emily percorre a pé, os episódios domésticos, todos eles evocam com um pudor notável os ambientes e as personagens que viriam a povoar os romances que trouxeram fama global às irmãs. O esboço de vida mundana que Charlotte protagoniza, no final do filme, ajuda a realçar a extrema solidão que ela e os irmãos viveram e que serviu de cadinho para os romances que produziram. Uma palavra final para o trabalho magnífico do grande Bruno Nuytten na fotografia, assim como para as aparições especiais do crítico e realizador Pascal Bonitzer (co-argumentista deste filme) e (mais surpreendentemente) de Roland Barthes, no papel do romancista William Thackeray.

2 de novembro de 2015

Le Saphir de Saint-Louis | The Outrage



Este ano, o Cinéfilo Preguiçoso só assistiu a uma sessão do Doclisboa, aquela que reuniu Le Saphir de Saint-Louis, de José Luis Guerín (2015), e The Outrage, de Marc Karlin (1995). A pintura e as suas projecções na vida e na História são o denominador comum destes dois filmes. Da obra do espanhol José Luis Guerín, além dos filmes que foram passando no Doclisboa, o público português conhece pelo menos o poético Comboio de Sombras (1997), que estreou em sala, podia conhecer Na Cidade de Sílvia (2007), porque vale a pena e é fácil de obter em DVD, e poderá ver A Academia das Musas (2015) no LEFFEST. Le Saphir de Saint-Louis localiza-se na Catedral de Saint-Louis em La Rochelle, prestando atenção aos pormenores de uma pintura que recorda uma tragédia ocorrida em 1741 numa escuna que transportava escravos. É notável como a exploração meticulosa de alguns centímetros quadrados de tela evoca tão poderosamente a História, a geopolítica e a tragédia humana em toda a sua crueza. Realizado por Marc Karlin (1943-1999), ‘o realizador desconhecido mais importante a trabalhar no Reino Unido durante as últimas três décadas do século XX’ segundo um obituário, The Outrage parte da pintura de Cy Twombly para produzir uma reflexão mais geral sobre a importância da beleza e da arte na vida das pessoas, um tema controverso que, mesmo neste filme, dá origem aos depoimentos mais contraditórios. Apesar de se apoiar numa estrutura supostamente narrativa, alegadamente contando a história de M, uma personagem que vê a sua vida insignificante abalada pelas reflexões suscitadas por um quadro de Cy Twombly, The Outrage transcende de vários modos estas coordenadas mais convencionais e é um filme verdadeiramente livre, propondo uma abordagem original de um tema já discutido até à exaustão. Ainda bem que todos os anos é possível ver filmes sobre arte e museus no Doclisboa.

26 de outubro de 2015

As Mil e Uma Noites: Volume 3, O Encantado



O terceiro volume de As Mil e Uma Noites (Miguel Gomes, 2015) começa com um prólogo protagonizado por Xerazade, a narradora das histórias que dão corpo a esta trilogia. Apesar de fluir demasiado ao sabor de ideias narrativas fugazes e superficiais, esta secção possui uma componente auto-reflexiva interessante: o cansaço de Xerazade e as dúvidas sobre se conseguirá continuar a aplacar durante muito mais tempo a fúria sanguinária do rei Xariar põem em causa o próprio dispositivo ficcional em que a trilogia assenta. Desgraçadamente, essa fadiga e descrença parecem contaminar o resto do filme. Ao contrário dos dois volumes anteriores, este é completamente dominado por uma única história (se exceptuarmos o episódio breve e dispensável A Floresta Quente): a da comunidade de passarinheiros que, entre Chelas e a Alta de Lisboa, se dedicam à captura e ao treino de tentilhões que se defrontam em concursos de canto renhidos. O registo, entre o documentário e a ficção, é aquele a que Gomes nos habituou; os hábitos, rituais e disputas dos criadores são mostrados com detalhe e empatia; não faltam momentos deliciosos, como a explicação sobre como a antiga arte de ‘virar’ um tentilhão (isto é, ensiná-lo a cantar) beneficiou com as novas tecnologias  (CDs, MP3…). Porém, o episódio arrasta-se muito para lá do interesse que consegue suscitar. Pior do que isso: pela primeira vez nesta trilogia, a liberdade narrativa e a criatividade, que chegam a ser intoxicantes nos volumes anteriores, dão lugar a uma certa complacência. A ausência de ecos da situação política e social do Portugal de hoje (os que existem são forçados, como a manifestação das forças de segurança) contrasta também com volumes um e dois. Mas nada disto chega para anular a impressão de que estas Mil e Uma Noites foram uma das aventuras mais ambiciosas e loucas do cinema português dos últimos anos.

19 de outubro de 2015

Caprice




A Festa do Cinema Francês já conheceu melhores dias em Lisboa. O Cinéfilo Preguiçoso lembra-se não só de sessões esgotadas, com a presença do realizador ou de algum actor emblemático, mas também de olhar para o programa e concluir tristemente que não ia ter tempo para ver todos os filmes que lhe interessavam. Este ano só um filme pareceu suficientemente convidativo: Caprice (2015), realizado por Emmanuel Mouret. Não se percebe muito bem por que razão este realizador (nascido em 1970) não é mais reconhecido pelo público português. Os seus filmes evocam imediatamente duas influências fortíssimas: Woody Allen e Éric Rohmer. Certas sequências e alguns temas deste Caprice parecem extraídos de filmes do realizador nova-iorquino: a relação entre um homem desastrado e uma mulher belíssima mas aparentemente inatingível, os mal-entendidos e os actos irracionais da vida sentimental de pessoas com idade para ter juízo, conversas em restaurantes ou cafés; mesmo a presença do realizador como protagonista dos seus filmes é alleniana. A influência de Éric Rohmer aparece aqui filtrada por um tópico mais propriamente proustiano: a ideia de que as relações amorosas mais duradouras são decididas por um acaso. Rohmeriano é também o contraste entre as duas personagens femininas que dividem o protagonista: uma delas é ‘a escolhida’, a actriz famosa e mulher perfeita que o protagonista há muito desejava à distância, mas com quem as coisas parecem não funcionar com a intensidade previamente imaginada; a outra é ‘a encontrada’, a jovem aspirante a actriz imprevisível e perigosa que, contudo, não só percebe que a relação entre os dois seria a combinação perfeita, mas também acaba, através de uma edição cuidadosa, por transformar num sucesso a peça aborrecida escrita pelo protagonista. Ainda que herdeiro destas influências fortes, Emmanuel Mouret produz um cinema único que, na sua aparente leveza e bom humor, nos deixa sempre a pensar em temas sérios, como os meandros e as armadilhas do amor. Este filme tem estreia prevista em sala.

12 de outubro de 2015

5 x 2



Uma vez que a estreia em Portugal do último filme de François Ozon, Une Nouvelle Amie, tem vindo a ser repetidamente adiada – enésimo exemplo da falta de respeito que certos distribuidores demonstram pelos espectadores –, o Cinéfilo Preguiçoso decidiu rever 5 x 2 (2004) e não esqueceu a devida vénia à boa alma que inventou o DVD. Ozon é um cineasta hiperactivo e ecléctico cujo apetite por temas controversos lhe trouxe alguma fama de irreverente e até revolucionário. Contudo, a sua filiação remete-nos para o melodrama e para a Nouvelle Vague, e a sua abordagem e registo são essencialmente clássicos e muito devedores do cinema de género (thriller, musical). 5 x 2 pode ser descrito como o retrato de um casamento frágil. O facto de o filme ser narrado ao arrepio da sequência cronológica dos eventos nada acrescenta ou retira aos méritos ou impacto do filme, mas tem a vantagem de anular, logo à partida, qualquer interrogação sobre o desfecho, permitindo ao espectador concentrar-se nas personagens e no enredo – que, diga-se em abono da verdade, não requer grande dose de perspicácia. Se exceptuarmos Valeria Bruni-Tedeschi, excelente como sempre, o que fica de 5 x 2 é a história banal de uma mulher e de um homem que se unem, têm um filho e se separam sem que qualquer razão evidente o justifique. Talvez Ozon pretendesse precisamente erigir essa arbitrariedade em tema principal, mas o resultado final fica claramente aquém de Swimming Pool, Sous le Sable, Jeune & Jolie ou Dans la Maison.

5 de outubro de 2015

Haewon e os Homens




‘O tempo resolve tudo’, diz, numa das suas últimas cenas, a protagonista do filme Nobody’s Daughter Haewon (2013) (em francês, Haewon et les Hommes), realizado por Hong Sang-Soo. Se nem sempre resolve tudo, nos filmes de Hong o tempo traz pequenas mudanças e evoluções psicológicas. Isto sucede mau grado o tratamento pouco canónico que é dado à cronologia dos seus filmes. Também neste caso abundam as elipses, as bifurcações, as redundâncias e os limbos (por exemplo, os sonhos de Haewon), à semelhança do que se verifica em The Day He Arrives (2011), abordado pelo Cinéfilo Preguiçoso há três semanas. Outras semelhanças são a personagem do realizador de cinema tornado professor pela força das circunstâncias e o ambiente urbano de uma Seul discreta e isenta de traços distintivos, mas singularmente propícia a encontros e coincidências. Contrariamente a esse e a outros filmes de Hong, surge neste uma protagonista feminina forte e intensa cujo processo de assumir as rédeas da sua vida é o motor da narrativa. A maneira como Haewon enfrenta as suas relações sentimentais e as opiniões alheias, ou como deixa que o acaso e a vontade a conduzam a algo parecido com uma reconciliação com o mundo, faz lembrar Marie Rivière em O Raio Verde (1986), nesta que é uma das obras mais rohmerianas de um dos mais rohmerianos cineastas activos, tanto pelo modo como a protagonista se vai definindo através de confrontos verbais com outras personagens, como pela clarificação gradual da sua indecisão relativamente aos próprios desejos. Nobody’s Daughter Haewon e The Day He Arrives estão reunidos numa edição em DVD da France Inter integrada na colecção 2 Films de, que inclui obras de realizadores como Chantal Akerman, Philippe Garrel, Nanni Moretti ou Werner Herzog. Fica a sugestão.