10 de junho de 2018

Mulheres do Século XX


Mulheres do Século XX (2016), visto em DVD, é o filme que Mike Mills declarou ter feito para tentar compreender a mãe, depois de em 2010 ter realizado Beginners/Assim É O Amor, onde tentava compreender o pai, um historiador de arte que foi director do Santa Barbara Museum of Art e só assumiu ser homossexual aos setenta e cinco anos, cinco anos antes de morrer. Perto do fim de Mulheres do Século XX, a voz-off de Jamie (Lucas Jade Zumann), o filho-narrador afirma: «Tentei explicar ao meu próprio filho como a avó era, mas foi impossível.» Um dos pontos fortes do filme reside na consciência desta incompreensão e deste fracasso – a ideia de que nem sempre somos capazes de entender as pessoas mais importantes para nós – e nas soluções visuais e narrativas encontradas para lidar com essa dificuldade fundadora. Dorothea Fields (Annette Bening), uma figura à Amelia Earhart, revela-se refractária não só ao tempo, mas também a qualquer tipo  de narração, explicação ou autodescrição, não se percebendo bem se se trata de uma figura vazia ou de alguém que simplesmente tem uma paixão maior do que as ferramentas ao seu dispor para a expressar, como a dada altura se comenta a propósito da banda The Raincoats (que Dorothea, sintomaticamente, não entende). Receando não ser capaz de educar o filho devido à incomunicabilidade que a caracteriza, Dorothea pede ajuda a Abbie (Greta Gerwig), Julie (Elle Fanning) e William (Billy Crudup), personagens que se movem em torno da relação mãe-filho. Graças a esta «transferência de poderes» um pouco a contragosto, Jamie é exposto a informação sobre o espírito do tempo (o feminismo, o movimento pós-punk, o movimento new age, incluindo uma referência à surpreendente intervenção de Jimmy Carter no discurso «Uma Crise de Confiança») a que Dorothea parece impermeável. Simultaneamente, essa transferência permite a Mike Mills traçar um retrato histórico interessante dos Estados Unidos no século XX através da exploração da vida de todas estas personagens não só no presente da acção (em 1979), mas também antes e depois desta data. Deste modo, apesar de inspirado por uma incompreensão irresolúvel, Mulheres do Século XX funciona também como veículo de compreensão e ilustra, de forma sóbria e muitas vezes tocante, a maneira como os afectos, o acaso e as tendências de uma época contribuem para moldar a vida de cada pessoa.