Roy
Andersson vê a existência humana como uma tragédia, mas filma-a como uma
comédia, ou o contrário? De qualquer modo, há algures um mal-entendido. Se o
Cinéfilo Preguiçoso se sentisse mais próximo deste tipo de sentido de humor
baseado na incompreensão, no distanciamento, na falta de empatia e na ideia de
que a humanidade é composta por figuras grotescas e ridículas vistas à pressa
num Museu de História Natural porque alguém impaciente está à nossa espera para
coisas mais práticas, talvez tivesse apreciado mais Um Pombo Pousou Num Ramo a
Reflectir na Existência. Ainda assim, é preciso reconhecer que certos
elementos deste filme, galardoado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza de
2014, resultam bem, com destaque para as personagens dos vendedores de artigos
de diversão deprimidos, a falta de convicção de um dos intervenientes numa aula
de flamenco e uma conversa sobre dias da semana que já todos tivemos. Em certo
ponto do filme, depois de ter uma visão horrífica relacionada com o sacrifício
de escravos numa construção metálica que evoca um instrumento musical, um dos
vendedores interroga-se kantianamente em voz alta num corredor: ‘Será correcto
usar outros seres humanos apenas para gratificação do nosso prazer?’ O porteiro
do prédio responde-lhe sem hesitar: ‘Achas mesmo que esta é a altura adequada
para estares a pensar sobre isso? Amanhã há pessoas que têm de se levantar
cedo.’ Quem apreciar o minimalismo macabro de Andersson poderá aproveitar para
ver ou rever os dois primeiros filmes da trilogia que esta obra encerra:
Canções do Segundo Andar e Tu Que Vives, ambos em exibição no Monumental
(Lisboa) e no Teatro Municipal do Campo Alegre (Porto).
29 de junho de 2015
22 de junho de 2015
The Royal Tenembaums
The Royal Tenenbaums (2001,
visto pelo Cinéfilo Preguiçoso em DVD em dia de grande canícula) foi a terceira
longa-metragem realizada por Wes Anderson. O estilo deste autor estava já
perfeitamente consolidado: planos cuidados até ao mínimo pormenor visual, humor
melancolicamente absurdo, espaços geográficos alheios a qualquer lugar real mas
dotados de uma intensa coerência interna, personagens caracterizadas
essencialmente por aquilo que têm de excêntrico. O filme conta a história da
família Tenenbaum, cujos filhos, criados para serem prodígios, entram em crise
e perdem o rumo quando chegam à idade adulta. Tal como nas restantes obras de
Anderson, os momentos mais conseguidos deste filme desconcertante mas sedutor
(ao seu modo muito próprio) são aqueles em que as personagens desafiam a sua
caracterização tipificada e ousam assumir-se como pessoas, carentes de sentido
ou simplesmente de carinho: falamos, por exemplo, da tentativa do patriarca
(Gene Hackman, excelente como sempre) de se reconciliar com a família ou da
aproximação entre Margot (Gwyneth Paltrow) e o irmão adoptivo (Luke Wilson). Em retrospectiva, é curioso reconhecer
pequenos detalhes que antecipam temas e ideias explorados mais tarde pelo
realizador, como a peça cujas personagens são todas animais (Moonrise
Kingdom, 2012) ou o ambiente de hotel grandioso e decadente (The Grand
Budapest Hotel, 2014).
15 de junho de 2015
Enquanto Somos Jovens
Se por
acaso nos acontecesse ver o filme Enquanto Somos Jovens sem sabermos quem era
o realizador, não seria muito difícil adivinhar o nome: Noah Baumbach (n. 1969).
Esta facilidade de identificação deve-se a certos traços distintivos dos filmes
do realizador, como a atenção ao espaço urbano e a exploração exaustiva de
alguns temas: o fracasso, o problema da autenticidade e as dificuldades da
autopromoção. Outra característica importante do cinema de Baumbach é o talento
para explorar as dimensões mais negativas e mesquinhas das personagens sem
deixar que isso afecte a compaixão com que as filma. Em Enquanto Somos Jovens
encontramos explicitamente todas estas questões, girando em torno do contraste entre a
meia-idade e a juventude. Este contraste é encenado através da relação entre os
dois casais principais, interpretados magistralmente por Ben Stiller e Naomi
Watts, do lado da meia-idade, e por Adam Driver e Amanda Seyfried do lado da
juventude – os mais velhos com uma existência quase virtual, os mais novos
ostentando um interesse por actividades práticas e artesanais que às vezes não
passa de pose. Do ponto de vista da distribuição, este filme tem sido tratado
como um produto mais mainstream do que a restante obra do realizador, mas só se
pode dizer que este é o seu filme mais comercial porque a obra de Baumbach,
permanecendo sempre fiel a si mesma, já atingiu um estatuto em que ela própria
dita as regras do que pode interessar ao grande público. Um espectador da
geração de Baumbach revê-se imediatamente nos gestos, nos hábitos, nos
conflitos e nas preocupações das suas personagens; os restantes dificilmente
deixarão de empatizar com o que há de universal e eterno no medo de envelhecer
e na procura da felicidade e do equilíbrio.
8 de junho de 2015
Gaslight
Gaslight
(visto em DVD, já que nada em sala parecia ter interesse) é um filme de 1944,
realizado por George Cukor. A personagem principal, Paula, interpretada por
Ingrid Bergman (num papel que lhe valeu o primeiro de três óscares), vive
assombrada pelo assassinato da tia que ocorreu numa casa situada numa praça
pacata de Londres. Quando Paula parece a caminho de refazer a vida, o casamento
e o regresso subsequente à casa da tia trazem de volta terrores antigos
associados ao homicídio, que ficou por esclarecer. O marido (Charles Boyer)
tenta persuadi-la de que está a perder o juízo e ameaça interná-la; em
paralelo, entrega-se a actividades misteriosas que o filme dá generosamente a
entender estarem relacionadas com o crime. A comparação com filmes aproximadamente
contemporâneos que também exploram o tema da duplicidade do marido (por exemplo
Suspicion, de Hitchcock, ou Secret Beyond the Door, de Lang) não é muito
favorável a Gaslight, em termos de complexidade e subtileza. Contudo, não
faltam pontos de interesse, em particular a maneira como o regresso de Paula e
a sua alienação são encenados como um processo de descoberta do próprio
passado, cujo culminar lhe permite por fim iniciar a sua própria vida. O filme
vale ainda pela tortura psicológica que Paula inflige ao marido no confronto
final e pela maneira como deixa brilhar em papéis secundários duas grandes
actrizes, respectivamente em fim e início de carreira: May Whitty e Angela
Lansbury.
1 de junho de 2015
National Gallery
Nos planos finais do filme The Great Museum eram focados diferentes pormenores de uma das telas em que Bruegel representou a Torre de Babel, exposta no Museu de História da Arte de Viena. Em National Gallery, Frederick Wiseman também trabalha esta visão de museu como um edifício em permanente construção e desconstrução, onde toda a gente fala linguagens diferentes sem chegar a um consenso estável. Contudo, enquanto The Great Museum abordava exclusivamente o museu vienense, o filme de Wiseman, fascinado pela diversidade dos discursos e comportamentos dos funcionários do museu londrino, desencadeia uma reflexão sobre arte que ultrapassa a questão dos limites físicos e circunstanciais do espaço museológico. Contrastando momentos de visitas guiadas, de aulas, de reuniões da direcção, de um espectáculo de dança inspirado por uma exposição dedicada a Ticiano e de discussões sobre assuntos tão diferentes como restauro, propriedades físicas das obras de arte e acções de marketing, Wiseman mostra que não há realmente oposição entre interpretações subjectivas e interpretações supostamente objectivas tanto das obras de arte como da própria instituição do museu. Em relação a este tema, destacam-se dois momentos. Num deles, um especialista explica que, ainda que o restauro se apoie em estudos exaustivos dos objectos, restaurar uma obra nunca pode ser simplesmente reconstituir o seu estado original; este processo exige uma reinterpretação da obra de arte tomando em consideração o contexto em que esta passará a integrar-se e não só o seu passado. Noutro momento, durante uma conversa sobre uma tela de Vermeer, uma historiadora afirma que o importante nas obras de arte é a capacidade destas de reterem a nossa atenção sempre que nos aconteça observá-las, muitas vezes por motivos que os ensaístas que escreveram sobre ela não previram (a hora do dia, a pessoa com quem se está, um pormenor, uma tonalidade, um gesto, uma acção).
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