11 de fevereiro de 2018

Linha-Fantasma


Nunca se sabe muito bem o que esperar de Paul Thomas Anderson. Já tivemos filmes localizados na era contemporânea, no início do século vinte, em meados do século vinte, sobre um grupo de actores de cinema pornográfico, sobre pessoas religiosas ou com problemas de drogas, e até filmes com sapos que caem do céu. Linha-Fantasma passa-se nos anos cinquenta do século XX, em Inglaterra, e conta uma história um pouco gótica em que servir cogumelos venenosos funciona como acto de amor. A narração do filme assenta em momentos da conversa da protagonista, Alma (Vicky Krieps), com um médico, a quem esta vai explicando o segredo da sua relação com Reynolds (Daniel Day-Lewis), um costureiro obcecado com a sua profissão. Em vão se procura o título do livro de que o argumento possa ter sido adaptado: saiu tudo da cabeça imprevisível do próprio Thomas Anderson. Um costureiro obsessivo como protagonista pareceria terreno fértil para os desmandos dramáticos em que Day-Lewis costuma ser pródigo, mas este actor aparece aqui surpreendentemente contido, sobretudo quando se pensa na actuação descontrolada que tem em There Will Be Blood (Paul Thomas Anderson, 2007). Tanto Krieps como Lesley Manville, no papel da ambígua irmã de Reynolds (que lhe valeu uma nomeação para os óscares), aproveitam esta contenção para assinarem duas interpretações seguras que contribuem para o equilíbrio do filme. Linha-Fantasma não é um filme tão olvidável como Inherent Vice (2014), nem tão enigmático como The Master (2012). Anos depois de ter visto ambos, o Cinéfilo Preguiçoso recorda o primeiro como uma palhaçada sem pés nem cabeça, enquanto continua a pensar com interesse nas personagens complexas e poderosíssimas do segundo, sem ter a certeza de as ter compreendido plenamente. Linha-Fantasma não tem personagens tão interessantes. Ainda assim, ao contrário de Inherent Vice, é um filme suficientemente coeso para não desaparecer totalmente da memória. A sua maior virtude talvez seja a de evitar derivar para meditações grandiloquentes sobre a natureza do génio e da criação, e a maneira como descreve a evolução de uma relação em que a procura de conforto e dedicação mútua, um dos motores mais convencionais da sociedade, adquire contornos singularmente perversos. Não vale a pena procurar uma mensagem transcendental naquilo que afinal não passa de um exercício, estilisticamente requintado, por vezes irritante, mas que funciona satisfatoriamente como divagação sobre a maneira bizarra e improvável que algumas pessoas encontram para se aproximarem e serem felizes juntas.