25 de fevereiro de 2018

84 Charing Cross Road

84 Charing Cross Road (David Jones, 1987), visto em DVD, baseia-se no livro com o mesmo título em que Helene Hanff, na altura (1970) uma dramaturga americana de pouco sucesso, reuniu a correspondência que trocou entre 1949 e 1968 com alguns funcionários da livraria londrina Marks & Co, nomeadamente Frank Doel (Anthony Hopkins), o alfarrabista responsável pelas compras do estabelecimento. Não encontrando em Nova Iorque, a preços acessíveis, os livros esgotados que gosta de ler, a protagonista (Anne Bancroft) prefere tornar-se cliente à distância da livraria inglesa. É um filme muito sui generis na medida em que Helene e as personagens de Londres nunca se conhecem pessoalmente – todos os contactos se desenvolvem por intermédio das cartas, dos livros e de pequenos presentes, num tempo em que não há Internet, ainda se usa máquinas de escrever, ainda se fuma nos filmes, ainda se escreve cartas e a chegada do correio é um acontecimento de grande importância. O filme The Lake House (Alejandro Agresti, 2006), com Sandra Bullock e Keanu Reeves, ainda que com mais complicações e incongruências, tem uma estrutura semelhante – nos dois casos as personagens interagem apenas epistolarmente, mas enquanto em 84 Charing Cross Road partilham o mesmo tempo, vivendo em espaços diferentes, em The Lake House os protagonistas partilham o mesmo espaço, mas em tempos distintos. De notar também que em 84 Charing Cross Road não há grandes dramas emocionais – só o quotidiano das personagens, que nem sequer são muito eruditas, autodescrevendo-se apenas como pessoas que se interessam por livros. As deliciosas observações sobre os livros procurados e lidos – autores vagamente obscuros ou textos difíceis de encontrar de clássicos, como a prosa de John Donne, certos ensaios de William Hazlitt, ou o diário de Samuel Pepys –  convocam todas as outras dimensões da existência. Um dos momentos mais comoventes é aquele em que Helene, limpando o pó dos livros que tem nas estantes, depois de receber uma má notícia sobre Frank Doel, percebe que a vida dela teria sido muito mais pobre e infeliz sem aquela relação. Não há muitos filmes sobre a importância dos livros nas nossas vidas. 84 Charing Cross Road destaca-se, assim, não só pela invulgaridade do tema, mas também pela delicadeza e sobriedade da abordagem e pela humanidade das personagens, aparentemente banais, mas, talvez precisamente por isso, infinitamente interessantes. É um daqueles filmes que dificilmente ficará na história do cinema mas que oferece numerosos motivos para ser admirado.