Nesta semana, o Cinéfilo Preguiçoso viu Woman of Tokyo (1933), filme mudo de Yasujiro Ozu, reunido numa edição em DVD do British Film Institute com duas obras mais tardias: Tokyo Twilight (1957) e Early Spring (1956). Woman of Tokyo, que dura apenas quarenta e cinco minutos e que terá sido rodado em apenas nove dias, é um melodrama cujo enredo se resume numa frase: o estudante universitário Ryoichi comete um acto tresloucado ao descobrir que a irmã trabalha como dançarina num clube nocturno para pagar as propinas dele. A narrativa é linear e caracteriza-se por uma absoluta economia de meios, com duas únicas excepções: um bizarro filme dentro do filme (Ryoichi e a namorada assistem a uma cena do episódio realizado por Lubitsch do filme If I Had a Million, de 1932) e um esboço de crítica social visando a imprensa sensacionalista, representada por alguns jornalistas que assediam a irmã e a namorada de Ryoichi, em busca de notícias trágicas. Ozu filma esta história simples e funesta com uma empatia extraordinária pelas personagens e uma atenção constante aos seus gestos e gradações de sentimento; esse elemento humano coexiste – e não há aqui nada de paradoxal – com numerosos planos aproximados de objectos (chaleiras, tigelas, luvas, uma peça de fruta cortada ao meio) que parecem secundarizar as pessoas mas ajudam a integrá-las na paisagem quotidiana onde se desenrolam as suas vidas. Procurar semelhanças entre o Ozu dos anos trinta e o Ozu do período do pós-guerra, marcado por uma sucessão de obras-primas que lhe trouxeram reconhecimento internacional, é um exercício supérfluo para a apreciação deste filme, mas é impossível deixar de notar aqui um estilo já plenamente formado e seguro, que aguardava talvez a maturidade e a cumplicidade de actores lendários como Chishu Ryu e Setsuko Hara para passar do tocante para o sublime. Outras características de Woman of Tokyo em que também se reconhece a marca de água do cinema de Ozu são a forma como esvazia de qualquer vestígio de grandiosidade trágica o acto desesperado de Ryoichi, assim como a lucidez com que nos mostra o princípio do resto das vidas das personagens: a namorada em pranto, a irmã revoltada («Foste um fraco!»), os repórteres em busca de mais sangue e lágrimas, o último movimento de câmara, um pouco à deriva, numa rua silenciosa.
18 de setembro de 2016
11 de setembro de 2016
Na Cave
O que
terá acontecido ao filme Hitchcock/Truffaut,
de Kent Jones (2015), com estreia prevista para Setembro? Não se sabe. Além
disso, quando se consulta a lista de estreias até ao fim deste mês em
Portugal, parece não haver um único título capaz de convencer o Cinéfilo
Preguiçoso a deslocar-se a uma sala de cinema. Restam os DVDs, mas às vezes
fazem-se compras que depois suscitam arrependimento. Se um dia, por falta de
espaço, o Cinéfilo Preguiçoso decidir livrar-se de alguns filmes, o documentário
Na Cave, de Ulrich Seidl (2014),
parece um forte candidato à eliminação, logo seguido por Chocolate, de Lasse Halström (2000), que um dia veio de graça com
um jornal. O que há nas caves dos austríacos filmados por Seidl? Coisas
bizarras, mas francamente desinteressantes: colecções de objectos relacionados
com Hitler, carreiras de tiro onde se desenrolam conversas racistas, troféus de
caça, equipamento para práticas sadomasoquistas, bonecos representando bebés de
modo bastante realista, móveis que foram «muito caros». Como fantasmas tão insistentes
que acabam por parecer inofensivos, os proprietários das caves vão reaparecendo
ao longo do filme, geralmente filmados em planos frontais repetitivos e
monótonos, reencenando práticas e dizendo inanidades. Apesar de haver
diferenças importantes entre as diversas figuras que se prestam a ser filmadas,
estas são equiparadas, como se houvesse entre elas uma ligação explicativa mais
abrangente que as transforma em actantes da mesma doença. O filme parece conter
uma advertência moral (cuidado com as coisas subterrâneas), mas não chega
propriamente a ser satírico, por ser tanta a mediocridade documentada. Cai no
ridículo quando tenta que o espectador partilhe a sua tentativa de
ridicularizar os intervenientes. Fica-se
a pensar se o que não é subterrâneo na Áustria não será muito mais
perigoso. Quem conseguir chegar ao fim do filme precisará de um antídoto para
reanimar os neurónios atordoados: para um retrato inteligente e realmente
mordaz da Áustria, recomenda-se a leitura da obra de Thomas Bernhard.
4 de setembro de 2016
O Desconhecido do Lago
O Cinéfilo Preguiçoso regressou de férias e constatou que existem poucos motivos de entusiasmo na lista de estreias das próximas semanas; felizmente, o seu baú de DVDs está bem aprovisionado. O Desconhecido do Lago (2013) é a quarta longa-metragem de Alain Guiraudie, realizador cujo estatuto de ave rara do cinema francês se tem diluído, a ponto de o seu mais recente filme (Rester Vertical, de 2016, ainda inédito entre nós) ter integrado a selecção oficial do último festival de Cannes. O Desconhecido do Lago passa-se integralmente num lago artificial da região da Provença e no mato circundante, palco de encontros sexuais furtivos entre homens. Franck trava amizade com Henri (personagem ambígua, que durante quase todo o filme se limita a observar e comentar a acção, mas precipita o desenlace quando age pela primeira e única vez num dos momentos mais surpreendentes do filme) e apaixona-se por Michel, apesar de o ter visto assassinar um amante. À excepção do homicídio (filmado de forma assombrosa, muito de longe e sem cortes, num lusco-fusco sinistro e opressivo), a acção do filme resume-se aos diálogos junto à água, às braçadas dos banhistas e às actividades sexuais no meio de vegetação, mostradas de forma explícita mas com uma candura desconcertante. As cenas finais, mergulhadas numa treva quase total, remetem-nos para o domínio do conto de terror, talvez o único género apropriado para acolher os últimos momentos de Franck: dilacerado entre o medo e o desejo, desejoso ao mesmo tempo de fugir e de reencontrar o amante. O Desconhecido do Lago rompe com o estilo que Guiraudie cultivou em muitos dos seus filmes anteriores, que integravam elementos fantásticos, oníricos e iconoclastas ao serviço de um humor muito peculiar, sem nunca perder de vista o contacto com problemas muito reais de sociedade, política e identidade sexual. No entanto, a utilização da natureza semi-selvagem como cenário único aparenta-o ao extraordinário Du Soleil pour les Gueux, uma curta-metragem que, pela duração (55 minutos), originalidade e notável coerência estética, merece figurar na filmografia de Guiraudie ao lado das suas longas-metragens, que esperamos continuar a ver nas salas portuguesas.
31 de julho de 2016
Uma Pastelaria em Tóquio
Uma Pastelaria em Tóquio (2015) é a longa-metragem mais recente da realizadora japonesa Naomi Kawase, que tem vindo a conquistar um lugar estável nos festivais europeus e nos circuitos de estreias em sala. O enredo do filme, baseado no livro do romancista, poeta e performer Durian Sukegawa, é de grande simplicidade: Sentaro, o dono solitário e melancólico de uma pequena pastelaria especializada em dorayaki (panquecas recheadas), contrata como ajudante Tokue, uma senhora idosa com um talento extraordinário para a confecção do recheio de pasta doce de feijão. Confrontado com a revelação de que a senhora é uma sobrevivente da lepra que vive num sanatório desde a juventude, Sentaro resigna-se a vê-la partir por pressão da proprietária da loja e dos próprios clientes. Apesar de breve, este convívio marca a vida de ambos, o que se torna claro quando Sentaro herda os apetrechos de cozinha de Tokue após a morte desta, acabando por abandonar a pastelaria e estabelecer-se por conta própria, com uma banca ao ar livre. Uma Pastelaria em Tóquio não é desprovido de algum interesse e encanto, sobretudo no primeiro terço, quando os gestos e procedimentos da confecção dos dorayaki são mostrados com uma precisão e objectividade de documentarista, permitindo ao espectador apreciar o virtuosismo de Kawase no tratamento dos planos aproximados recolhidos no espaço exíguo da pastelaria. Infelizmente, o filme resvala rapidamente para um sentimentalismo que soa a falso. O nadir deste percurso descendente talvez seja a referência às histórias que todos os seres transportam consigo, incluindo (ao que parece) os próprios feijões. Outro passo em falso é a maneira forçada como a personagem de Wakana, uma adolescente com problemas familiares, é incluída, parecendo uma tentativa canhestra de tentar evitar um enredo demasiado centrado no par Sentaro-Tokue. Pelo menos, os percursos pedestres de Wakana permitem ao espectador apreciar uma Tóquio tranquila, anónima e discretamente bela, longe do pitoresco e do cosmopolitismo high-tech.
O Cinéfilo Preguiçoso parte agora de férias. Desejamos aos nossos leitores boas férias e bons filmes. Até Setembro.
24 de julho de 2016
Patience (After Sebald)
Mais uma
semana, mais um documentário em DVD. Desta vez, Patience (After Sebald), de Grant Gee (2012), um filme que
homenageia o livro Os Anéis de Saturno,
de W.G. Sebald (1944-2001), procurando seguir o percurso do narrador numa
caminhada na região inglesa de Suffolk. Como os outros documentários de que
falámos nas últimas semanas, Patience
recorre a depoimentos, neste caso com a singularidade
de se ouvirem predominantemente as vozes dos diversos admiradores de Sebald entrevistados, porque os rostos aparecem pouco, por
vezes diluindo-se na paisagem. Nestes depoimentos residem
simultaneamente a maior fraqueza e a melhor surpresa deste filme. A maior
fraqueza é o excesso de comentário; o documentário nunca chega a autonomizar-se
do ponto de vista visual: poucas sequências se destacam como verdadeiramente
memoráveis e as palavras são quase sempre mais importantes do que as imagens.
Poder-se-ia dizer que o valor do filme é subsidiário do livro. Por outro lado,
a melhor surpresa deve-se ao facto de convocar uma série de figuras
interessantes nunca antes reunidas no mesmo círculo: fãs tanto de Robert Macfarlane como de Adam Phillips, Tacita Dean, Rick
Moody, Christopher Woodward, Michael Silverblatt ou Iain Sinclair ficam a
perceber de repente que há uma ligação fundamental a uni-los. Sobre Sebald,
justamente uma das ideias mais interessantes que ficam é a da sua capacidade
para estabelecer conexões inesperadas e reveladoras entre elementos (pessoas,
momentos históricos, espaços, conceitos) diferentes e por vezes até
contraditórios: sofrimento e prazer, mobilidade e encurralamento, progressão e
repetição, luto e celebração, beleza e estranheza, exaustão e persistência. A
impressão final é a de um filme mais conservador do ponto de vista formal do
que outro documentário do mesmo realizador sobre uma obra literária (Innocence of Memories, de 2015, em torno
de um romance de Orhan Pamuk), mas talvez mais eficaz, graças ao tom esparso e
sóbrio e à humildade que revela ao seguir à risca a estrutura e a cronologia do
livro. Os testemunhos e a revisitação dos lugares descritos no livro acabam por
evocar Sebald de forma surpreendentemente poderosa, da mesma maneira que uma
nuvem de fumo difusa, numa das cenas finais, se transforma por momentos no
rosto do escritor.
17 de julho de 2016
Trespassing Bergman
O calor potencia a preguiça, por isso o Cinéfilo escreve esta semana sobre um filme visto na comodidade do lar, na RTP2. Trespassing Bergman, documentário de 2013, realizado por Jane Magnusson e Hynek Pallas (e exibido na edição de 2014 do IndieLisboa), arranca com um dispositivo vagamente metaficcional: vários realizadores e actores famosos chegam, por diversos meios (a pé, de automóvel, de helicóptero) à casa de Ingmar Bergman na ilha de Fårö; entram, vagueiam pelas divisões e vão emitindo comentários («parece o muro de Berlim», afirma Tomas Alfredson, realizador do bastante estimável Tinker Tailor Soldier Spy). Esta ideia de mostrar os admiradores do mestre sueco como invasores, entre a reverência e o fetichismo, nunca é explorada com grande convicção e o filme acaba por se assemelhar a tantos outros, recorrendo abundantemente ao esquema clássico de depoimentos filmados, intercalados com imagens de arquivo e excertos de filmes. Como seria quase inevitável, o interesse do filme varia de forma evidente de acordo com os entrevistados. Há depoimentos genuinamente interessantes (Scorsese, Zhang Yimou, Michael Haneke, Woody Allen…), superficiais (John Landis, González Iñárritu, Wes Anderson) e delirantes (Lars von Trier – who else? – em roda livre). Há ainda reacções e momentos inesperados, como o ataque de pânico de Claire Denis, que a obriga a abandonar a casa abruptamente, ou a descoberta de uma cassete VHS do filme A Pianista, de Haneke, em cuja lombada o próprio realizador descobre quatro estrelas, presumivelmente uma apreciação crítica positiva deixada pela mão de Bergman. Em jeito de balanço final, Trespassing Bergman é um filme sem muito para dar em termos de ideias de cinema, algo conformista na estrutura e que pouco ou nada revela sobre Bergman que não se soubesse já. No entanto, tem o apreciável mérito de levar um grupo muito significativo de cineastas e actores (além dos já mencionados, Francis Coppola, Ridley Scott, Takeshi Kitano, Alexander Payne, Robert De Niro, Holly Hunter, Laura Dern, Isabella Rossellini, entre outros) a revelar um pouco mais sobre si e sobre a maneira como entendem a prática de fazer cinema, através da relação que estabeleceram, ao longo das décadas, com a obra de Bergman. Por exemplo, a maneira cândida e comovida como Ang Lee conta o primeiro visionamento de A Fonte da Virgem, num Taiwan conservador e fechado, faz valer a pena, só por si, o visionamento deste documentário.
10 de julho de 2016
Finding Vivian Maier
Numa semana muito triste por causa da morte de Abbas Kiarostami
(1940-2016), o Cinéfilo Preguiçoso viu em DVD o documentário Finding Vivian Maier, realizado por John
Maloof e Charlie Siskel (2013) depois da descoberta num leilão de uma caixa de
negativos de uma extraordinária fotógrafa até então totalmente desconhecida. O documentário assume uma abordagem
detectivesca, através da qual o próprio John Maloof, que comprou a caixa com a
intenção vaga de usar algumas fotografias num livro sobre a história de um
bairro de Chicago, descreve o percurso que seguiu a partir do momento em que
percebeu o valor artístico da descoberta. Para tentar conhecer a autora das
fotografias, Maloof explorou exaustivamente todos os objectos pessoais que
conseguiu reunir contactando as pessoas para quem ela tinha trabalhado como ama. Esta estrutura aparentemente convencional, baseada em entrevistas
cuidadosamente montadas para permitir a revelação gradual dos vários aspectos
da personalidade e biografia de Vivian Maier, garante-nos acesso à obra que vai sendo mostrada,
às dúvidas e perplexidades, bem ou mal resolvidas pela investigação, de Maloof,
assim como aos testemunhos daqueles que conheceram a artista. Contudo, talvez uma
das características mais interessantes do documentário resida na exposição das
lacunas da investigação, que nunca assegura uma compreensão abrangente e
satisfatória da figura investigada. Ironicamente, os depoimentos incluídos
revelam mais sobre quem fala do que sobre o assunto da conversa. Nenhuma das pessoas que a conheceram e que com ela viveram – mais
ou menos fluentes, mais ou menos estranhas, mais ou menos paranóicas ou
indiferentes e desatentas – se interessou o suficiente por Vivian Maier para se
dar conta do valor da obra e da artista, descrita quase sempre apenas como uma
acumuladora de objectos excêntrica e reservada, dotada de arestas que não lhe
permitiam encaixar em lugar algum durante muito tempo. Curiosamente, só nos
depoimentos de fotógrafos e críticos a propósito das fotografias de alguém que
nunca conheceram pessoalmente alcançamos um visão mais completa de como Vivian
Maier pode ter sido: a liberdade, o sentido de humor e de oportunidade, o
espírito curioso, a sede de informação. Além de ser um documentário sobre uma
fotógrafa prodigiosa, tão embrenhada nesta actividade que nunca divulgou o
próprio trabalho, além de desencadear alguma reflexão sobre os mecanismos de
consagração artística, Finding Vivian
Maier é um filme sobre o mistério que cada um de nós representa para os
outros. «Como conhecer alguém?» é uma das perguntas essenciais que coloca.
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