7 de novembro de 2021

Doze Homens em Fúria

A primeira longa-metragem para cinema de Sidney Lumet, Doze Homens em Fúria (1957), gravada num canal de televisão e vista esta semana, trata temas que este realizador viria a abordar com frequência na sua longa carreira, em particular os efeitos do individualismo na sociedade e a maneira como o funcionamento desta é influenciado pela instabilidade da natureza humana. Com excepção de algumas curtas cenas iniciais e de um brevíssimo epílogo, todo o filme decorre numa sala onde está reunido o júri de um caso de homicídio. O argumento centra-se na exposição de argumentos que, mais do que a inocência ou culpa do réu, se relacionam com o conceito de dúvida razoável que é uma das pedras basilares do sistema judicial norte-americano. Um dos jurados, interpretado por Henry Fonda, que no início é o único a opor-se ao veredicto de culpado, vai suscitando nos colegas essa dúvida razoável, ao questionar de forma sistemática as provas e testemunhas apresentadas pela acusação durante o julgamento. Este jurado, aliás, funciona como um advogado de defesa a posteriori, evocando inevitavelmente o papel de Fonda em Young Mr. Lincoln (1939), de John Ford, em que também desmonta os argumentos da acusação num caso de homicídio. Fonda é a escolha natural para este papel, pela mistura de rectidão moral e senso comum que costuma transmitir às suas personagens. Neste caso, a escolha foi feita pelo próprio, uma vez que ele co-produziu o filme (a única vez em que Fonda assumiu o papel de produtor em toda a carreira), a meias com Reginald Rose, autor do guião previamente filmado para a televisão, em 1954. O resto do elenco é equilibrado e competente, apesar de algum overacting ocasional. Doze Homens em Fúria foi uma estreia muito auspiciosa para Lumet e merece a reputação que tem: consegue ser ao mesmo tempo pedagógico e dramaticamente intenso, abordando conceitos abstractos sobre o sistema judicial sem perder a ligação com as preocupações, fraquezas e preconceitos das personagens. Apesar de não ser um filme com cunho autoral vincado, destaquemos três pormenores de realização: o magnífico plano inicial, que, num movimento sucessivamente ascendente e descendente, nos mostra a imensidão do palácio de Justiça e a azáfama dos cidadãos anónimos; o único, breve e inesquecível plano do rosto do réu; a transição subtil dos planos de conjunto para os close-ups, à medida que a obstinação e os preconceitos dos indivíduos ganham preponderância sobre a dinâmica colectiva. Para Lumet, Doze Homens em Fúria marcou o início de duas parcerias importantes: com o actor Jack Warden, que também entraria, por exemplo, em O Veredicto (1982), e com o director de fotografia Boris Kaufman, irmão de Dziga Vertov e que colaborara em todos os filmes de Jean Vigo antes de emigrar para a América. É espantoso que tenha sido o mesmo homem a captar as imagens carregadas de lirismo e sensualidade de L'Atalante (1934) e, quase um quarto de século mais tarde, as de Doze Homens em Fúria, com o seu realismo áspero e claustrofóbico. A história do cinema está cheia destes percursos cruzados, errâncias e acasos de que às vezes resultam obras fascinantes.
 
Outros filmes de Sidney Lumet no Cinéfilo Preguiçoso: Network (1976), O Veredicto (1982).