O calor potencia a preguiça, por isso o Cinéfilo escreve esta semana sobre um filme visto na comodidade do lar, na RTP2. Trespassing Bergman, documentário de 2013, realizado por Jane Magnusson e Hynek Pallas (e exibido na edição de 2014 do IndieLisboa), arranca com um dispositivo vagamente metaficcional: vários realizadores e actores famosos chegam, por diversos meios (a pé, de automóvel, de helicóptero) à casa de Ingmar Bergman na ilha de Fårö; entram, vagueiam pelas divisões e vão emitindo comentários («parece o muro de Berlim», afirma Tomas Alfredson, realizador do bastante estimável Tinker Tailor Soldier Spy). Esta ideia de mostrar os admiradores do mestre sueco como invasores, entre a reverência e o fetichismo, nunca é explorada com grande convicção e o filme acaba por se assemelhar a tantos outros, recorrendo abundantemente ao esquema clássico de depoimentos filmados, intercalados com imagens de arquivo e excertos de filmes. Como seria quase inevitável, o interesse do filme varia de forma evidente de acordo com os entrevistados. Há depoimentos genuinamente interessantes (Scorsese, Zhang Yimou, Michael Haneke, Woody Allen…), superficiais (John Landis, González Iñárritu, Wes Anderson) e delirantes (Lars von Trier – who else? – em roda livre). Há ainda reacções e momentos inesperados, como o ataque de pânico de Claire Denis, que a obriga a abandonar a casa abruptamente, ou a descoberta de uma cassete VHS do filme A Pianista, de Haneke, em cuja lombada o próprio realizador descobre quatro estrelas, presumivelmente uma apreciação crítica positiva deixada pela mão de Bergman. Em jeito de balanço final, Trespassing Bergman é um filme sem muito para dar em termos de ideias de cinema, algo conformista na estrutura e que pouco ou nada revela sobre Bergman que não se soubesse já. No entanto, tem o apreciável mérito de levar um grupo muito significativo de cineastas e actores (além dos já mencionados, Francis Coppola, Ridley Scott, Takeshi Kitano, Alexander Payne, Robert De Niro, Holly Hunter, Laura Dern, Isabella Rossellini, entre outros) a revelar um pouco mais sobre si e sobre a maneira como entendem a prática de fazer cinema, através da relação que estabeleceram, ao longo das décadas, com a obra de Bergman. Por exemplo, a maneira cândida e comovida como Ang Lee conta o primeiro visionamento de A Fonte da Virgem, num Taiwan conservador e fechado, faz valer a pena, só por si, o visionamento deste documentário.
17 de julho de 2016
10 de julho de 2016
Finding Vivian Maier
Numa semana muito triste por causa da morte de Abbas Kiarostami
(1940-2016), o Cinéfilo Preguiçoso viu em DVD o documentário Finding Vivian Maier, realizado por John
Maloof e Charlie Siskel (2013) depois da descoberta num leilão de uma caixa de
negativos de uma extraordinária fotógrafa até então totalmente desconhecida. O documentário assume uma abordagem
detectivesca, através da qual o próprio John Maloof, que comprou a caixa com a
intenção vaga de usar algumas fotografias num livro sobre a história de um
bairro de Chicago, descreve o percurso que seguiu a partir do momento em que
percebeu o valor artístico da descoberta. Para tentar conhecer a autora das
fotografias, Maloof explorou exaustivamente todos os objectos pessoais que
conseguiu reunir contactando as pessoas para quem ela tinha trabalhado como ama. Esta estrutura aparentemente convencional, baseada em entrevistas
cuidadosamente montadas para permitir a revelação gradual dos vários aspectos
da personalidade e biografia de Vivian Maier, garante-nos acesso à obra que vai sendo mostrada,
às dúvidas e perplexidades, bem ou mal resolvidas pela investigação, de Maloof,
assim como aos testemunhos daqueles que conheceram a artista. Contudo, talvez uma
das características mais interessantes do documentário resida na exposição das
lacunas da investigação, que nunca assegura uma compreensão abrangente e
satisfatória da figura investigada. Ironicamente, os depoimentos incluídos
revelam mais sobre quem fala do que sobre o assunto da conversa. Nenhuma das pessoas que a conheceram e que com ela viveram – mais
ou menos fluentes, mais ou menos estranhas, mais ou menos paranóicas ou
indiferentes e desatentas – se interessou o suficiente por Vivian Maier para se
dar conta do valor da obra e da artista, descrita quase sempre apenas como uma
acumuladora de objectos excêntrica e reservada, dotada de arestas que não lhe
permitiam encaixar em lugar algum durante muito tempo. Curiosamente, só nos
depoimentos de fotógrafos e críticos a propósito das fotografias de alguém que
nunca conheceram pessoalmente alcançamos um visão mais completa de como Vivian
Maier pode ter sido: a liberdade, o sentido de humor e de oportunidade, o
espírito curioso, a sede de informação. Além de ser um documentário sobre uma
fotógrafa prodigiosa, tão embrenhada nesta actividade que nunca divulgou o
próprio trabalho, além de desencadear alguma reflexão sobre os mecanismos de
consagração artística, Finding Vivian
Maier é um filme sobre o mistério que cada um de nós representa para os
outros. «Como conhecer alguém?» é uma das perguntas essenciais que coloca.
3 de julho de 2016
Amor e Amizade
Amor e Amizade (2016), a quinta longa-metragem realizada por Whit Stillman (cuja passagem pelo IndieLisboa de 2015 foi aqui devidamente assinalada), é a adaptação de uma obra pouco conhecida de Jane Austen (o romance epistolar Lady Susan) e representa uma ruptura com os cenários urbanos e contemporâneos a que este realizador nos habituara. Quando isto acontece, a tentativa de procurar pontos comuns e continuidades de tema ou de estilo com a obra anterior do autor apresenta-se como um exercício quase inevitável, embora de interesse duvidoso. Não é difícil encontrar esses pontos comuns no caso de Stillman: a predominância de diálogos saturados de segundos sentidos — instrumento de revelação da verdade mas sobretudo de manipulação —, a importância do estatuto social, o gosto por personagens obstinadas e um tanto excêntricas (sendo particularmente memoráveis as desempenhadas pelo fabuloso Chris Eigeman nos três primeiros filmes de Stillman) ou a presença das actrizes Kate Beckinsale e Chloë Sevigny, nos papéis da protagonista Lady Susan Vernon e da sua confidente americana. Para além da coerência temática ou falta dela, Amor e Amizade é um filme que faz plena justiça ao humor de Jane Austen e que gere de forma sagaz as clivagens entre aquilo que é dito e aquilo que é mostrado. O efeito cómico é potenciado pela forma como Stillman adopta as regras do filme de época (reconstituição histórica cuidada, montagem clássica, ausência de efusões estilísticas) sem abdicar de um olhar moderno e satírico sobre os costumes sociais da Inglaterra do século XVIII, onde a manipulação e a conspiração, quase sempre em torno do casamento, eram muitas vezes mais uma necessidade absoluta do que uma opção. Acrescente-se, a título de curiosidade, que está anunciada a publicação de uma versão do romance de Austen reescrita pelo próprio Stillman, que aliás já fizera o mesmo relativamente ao seu próprio argumento do filme The Last Days of Disco (1998). Ninguém que tenha visto pelo menos um filme dele ficará surpreendido com este prolongamento literário da sua actividade de realizador.
26 de junho de 2016
Maggie Tem Um Plano
Maggie Tem Um Plano, de Rebecca Miller (2015), possui muitas
características entediantes. O facto de se tratar de mais um filme situado em
Nova Iorque, sobre personagens que não se cansam de falar sobre as próprias
dificuldades e más relações, por si só, não é um problema. Há e continuará a
haver bons filmes com estes mesmos tópicos – mas distinguindo-se de Maggie Tem Um Plano por assentarem em
diálogos mais inteligentes e em dilemas que suscitam mais curiosidade. Por
exemplo, o filme Listen Up Philip
(sobre o qual escrevemos recentemente) situa-se na mesma cidade, incluindo
personagens equivalentes (escritores, académicos, criativos), mas é muito mais
interessante. E, contudo, participam no filme de Rebecca Miller – nascida em
1962, filha do dramaturgo Arthur Miller e casada com Daniel Day Lewis, já nossa
conhecida por ter realizado filmes como Velocidade
Pessoal (2002) ou A Balada de Jack e
Rose (2005) – actores excelentes
e carismáticos, desempenhando papéis que poderiam dar pano para mangas: uma
protagonista (Greta Gerwig) com uma dimensão maternal controladora que, depois
de tentar proteger em enredos consistentes todos os que a cercam, um pouco à
semelhança da Emma de Jane Austen, tem de se render ao «destino» ou «acaso»; um
casal de académicos da área da «antropologia fictocrítica» (sic) – John (Ethan Hawke) e Georgette (Julianne
Moore) – a braços com as dificuldades típicas tanto de um casamento longo como
da carreira em questão. Apesar de não serem propriamente medíocres, estas e
outras figuras nunca se destacam daquilo a que vulgarmente chamamos
«conversa de chacha», ao ponto de – proeza inesperada mas dispensável – não
haver qualquer química entre as personagens de Greta Gerwig e Ethan Hawke, pelo
simples facto de os diálogos e a maior parte das situações em que estão
envolvidos serem tão desengraçados e repisarem tantos lugares-comuns maçadores
que chegam a ser exasperantes. Felizmente, em contraste absoluto com Maggie Tem Um Plano no que diz respeito
à inteligência dos diálogos, estreou esta semana o filme Academia das Musas, de José
Luis Guerín (visto pelo Cinéfilo Preguiçoso no ano passado).
19 de junho de 2016
L'Avenir
Compreendendo cinco longas-metragens (uma das quais já abordada neste espaço) e um punhado de curtas, a carreira de Mia Hansen-Løve pode inserir-se na tradição naturalista francesa representada por Pialat, Téchiné ou Doillon. Contudo, existem particularidades de estilo que conferem um cunho de individualidade muito forte aos seus filmes e que a distinguem dos seus pares e dos seus antecessores. L’Avenir (2016, traduzido em Portugal por O Que Está por Vir), confirma esta impressão de originalidade e continuidade. O filme segue uma personagem num ponto crítico da sua vida. Professora de filosofia, casada e com dois filhos, Nathalie (Isabelle Huppert) é confrontada, num espaço de tempo curto, com o divórcio, a morte da mãe, o nascimento do neto e a sabotagem dos seus projectos editoriais, demasiado austeros e desalinhados com os ditames do marketing. L’Avenir é a crónica das reacções de Nathalie aos dissabores que sofre, oscilando entre a aparente indiferença, a indignação, alguns picos de emoção e, sobretudo, um pragmatismo sóbrio e amargo. Não se pode falar em estoicismo (aliás, Nathalie demonstra pouca propensão para derivar algum consolo da filosofia que ensina), mas antes de uma pulsão para dar continuidade à vida e para manter a lucidez que inclui uma forte dose de instinto, o mesmo instinto de que a gata da mãe dá mostras quando é pela primeira vez posta em contacto com a natureza. Não há epifanias nem redenções neste filme, cujo término, apesar de soar justo, surge num momento aparentemente arbitrário da narrativa e não coincide com qualquer ponto de inflexão libertador, tão do agrado de argumentistas medíocres. Entre as muitas coisas que se poderiam ainda dizer sobre este filme admirável, saliente-se apenas os planos em que Hansen-Løve coloca Nathalie em cenários naturais semi-selvagens (Bretanha, Vercors) quase abstractos, e ainda o uso da música (Schubert, Woody Guthrie…); em ambos os casos, a justeza do tom dispensa a pertinência narrativa. Como não é nosso costume afirmar o óbvio, terminemos com a referência à presença do rivetteano André Marcon (no papel do marido), em vez de aludirmos à excelência de Isabelle Huppert. Este filme recebeu o Urso de Prata de melhor realizador no festival de Berlim.
12 de junho de 2016
Listen Up Philip
Visto em
DVD, Listen Up Philip (2014), a
terceira longa-metragem de Alex Ross Perry (n. 1984), gira em torno de um jovem
escritor (interpretado pelo excelente Jason Schwartzman) depois da publicação do
seu segundo romance. Narrado em voz-off, como uma ficção, pelo actor e escritor
Eric Bogosian, o filme acompanha igualmente as personagens que gravitam em
torno de Philip, nomeadamente Ike Zimmerman (Jonathan Pryce), um escritor mais
velho e já consagrado que decide apadrinhá-lo, a namorada Ashley (Elizabeth
Moss), o gato Gadzookey, adoptado por Ashley quando Philip decide deixar a
cidade por uns tempos, além de outras novas e antigas namoradas com quem Philip se
vai confrontando. Os modelos de escritor e de literatura explorados no filme
estão muito próximos dos de certos romancistas americanos do sexo masculino,
como Philip Roth ou algum Saul Bellow, com obras que se alimentam de maus
sentimentos em relação às mulheres, encaradas apenas como caixas de ressonância
para desabafos mais ou menos egocêntricos. Os movimentos de câmara e a
rarefacção da linearidade narrativa recordam o cinema de Cassavetes nos seus
primeiros tempos, mas quando o próprio Alex Ross Perry escreveu que Listen Up Philip é um filme sobre a
agressividade e as energias negativas da cidade de Nova Iorque, integrou-se
imediatamente numa família de realizadores de que fazem parte Woody Allen e
Noah Baumbach. Também Allen e Baumbach fazem filmes sobre Nova Iorque, sem
hesitarem em mostrar o lado mais mesquinho da cidade e das suas personagens. Em
comparação com estes dois realizadores, contudo, parecem faltar a Perry algum
sentido de humor e um certo distanciamento irónico. Para Perry, as
características mais importantes das personagens são as suas fraquezas,
raramente ou nunca compensadas por virtudes redentoras. Em contraste com os
filmes de Woody Allen e Noah Baumbach, que exploram um espectro de emoções e
circunstâncias mais complexo e mais amplo, Listen
Up Philip resulta essencialmente como um excelente instrumento de
exploração dos fracassos no amor, na amizade e na vida em geral. É um filme que
não oferece redenções nem resoluções satisfatórias, mas que, mau grado a sua
negatividade, deixa espaço para a capacidade de seguir em frente e superar o
medo da solidão.
5 de junho de 2016
Alexandre Nevsky
Está a decorrer até ao próximo dia 13 de Julho, no Espaço Nimas, um excelente “Ciclo Grande Cinema Russo”, organizado pela Medeia Filmes. O Cinéfilo Preguiçoso não podia ficar indiferente. Alexandre Nevsky (visto no dia 3 de Junho, repete no dia 20), estreado originalmente em 1938, foi o primeiro filme sonoro de Sergey Eisenstein (em co-realização com Dmitry Vassiliev), tendo sido concebido como um alerta patriótico em face da ascensão da ameaça nazi, aqui posta em paralelo com as invasões teutónicas da Rússia no século XII. Esqueça-se o argumento, de um maniqueísmo que chega a ser aflitivo. Esqueça-se a enfadonha personagem do príncipe Nevsky e a sua retórica monocórdica. Assinale-se a tentativa de introduzir algum comic relief e uma componente humana e romântica através das personagens de Vassily, Gavrilo, Olga e Vassilissa, (embora seja difícil não estabelecer comparações desfavoráveis com um filme como La Marseillaise, de Jean Renoir, estreado no mesmo ano e que se distingue pela complexidade e riqueza das suas personagens, sem abdicar da alegoria nem da mensagem). Aquilo que faz de Alexandre Nevsky uma obra-prima é a sua dimensão plástica: a montagem, os magníficos planos de paisagens e multidões, o fabuloso preto-e-branco de Eduard Tissé, a lendária partitura de Prokofiev e sobretudo o modo como todos estes elementos se harmonizam para conferir uma notável unidade estética ao filme, culminando numa das mais extraordinárias cenas de batalha da história do cinema. Alexandre Nevsky pode parecer-nos hoje francamente datado nalguns aspectos, devido às circunstâncias históricas que presidiram à sua concepção e à apertada vigilância exercida pelo Kremlin, que impediu derivas formalistas excessivas por parte do realizador. Se o filme ainda hoje nos impressiona, é enquanto manifestação de cinema puro (deixando de lado os debates, sempre úteis mas quase sempre infrutíferos, sobre a “pureza” e “impureza” do cinema): corpos, luz e sons em movimento, amalgamados num todo vibrantemente superior às suas partes.
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