O enredo de Right Now, Wrong Then (Hong Sang-Soo, 2015) cabe em poucas linhas. Um realizador (Chun-Su), recém-chegado à cidade de Suwon para dar uma palestra, visita um templo e mete conversa com uma jovem pintora (Min-Hee). Ao longo do resto do dia, visitam vários locais (um café, o ateliê da pintora, um restaurante, a casa de uma amiga da pintora). No dia seguinte, após a exibição do seu filme e a palestra, o realizador despede-se dos anfitriões e regressa a casa. Esta história é-nos mostrada duas vezes, com pequenas mudanças nos planos e nos diálogos, assim como algumas diferenças, discretas mas cruciais, no teor do que é dito entre as duas personagens. Por exemplo: na segunda vez, Chun-Su exprime a sua opinião sincera sobre os quadros de Min-Hee (“São quadros de alguém que precisa de consolo”) e revela espontaneamente que tem mulher e filhos, em contraste com a hipocrisia de que deu mostras na primeira vez. Ambos os finais têm um incontornável ponto em comum (Chun-Su e Min-Hee separam-se, provavelmente para sempre), mas em circunstâncias diferentes. Filmes que exploram o efeito de escolhas ou do acaso e que exibem as respectivas consequências sob forma de bifurcações da narrativa tornaram-se tão comuns que quase se pode falar de um subgénero; Smoking/No Smoking (Alain Resnais, 1993) e Sliding Doors (Peter Howitt, 1998) são apenas dois exemplos. Contrariamente à generalidade destes filmes, Right Now, Wrong Then não descreve destinos dramaticamente alterados por um golpe de sorte ou uma decisão inócua. De uma maneira aparentemente ligeira e modesta, sugere-nos que as escolhas que nos permitem viver um pouco melhor ou um pouco pior com os outros são feitas dia após dia, nos cenários mais banais. Não surpreende que Hong tenha sido criticado por repetir, filme após filme, os seus esquemas formais predilectos, mas quer-nos parecer que ele fará tanto caso desses remoques como Éric Rohmer ou Abbas Kiarostami. Right Now, Wrong Then recebeu o Leopardo de Ouro no Festival de Cinema de Locarno deste ano. Uma rápida vista de olhos à lista dos anteriores premiados (José Álvaro Morais, Terence Davies, Claire Denis, Jafar Panahi, Jean-Claude Brisseau, Albert Serra) permite apreciar até que ponto a tradição de recompensar a criatividade e a ousadia se mantém viva neste festival, ao contrário de outros com maior renome. Este filme tem estreia prevista nas salas de cinema portuguesas em Dezembro deste ano.
23 de novembro de 2015
Right Now, Wrong Then
O enredo de Right Now, Wrong Then (Hong Sang-Soo, 2015) cabe em poucas linhas. Um realizador (Chun-Su), recém-chegado à cidade de Suwon para dar uma palestra, visita um templo e mete conversa com uma jovem pintora (Min-Hee). Ao longo do resto do dia, visitam vários locais (um café, o ateliê da pintora, um restaurante, a casa de uma amiga da pintora). No dia seguinte, após a exibição do seu filme e a palestra, o realizador despede-se dos anfitriões e regressa a casa. Esta história é-nos mostrada duas vezes, com pequenas mudanças nos planos e nos diálogos, assim como algumas diferenças, discretas mas cruciais, no teor do que é dito entre as duas personagens. Por exemplo: na segunda vez, Chun-Su exprime a sua opinião sincera sobre os quadros de Min-Hee (“São quadros de alguém que precisa de consolo”) e revela espontaneamente que tem mulher e filhos, em contraste com a hipocrisia de que deu mostras na primeira vez. Ambos os finais têm um incontornável ponto em comum (Chun-Su e Min-Hee separam-se, provavelmente para sempre), mas em circunstâncias diferentes. Filmes que exploram o efeito de escolhas ou do acaso e que exibem as respectivas consequências sob forma de bifurcações da narrativa tornaram-se tão comuns que quase se pode falar de um subgénero; Smoking/No Smoking (Alain Resnais, 1993) e Sliding Doors (Peter Howitt, 1998) são apenas dois exemplos. Contrariamente à generalidade destes filmes, Right Now, Wrong Then não descreve destinos dramaticamente alterados por um golpe de sorte ou uma decisão inócua. De uma maneira aparentemente ligeira e modesta, sugere-nos que as escolhas que nos permitem viver um pouco melhor ou um pouco pior com os outros são feitas dia após dia, nos cenários mais banais. Não surpreende que Hong tenha sido criticado por repetir, filme após filme, os seus esquemas formais predilectos, mas quer-nos parecer que ele fará tanto caso desses remoques como Éric Rohmer ou Abbas Kiarostami. Right Now, Wrong Then recebeu o Leopardo de Ouro no Festival de Cinema de Locarno deste ano. Uma rápida vista de olhos à lista dos anteriores premiados (José Álvaro Morais, Terence Davies, Claire Denis, Jafar Panahi, Jean-Claude Brisseau, Albert Serra) permite apreciar até que ponto a tradição de recompensar a criatividade e a ousadia se mantém viva neste festival, ao contrário de outros com maior renome. Este filme tem estreia prevista nas salas de cinema portuguesas em Dezembro deste ano.
16 de novembro de 2015
Trois souvenirs de ma jeunesse | A Academia das Musas
No
LEFFEST deste ano, o Cinéfilo Preguiçoso viu os filmes mais recentes de quatro
grandes realizadores no activo: Arnaud Desplechin, José Luis Guerín, Aleksandr
Sokurov e Hong Sang-Soo. Destes, os mais imediatamente inspiradores são o de
Desplechin e o de Guerín. Enquanto Comment je me suis disputé... (ma vie
sexuelle) (1996) girava em torno das desventuras amorosas e intelectuais de
Paul Dédalus durante o doutoramento em antropologia, Trois souvenirs de ma
jeunesse (2015) mostra-nos episódios da
infância e adolescência desta personagem, com destaque para a relação
conturbada e pouco convencional que estabelece com a namorada, Esther, e cujo
não menos conturbado epílogo ficáramos a conhecer em Comment je me suis
disputé… Os estreantes Quentin Dolmaire e Lou Roy-Lecollinet saem-se bem na
delicadíssima tarefa de assumirem as personagens dos extraordinários Mathieu
Amalric e Emmanuelle Devos. (Há muito que Desplechin é um realizador admirado
pelo Cinéfilo e Trois Souvenirs de ma jeunesse não desilude: aguardemos
calmamente que estreie em sala para escrevermos mais sobre ele.)
Se o filme de Desplechin se integra sem atrito na obra do seu realizador, A Academia das Musas (2015, José Luis Guerín) revela-se um filme absolutamente inesperado. Simulando algumas técnicas do documentário, A Academia das Musas começa com uma aula de literatura sobre Dante durante a qual o professor aborda o tópico das musas literárias perante um público maioritariamente feminino e invulgarmente disponível para a discussão. O resto do filme assenta em confrontos verbais entre o professor e as cinco mulheres que considera suas musas. Duas delas (a ‘legítima esposa’ e uma aluna de cabelo curto que insiste em escrever poesia sem rima) mostram-se resistentes ao estatuto, enquanto as outras três procuram explorar esta condição nas suas vertentes literárias, críticas e existenciais, havendo inclusivamente a sugestão de que uma das musas se autonomizou ao ponto de ser ela própria, em vez do professor, a dirigir e a manipular a academia do título. Em contraste com A Cidade de Sílvia (2007), filmado maioritamente no exterior, as cenas de A Academia das Musas, com excepção de uma sequência bela e irónica entre pastores e ovelhas, decorrem preferencialmente em espaços interiores (a sala de aula, o carro, um quarto de hotel, a nova casa do professor e da mulher, onde uma nova organização da biblioteca sugere uma mudança de pensamento e de atitude). Curiosamente, em comum entre os filmes de Desplechin e de Guerín encontramos, por um lado, o tópico dos mal-entendidos do amor (associado à ideia de que nunca há comunicação verdadeira nem entre homens e mulheres nem entre mulheres), por outro as contradições entre o estatuto de musa (e de amante, mesmo que só platonicamente) e a realidade da figura feminina enquanto dotada de existência e de voz autónomas. A súmula de tudo isto é um filme desconcertante, estimulante para o intelecto e para os sentidos e de uma originalidade extrema.
Se o filme de Desplechin se integra sem atrito na obra do seu realizador, A Academia das Musas (2015, José Luis Guerín) revela-se um filme absolutamente inesperado. Simulando algumas técnicas do documentário, A Academia das Musas começa com uma aula de literatura sobre Dante durante a qual o professor aborda o tópico das musas literárias perante um público maioritariamente feminino e invulgarmente disponível para a discussão. O resto do filme assenta em confrontos verbais entre o professor e as cinco mulheres que considera suas musas. Duas delas (a ‘legítima esposa’ e uma aluna de cabelo curto que insiste em escrever poesia sem rima) mostram-se resistentes ao estatuto, enquanto as outras três procuram explorar esta condição nas suas vertentes literárias, críticas e existenciais, havendo inclusivamente a sugestão de que uma das musas se autonomizou ao ponto de ser ela própria, em vez do professor, a dirigir e a manipular a academia do título. Em contraste com A Cidade de Sílvia (2007), filmado maioritamente no exterior, as cenas de A Academia das Musas, com excepção de uma sequência bela e irónica entre pastores e ovelhas, decorrem preferencialmente em espaços interiores (a sala de aula, o carro, um quarto de hotel, a nova casa do professor e da mulher, onde uma nova organização da biblioteca sugere uma mudança de pensamento e de atitude). Curiosamente, em comum entre os filmes de Desplechin e de Guerín encontramos, por um lado, o tópico dos mal-entendidos do amor (associado à ideia de que nunca há comunicação verdadeira nem entre homens e mulheres nem entre mulheres), por outro as contradições entre o estatuto de musa (e de amante, mesmo que só platonicamente) e a realidade da figura feminina enquanto dotada de existência e de voz autónomas. A súmula de tudo isto é um filme desconcertante, estimulante para o intelecto e para os sentidos e de uma originalidade extrema.
9 de novembro de 2015
As Irmãs Brontë
A
colecção de DVDs 120 Anos de Cinema Gaumont oferece aos cinéfilos deste país,
por um preço simpático, a possibilidade de rever obras de realizadores como
Godard (Paixão, Atenção à Direita), Renoir (Toni) ou Vigo (A Atalante),
entre outros. André Téchiné, cujos filmes têm estreado com alguma regularidade
em Portugal, está representado pela sua quarta longa-metragem: As Irmãs Brontë,
de 1979. Esta obra pode ser considerada uma raridade na filmografia do
realizador, pelo seu carácter biográfico e pelo trabalho de reconstituição
histórica. O período abarcado desenrola-se entre 1834 e 1852. É-nos mostrada a
vida quotidiana nas charnecas solitárias do Yorkshire, a estadia de Charlotte
(Marie-France Pisier) e Emily (Isabelle Adjani) em Bruxelas, o desgosto amoroso
do irmão das escritoras, Branwell (Pascal Greggory), antes do seu descalabro
físico e morte, a celebridade literária das irmãs (sob pseudónimos masculinos),
as mortes de Emily e Anne (Isabelle Huppert) e a crescente intimidade entre
Charlotte e o homem com quem viria a casar. Do princípio ao fim, o filme é
esteticamente coerente e fiel a um objectivo: representar momentos escolhidos
das vidas destas criaturas extraordinárias, abdicando do pathos ou de qualquer veleidade de virtuosismo. Não existe aqui um projecto
teórico com o fim de recorrer à vida para explicar a obra. Contudo, os interiores
soturnos e opressivos, a não menos opressiva imensidão das charnecas que Emily
percorre a pé, os episódios domésticos, todos eles evocam com um pudor notável
os ambientes e as personagens que viriam a povoar os romances que trouxeram
fama global às irmãs. O esboço de vida mundana que Charlotte protagoniza, no
final do filme, ajuda a realçar a extrema solidão que ela e os irmãos viveram e
que serviu de cadinho para os romances que produziram. Uma palavra final para o
trabalho magnífico do grande Bruno Nuytten na fotografia, assim como para as aparições
especiais do crítico e realizador Pascal Bonitzer (co-argumentista deste filme)
e (mais surpreendentemente) de Roland Barthes, no papel do romancista William
Thackeray.
2 de novembro de 2015
Le Saphir de Saint-Louis | The Outrage
Este ano, o Cinéfilo
Preguiçoso só assistiu a uma sessão do Doclisboa, aquela que reuniu Le Saphir de
Saint-Louis, de José Luis Guerín (2015), e The Outrage,
de Marc Karlin (1995). A pintura e as suas projecções na vida e na História são
o denominador comum destes dois filmes. Da obra do espanhol José Luis Guerín,
além dos filmes que foram passando no Doclisboa, o público português conhece
pelo menos o poético Comboio de Sombras (1997), que estreou em sala, podia
conhecer Na Cidade de Sílvia (2007), porque vale a pena e é fácil de
obter em DVD, e poderá ver A Academia das Musas (2015) no LEFFEST.
Le
Saphir de Saint-Louis localiza-se na Catedral de Saint-Louis em La
Rochelle, prestando atenção aos pormenores de uma pintura que recorda uma
tragédia ocorrida em 1741 numa escuna que transportava escravos. É notável como
a exploração meticulosa de alguns centímetros quadrados de tela evoca tão
poderosamente a História, a geopolítica e a tragédia humana em toda a sua
crueza. Realizado por Marc Karlin (1943-1999), ‘o realizador desconhecido mais
importante a trabalhar no Reino Unido durante as últimas três décadas do século
XX’ segundo um obituário, The Outrage parte da pintura de Cy
Twombly para produzir uma reflexão mais geral sobre a importância da beleza e
da arte na vida das pessoas, um tema controverso que, mesmo neste filme, dá
origem aos depoimentos mais contraditórios. Apesar de se apoiar numa estrutura
supostamente narrativa, alegadamente contando a história de M, uma personagem
que vê a sua vida insignificante abalada pelas reflexões suscitadas por um
quadro de Cy Twombly, The Outrage transcende de vários modos
estas coordenadas mais convencionais e é um filme verdadeiramente livre,
propondo uma abordagem original de um tema já discutido até à exaustão. Ainda
bem que todos os anos é possível ver filmes sobre arte e museus no Doclisboa.
26 de outubro de 2015
As Mil e Uma Noites: Volume 3, O Encantado
O
terceiro volume de As Mil e Uma Noites (Miguel Gomes, 2015) começa com um
prólogo protagonizado por Xerazade, a narradora das histórias que dão corpo a
esta trilogia. Apesar de fluir demasiado ao sabor de ideias narrativas fugazes
e superficiais, esta secção possui uma componente auto-reflexiva interessante:
o cansaço de Xerazade e as dúvidas sobre se conseguirá continuar a aplacar
durante muito mais tempo a fúria sanguinária do rei Xariar põem em causa o
próprio dispositivo ficcional em que a trilogia assenta. Desgraçadamente, essa
fadiga e descrença parecem contaminar o resto do filme. Ao contrário dos dois
volumes anteriores, este é completamente dominado por uma única história (se
exceptuarmos o episódio breve e dispensável A Floresta Quente): a da
comunidade de passarinheiros que, entre Chelas e a Alta de Lisboa, se dedicam à
captura e ao treino de tentilhões que se defrontam em concursos de canto
renhidos. O registo, entre o documentário e a ficção, é aquele a que Gomes nos
habituou; os hábitos, rituais e disputas dos criadores são mostrados com detalhe
e empatia; não faltam momentos deliciosos, como a explicação sobre como a
antiga arte de ‘virar’ um tentilhão (isto é, ensiná-lo a cantar) beneficiou com
as novas tecnologias (CDs, MP3…). Porém,
o episódio arrasta-se muito para lá do interesse que consegue suscitar. Pior do
que isso: pela primeira vez nesta trilogia, a liberdade narrativa e a
criatividade, que chegam a ser intoxicantes nos volumes anteriores, dão lugar a
uma certa complacência. A ausência de ecos da situação política e social do
Portugal de hoje (os que existem são forçados, como a manifestação das forças
de segurança) contrasta também com volumes um e dois. Mas nada disto chega para
anular a impressão de que estas Mil e Uma Noites foram uma das aventuras mais
ambiciosas e loucas do cinema português dos últimos anos.
19 de outubro de 2015
Caprice
A Festa
do Cinema Francês já conheceu melhores dias em Lisboa. O Cinéfilo Preguiçoso
lembra-se não só de sessões esgotadas, com a presença do realizador ou de algum
actor emblemático, mas também de olhar para o programa e concluir tristemente
que não ia ter tempo para ver todos os filmes que lhe interessavam. Este ano só
um filme pareceu suficientemente convidativo: Caprice (2015), realizado por Emmanuel Mouret. Não se percebe muito
bem por que razão este realizador (nascido em 1970) não é mais reconhecido pelo
público português. Os seus filmes evocam imediatamente duas influências
fortíssimas: Woody Allen e Éric Rohmer. Certas sequências e alguns temas deste Caprice parecem extraídos de filmes do
realizador nova-iorquino: a relação entre um homem desastrado e uma mulher
belíssima mas aparentemente inatingível, os mal-entendidos e os actos
irracionais da vida sentimental de pessoas com idade para ter juízo, conversas
em restaurantes ou cafés; mesmo a presença do realizador como protagonista dos
seus filmes é alleniana. A influência de Éric Rohmer aparece aqui filtrada por
um tópico mais propriamente proustiano: a ideia de que as relações amorosas
mais duradouras são decididas por um acaso. Rohmeriano é também o contraste
entre as duas personagens femininas que dividem o protagonista: uma delas é ‘a
escolhida’, a actriz famosa e mulher perfeita que o protagonista há muito
desejava à distância, mas com quem as coisas parecem não funcionar com a
intensidade previamente imaginada; a outra é ‘a encontrada’, a jovem aspirante
a actriz imprevisível e perigosa que, contudo, não só percebe que a relação
entre os dois seria a combinação perfeita, mas também acaba, através de uma
edição cuidadosa, por transformar num sucesso a peça aborrecida escrita pelo
protagonista. Ainda que herdeiro destas influências fortes, Emmanuel Mouret
produz um cinema único que, na sua aparente leveza e bom humor, nos deixa
sempre a pensar em temas sérios, como os meandros e as armadilhas do amor. Este
filme tem estreia prevista em sala.
12 de outubro de 2015
5 x 2
Uma vez
que a estreia em Portugal do último filme de François Ozon, Une Nouvelle Amie, tem vindo a ser
repetidamente adiada – enésimo exemplo da falta de respeito que certos
distribuidores demonstram pelos espectadores –, o Cinéfilo Preguiçoso decidiu
rever 5 x 2 (2004) e não esqueceu a
devida vénia à boa alma que inventou o DVD. Ozon é um cineasta hiperactivo e
ecléctico cujo apetite por temas controversos lhe trouxe alguma fama de
irreverente e até revolucionário. Contudo, a sua filiação remete-nos para o
melodrama e para a Nouvelle Vague, e a sua abordagem e registo são
essencialmente clássicos e muito devedores do cinema de género (thriller, musical). 5 x 2 pode ser descrito como o retrato de um casamento frágil. O
facto de o filme ser narrado ao arrepio da sequência cronológica dos eventos
nada acrescenta ou retira aos méritos ou impacto do filme, mas tem a vantagem
de anular, logo à partida, qualquer interrogação sobre o desfecho, permitindo
ao espectador concentrar-se nas personagens e no enredo – que, diga-se em abono
da verdade, não requer grande dose de perspicácia. Se exceptuarmos Valeria
Bruni-Tedeschi, excelente como sempre, o que fica de 5 x 2 é a história banal de uma mulher e de um homem que se unem,
têm um filho e se separam sem que qualquer razão evidente o justifique. Talvez
Ozon pretendesse precisamente erigir essa arbitrariedade em tema principal, mas
o resultado final fica claramente aquém de Swimming
Pool, Sous le Sable, Jeune & Jolie ou Dans la Maison.
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