26 de abril de 2020

O Jovem Karl Marx


Gravado na RTP2, O Jovem Karl Marx (Raoul Peck, 2017) propõe-nos um retrato do revolucionário enquanto jovem, nos primeiros tempos de amizade e colaboração com Friedrich Engels, pouco antes de começar a escrever O Capital. Do ponto de vista narrativo, o argumento, assinado pelo próprio realizador em colaboração com Pascal Bonitzer, parece bastante convencional. Distingue-se, no entanto, por abordar uma fase incipiente do percurso de Karl Marx (entre os vinte e trinta anos de idade) e, dentro desta, a vertente mais quotidiana, banal e comezinha da sua existência: as dificuldades de sobrevivência, a incerteza sobre as próprias capacidades, a falta de energia, as quezílias, as discordâncias em relação a outros filósofos (Hegel, Proudhon) ou pretensos profetas resistentes à teoria (Weitling), as perseguições e algumas pequenas vitórias. Uma das qualidades deste filme que raramente entusiasma é mostrar não só que é possível filmar a História acompanhando personagens credíveis e humanas, mas também que personagens credíveis e humanas podem ter impacto na História e nas estruturas sociais. Esta opção, privilegiando um processo de formação e opondo-se diametralmente à História que se concentra apenas em grandes feitos e supostos heróis, permite ao filme explorar também a medida em que um temperamento pode determinar um destino. O Jovem Karl Marx acompanha o processo de definição de um carácter que questiona e problematiza (“crítica da crítica crítica”, além de ser o subtítulo da obra A Sagrada Família, é a descrição jocosa, mas adequada, que se aplica à actividade de Marx e Engels), sugerindo que todas as dificuldades que o protagonista terá de enfrentar, mas também a sua capacidade de transformação do universo em que embate, já estão contidas no seu temperamento. O filme termina com Marx a queixar-se: está cansado, farto de panfletos e manifestos, sem energia para escrever um livro sólido que dê forma concreta ao seu pensamento, mas desejoso de o fazer. Não precisa de narrar o futuro do protagonista porque tudo o que já explorou sobre ele anuncia o que virá a acontecer. Neste aspecto, ao jogar com as expectativas do espectador, que sabe que aquele homem desmotivado será um dos pensadores mais influentes do século XIX e irá marcar a história dos séculos seguintes, é um filme que acaba no momento certo, mas falta-lhe investimento formal para ser um objecto cinematograficamente interessante. Talvez se esperasse um pouco mais de uma colaboração entre Raoul Peck, realizador do irregular mas muito celebrado I Am Not Your Negro (2016), e de Pascal Bonitzer, com uma carreira muito rica enquanto argumentista (por exemplo de Jacques Rivette), realizador e crítico.