31 de julho de 2016

Uma Pastelaria em Tóquio


Uma Pastelaria em Tóquio (2015) é a longa-metragem mais recente da realizadora japonesa Naomi Kawase, que tem vindo a conquistar um lugar estável nos festivais europeus e nos circuitos de estreias em sala. O enredo do filme, baseado no livro do romancista, poeta e performer Durian Sukegawa, é de grande simplicidade: Sentaro, o dono solitário e melancólico de uma pequena pastelaria especializada em dorayaki (panquecas recheadas), contrata como ajudante Tokue, uma senhora idosa com um talento extraordinário para a confecção do recheio de pasta doce de feijão. Confrontado com a revelação de que a senhora é uma sobrevivente da lepra que vive num sanatório desde a juventude, Sentaro resigna-se a vê-la partir por pressão da proprietária da loja e dos próprios clientes. Apesar de breve, este convívio marca a vida de ambos, o que se torna claro quando Sentaro herda os apetrechos de cozinha de Tokue após a morte desta, acabando por abandonar a pastelaria e estabelecer-se por conta própria, com uma banca ao ar livre. Uma Pastelaria em Tóquio não é desprovido de algum interesse e encanto, sobretudo no primeiro terço, quando os gestos e procedimentos da confecção dos dorayaki são mostrados com uma precisão e objectividade de documentarista, permitindo ao espectador apreciar o virtuosismo de Kawase no tratamento dos planos aproximados recolhidos no espaço exíguo da pastelaria. Infelizmente, o filme resvala rapidamente para um sentimentalismo que soa a falso. O nadir deste percurso descendente talvez seja a referência às histórias que todos os seres transportam consigo, incluindo (ao que parece) os próprios feijões. Outro passo em falso é a maneira forçada como a personagem de Wakana, uma adolescente com problemas familiares, é incluída, parecendo uma tentativa canhestra de tentar evitar um enredo demasiado centrado no par Sentaro-Tokue. Pelo menos, os percursos pedestres de Wakana permitem ao espectador apreciar uma Tóquio tranquila, anónima e discretamente bela, longe do pitoresco e do cosmopolitismo high-tech.

O Cinéfilo Preguiçoso parte agora de férias. Desejamos aos nossos leitores boas férias e bons filmes. Até Setembro.

24 de julho de 2016

Patience (After Sebald)


Mais uma semana, mais um documentário em DVD. Desta vez, Patience (After Sebald), de Grant Gee (2012), um filme que homenageia o livro Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald (1944-2001), procurando seguir o percurso do narrador numa caminhada na região inglesa de Suffolk. Como os outros documentários de que falámos nas últimas semanas, Patience recorre a depoimentos, neste caso  com a singularidade de se ouvirem predominantemente as vozes dos diversos admiradores de Sebald entrevistados, porque os rostos aparecem pouco, por vezes diluindo-se na paisagem. Nestes depoimentos residem simultaneamente a maior fraqueza e a melhor surpresa deste filme. A maior fraqueza é o excesso de comentário; o documentário nunca chega a autonomizar-se do ponto de vista visual: poucas sequências se destacam como verdadeiramente memoráveis e as palavras são quase sempre mais importantes do que as imagens. Poder-se-ia dizer que o valor do filme é subsidiário do livro. Por outro lado, a melhor surpresa deve-se ao facto de convocar uma série de figuras interessantes nunca antes reunidas no mesmo círculo: fãs tanto de Robert Macfarlane como de Adam Phillips, Tacita Dean, Rick Moody, Christopher Woodward, Michael Silverblatt ou Iain Sinclair ficam a perceber de repente que há uma ligação fundamental a uni-los. Sobre Sebald, justamente uma das ideias mais interessantes que ficam é a da sua capacidade para estabelecer conexões inesperadas e reveladoras entre elementos (pessoas, momentos históricos, espaços, conceitos) diferentes e por vezes até contraditórios: sofrimento e prazer, mobilidade e encurralamento, progressão e repetição, luto e celebração, beleza e estranheza, exaustão e persistência. A impressão final é a de um filme mais conservador do ponto de vista formal do que outro documentário do mesmo realizador sobre uma obra literária (Innocence of Memories, de 2015, em torno de um romance de Orhan Pamuk), mas talvez mais eficaz, graças ao tom esparso e sóbrio e à humildade que revela ao seguir à risca a estrutura e a cronologia do livro. Os testemunhos e a revisitação dos lugares descritos no livro acabam por evocar Sebald de forma surpreendentemente poderosa, da mesma maneira que uma nuvem de fumo difusa, numa das cenas finais, se transforma por momentos no rosto do escritor.

17 de julho de 2016

Trespassing Bergman


O calor potencia a preguiça, por isso o Cinéfilo escreve esta semana sobre um filme visto na comodidade do lar, na RTP2. Trespassing Bergman, documentário de 2013, realizado por Jane Magnusson e Hynek Pallas (e exibido na edição de 2014 do IndieLisboa), arranca com um dispositivo vagamente metaficcional: vários realizadores e actores famosos chegam, por diversos meios (a pé, de automóvel, de helicóptero) à casa de Ingmar Bergman na ilha de Fårö; entram, vagueiam pelas divisões e vão emitindo comentários («parece o muro de Berlim», afirma Tomas Alfredson, realizador do bastante estimável Tinker Tailor Soldier Spy). Esta ideia de mostrar os admiradores do mestre sueco como invasores, entre a reverência e o fetichismo, nunca é explorada com grande convicção e o filme acaba por se assemelhar a tantos outros, recorrendo abundantemente ao esquema clássico de depoimentos filmados, intercalados com imagens de arquivo e excertos de filmes. Como seria quase inevitável, o interesse do filme varia de forma evidente de acordo com os entrevistados. Há depoimentos genuinamente interessantes (Scorsese, Zhang Yimou, Michael Haneke, Woody Allen…), superficiais (John Landis, González Iñárritu, Wes Anderson) e delirantes (Lars von Trier – who else? – em roda livre). Há ainda reacções e momentos inesperados, como o ataque de pânico de Claire Denis, que a obriga a abandonar a casa abruptamente, ou a descoberta de uma cassete VHS do filme A Pianista, de Haneke, em cuja lombada o próprio realizador vê quatro estrelas, presumivelmente uma apreciação crítica positiva deixada pela mão de Bergman. Em jeito de balanço final, Trespassing Bergman é um filme sem muito para dar em termos de ideias de cinema, algo conformista na estrutura e que pouco ou nada revela sobre Bergman que não se soubesse já. No entanto, tem o apreciável mérito de levar um grupo muito significativo de cineastas e actores (além dos já mencionados, Francis Coppola, Ridley Scott, Takeshi Kitano, Alexander Payne, Robert De Niro, Holly Hunter, Laura Dern, Isabella Rossellini, entre outros) a revelar um pouco mais sobre si e sobre a maneira como entendem a prática de fazer cinema, através da relação que estabeleceram, ao longo das décadas, com a obra de Bergman. Por exemplo, a maneira cândida e comovida como Ang Lee conta o primeiro visionamento de A Fonte da Virgem, num Taiwan conservador e fechado, faz valer a pena, só por si, o visionamento deste documentário.

10 de julho de 2016

Finding Vivian Maier



Numa semana muito triste por causa da morte de Abbas Kiarostami (1940-2016), o Cinéfilo Preguiçoso viu em DVD o documentário Finding Vivian Maier, realizado por John Maloof e Charlie Siskel (2013) depois da descoberta num leilão de uma caixa de negativos de uma extraordinária fotógrafa até então totalmente desconhecida. O documentário assume uma abordagem detectivesca, através da qual o próprio John Maloof, que comprou a caixa com a intenção vaga de usar algumas fotografias num livro sobre a história de um bairro de Chicago, descreve o percurso que seguiu a partir do momento em que percebeu o valor artístico da descoberta. Para tentar conhecer a autora das fotografias, Maloof explorou exaustivamente todos os objectos pessoais que conseguiu reunir contactando as pessoas para quem ela tinha trabalhado como ama. Esta estrutura aparentemente convencional, baseada em entrevistas cuidadosamente montadas para permitir a revelação gradual dos vários aspectos da personalidade e biografia de Vivian Maier,  garante-nos acesso à obra que vai sendo mostrada, às dúvidas e perplexidades, bem ou mal resolvidas pela investigação, de Maloof, assim como aos testemunhos daqueles que conheceram a artista. Contudo, talvez uma das características mais interessantes do documentário resida na exposição das lacunas da investigação, que nunca assegura uma compreensão abrangente e satisfatória da figura investigada. Ironicamente, os depoimentos incluídos revelam mais sobre quem fala do que sobre o assunto da conversa. Nenhuma das pessoas que a conheceram e que com ela viveram – mais ou menos fluentes, mais ou menos estranhas, mais ou menos paranóicas ou indiferentes e desatentas – se interessou o suficiente por Vivian Maier para se dar conta do valor da obra e da artista, descrita quase sempre apenas como uma acumuladora de objectos excêntrica e reservada, dotada de arestas que não lhe permitiam encaixar em lugar algum durante muito tempo. Curiosamente, só nos depoimentos de fotógrafos e críticos a propósito das fotografias de alguém que nunca conheceram pessoalmente alcançamos um visão mais completa de como Vivian Maier pode ter sido: a liberdade, o sentido de humor e de oportunidade, o espírito curioso, a sede de informação. Além de ser um documentário sobre uma fotógrafa prodigiosa, tão embrenhada nesta actividade que nunca divulgou o próprio trabalho, além de desencadear alguma reflexão sobre os mecanismos de consagração artística, Finding Vivian Maier é um filme sobre o mistério que cada um de nós representa para os outros. «Como conhecer alguém?» é uma das perguntas essenciais que coloca.

3 de julho de 2016

Amor e Amizade


Amor e Amizade (2016), a quinta longa-metragem realizada por Whit Stillman (cuja passagem pelo IndieLisboa de 2015 foi aqui devidamente assinalada), é a adaptação de uma obra pouco conhecida de Jane Austen (o romance epistolar Lady Susan) e representa uma ruptura com os cenários urbanos e contemporâneos a que este realizador nos habituara. Quando isto acontece, a tentativa de procurar pontos comuns e continuidades de tema ou de estilo com a obra anterior do autor apresenta-se como um exercício quase inevitável, embora de interesse duvidoso. Não é difícil encontrar esses pontos comuns no caso de Stillman: a predominância de diálogos saturados de segundos sentidos — instrumento de revelação da verdade mas sobretudo de manipulação —, a importância do estatuto social, o gosto por personagens obstinadas e um tanto excêntricas (sendo particularmente memoráveis as desempenhadas pelo fabuloso Chris Eigeman nos três primeiros filmes de Stillman) ou a presença das actrizes Kate Beckinsale e Chloë Sevigny, nos papéis da protagonista Lady Susan Vernon e da sua confidente americana. Para além da coerência temática ou falta dela, Amor e Amizade é um filme que faz plena justiça ao humor de Jane Austen e que gere de forma sagaz as clivagens entre aquilo que é dito e aquilo que é mostrado. O efeito cómico é potenciado pela forma como Stillman adopta as regras do filme de época (reconstituição histórica cuidada, montagem clássica, ausência de efusões estilísticas) sem abdicar de um olhar moderno e satírico sobre os costumes sociais da Inglaterra do século XVIII, onde a manipulação e a conspiração, quase sempre em torno do casamento, eram muitas vezes mais uma necessidade absoluta do que uma opção. Acrescente-se, a título de curiosidade, que está anunciada a publicação de uma versão do romance de Austen reescrita pelo próprio Stillman, que aliás já fizera o mesmo relativamente ao seu próprio argumento do filme The Last Days of Disco (1998). Ninguém que tenha visto pelo menos um filme dele ficará surpreendido com este prolongamento literário da sua actividade de realizador.

26 de junho de 2016

Maggie Tem Um Plano


 
Maggie Tem Um Plano, de Rebecca Miller (2015), possui muitas características entediantes. O facto de se tratar de mais um filme situado em Nova Iorque, sobre personagens que não se cansam de falar sobre as próprias dificuldades e más relações, por si só, não é um problema. Há e continuará a haver bons filmes com estes mesmos tópicos – mas distinguindo-se de Maggie Tem Um Plano por assentarem em diálogos mais inteligentes e em dilemas que suscitam mais curiosidade. Por exemplo, o filme Listen Up Philip (sobre o qual escrevemos recentemente) situa-se na mesma cidade, incluindo personagens equivalentes (escritores, académicos, criativos), mas é muito mais interessante. E, contudo, participam no filme de Rebecca Miller – nascida em 1962, filha do dramaturgo Arthur Miller e casada com Daniel Day Lewis, já nossa conhecida por ter realizado filmes como Velocidade Pessoal (2002) ou A Balada de Jack e Rose (2005) – actores excelentes e carismáticos, desempenhando papéis que poderiam dar pano para mangas: uma protagonista (Greta Gerwig) com uma dimensão maternal controladora que, depois de tentar proteger em enredos consistentes todos os que a cercam, um pouco à semelhança da Emma de Jane Austen, tem de se render ao «destino» ou «acaso»; um casal de académicos da área da «antropologia fictocrítica» (sic) – John (Ethan Hawke) e Georgette (Julianne Moore) – a braços com as dificuldades típicas tanto de um casamento longo como da carreira em questão. Apesar de não serem propriamente medíocres, estas e outras figuras nunca se destacam daquilo a que vulgarmente chamamos «conversa de chacha», ao ponto de – proeza inesperada mas dispensável – não haver qualquer química entre as personagens de Greta Gerwig e Ethan Hawke, pelo simples facto de os diálogos e a maior parte das situações em que estão envolvidos serem tão desengraçados e repisarem tantos lugares-comuns maçadores que chegam a ser exasperantes. Felizmente, em contraste absoluto com Maggie Tem Um Plano no que diz respeito à inteligência dos diálogos, estreou esta semana o filme Academia das Musas,  de José Luis Guerín (visto pelo Cinéfilo Preguiçoso no ano passado).

19 de junho de 2016

L'Avenir


Compreendendo cinco longas-metragens (uma das quais já abordada neste espaço) e um punhado de curtas, a carreira de Mia Hansen-Løve pode inserir-se na tradição naturalista francesa representada por Pialat, Téchiné ou Doillon. Contudo, existem particularidades de estilo que conferem um cunho de individualidade muito forte aos seus filmes e que a distinguem dos seus pares e dos seus antecessores. L’Avenir (2016, traduzido em Portugal por O Que Está por Vir), confirma esta impressão de originalidade e continuidade. O filme segue uma personagem num ponto crítico da sua vida. Professora de filosofia, casada e com dois filhos, Nathalie (Isabelle Huppert) é confrontada, num espaço de tempo curto, com o divórcio, a morte da mãe, o nascimento do neto e a sabotagem dos seus projectos editoriais, demasiado austeros e desalinhados com os ditames do marketing. L’Avenir é a crónica das reacções de Nathalie aos dissabores que sofre, oscilando entre a aparente indiferença, a indignação, alguns picos de emoção e, sobretudo, um pragmatismo sóbrio e amargo. Não se pode falar em estoicismo (aliás, Nathalie demonstra pouca propensão para derivar algum consolo da filosofia que ensina), mas antes de uma pulsão para dar continuidade à vida e para manter a lucidez que inclui uma forte dose de instinto, o mesmo instinto de que a gata da mãe dá mostras quando é pela primeira vez posta em contacto com a natureza. Não há epifanias nem redenções neste filme, cujo término, apesar de soar justo, surge num momento aparentemente arbitrário da narrativa e não coincide com qualquer ponto de inflexão libertador, tão do agrado de argumentistas medíocres. Entre as muitas coisas que se poderiam ainda dizer sobre este filme admirável, saliente-se apenas os planos em que Hansen-Løve coloca Nathalie em cenários naturais semi-selvagens (Bretanha, Vercors) quase abstractos, e ainda o uso da música (Schubert, Woody Guthrie…); em ambos os casos, a justeza do tom dispensa a pertinência narrativa. Como não é nosso costume afirmar o óbvio, terminemos com a referência à presença do rivetteano André Marcon (no papel do marido), em vez de aludirmos à excelência de Isabelle Huppert. Este filme recebeu o Urso de Prata de melhor realizador no festival de Berlim.

12 de junho de 2016

Listen Up Philip


Visto em DVD, Listen Up Philip (2014), a terceira longa-metragem de Alex Ross Perry (n. 1984), gira em torno de um jovem escritor (interpretado pelo excelente Jason Schwartzman) depois da publicação do seu segundo romance. Narrado em voz-off, como uma ficção, pelo actor e escritor Eric Bogosian, o filme acompanha igualmente as personagens que gravitam em torno de Philip, nomeadamente Ike Zimmerman (Jonathan Pryce), um escritor mais velho e já consagrado que decide apadrinhá-lo, a namorada Ashley (Elizabeth Moss), o gato Gadzookey, adoptado por Ashley quando Philip decide deixar a cidade por uns tempos, além de outras novas e antigas namoradas com quem Philip se vai confrontando. Os modelos de escritor e de literatura explorados no filme estão muito próximos dos de certos romancistas americanos do sexo masculino, como Philip Roth ou algum Saul Bellow, com obras que se alimentam de maus sentimentos em relação às mulheres, encaradas apenas como caixas de ressonância para desabafos mais ou menos egocêntricos. Os movimentos de câmara e a rarefacção da linearidade narrativa recordam o cinema de Cassavetes nos seus primeiros tempos, mas quando o próprio Alex Ross Perry escreveu que Listen Up Philip é um filme sobre a agressividade e as energias negativas da cidade de Nova Iorque, integrou-se imediatamente numa família de realizadores de que fazem parte Woody Allen e Noah Baumbach. Também Allen e Baumbach fazem filmes sobre Nova Iorque, sem hesitarem em mostrar o lado mais mesquinho da cidade e das suas personagens. Em comparação com estes dois realizadores, contudo, parecem faltar a Perry algum sentido de humor e um certo distanciamento irónico. Para Perry, as características mais importantes das personagens são as suas fraquezas, raramente ou nunca compensadas por virtudes redentoras. Em contraste com os filmes de Woody Allen e Noah Baumbach, que exploram um espectro de emoções e circunstâncias mais complexo e mais amplo, Listen Up Philip resulta essencialmente como um excelente instrumento de exploração dos fracassos no amor, na amizade e na vida em geral. É um filme que não oferece redenções nem resoluções satisfatórias, mas que, mau grado a sua negatividade, deixa espaço para a capacidade de seguir em frente e superar o medo da solidão.

5 de junho de 2016

Alexandre Nevsky


Está a decorrer até ao próximo dia 13 de Julho, no Espaço Nimas, um excelente “Ciclo Grande Cinema Russo”, organizado pela Medeia Filmes. O Cinéfilo Preguiçoso não podia ficar indiferente. Alexandre Nevsky (visto no dia 3 de Junho, repete no dia 20), estreado originalmente em 1938, foi o primeiro filme sonoro de Sergey Eisenstein (em co-realização com Dmitry Vassiliev), tendo sido concebido como um alerta patriótico em face da ascensão da ameaça nazi, aqui posta em paralelo com as invasões teutónicas da Rússia no século XII. Esqueça-se o argumento, de um maniqueísmo que chega a ser aflitivo. Esqueça-se a enfadonha personagem do príncipe Nevsky e a sua retórica monocórdica. Assinale-se a tentativa de introduzir algum comic relief e uma componente humana e romântica através das personagens de Vassily, Gavrilo, Olga e Vassilissa, (embora seja difícil não estabelecer comparações desfavoráveis com um filme como La Marseillaise, de Jean Renoir, estreado no mesmo ano e que se distingue pela complexidade e riqueza das suas personagens, sem abdicar da alegoria nem da mensagem). Aquilo que faz de Alexandre Nevsky uma obra-prima é a sua dimensão plástica: a montagem, os magníficos planos de paisagens e multidões, o fabuloso preto-e-branco de Eduard Tissé, a lendária partitura de Prokofiev e sobretudo o modo como todos estes elementos se harmonizam para conferir uma notável unidade estética ao filme, culminando numa das mais extraordinárias cenas de batalha da história do cinema. Alexandre Nevsky pode parecer-nos hoje francamente datado nalguns aspectos, devido às circunstâncias históricas que presidiram à sua concepção e à apertada vigilância exercida pelo Kremlin, que impediu derivas formalistas excessivas por parte do realizador. Se o filme ainda hoje nos impressiona, é enquanto manifestação de cinema puro (deixando de lado os debates, sempre úteis mas quase sempre infrutíferos, sobre a “pureza” e “impureza” do cinema): corpos, luz e sons em movimento, amalgamados num todo vibrantemente superior às suas partes.

29 de maio de 2016

Uma Nova Amiga



Segundo o realizador François Ozon, o filme Uma Nova Amiga (2014), estreado em Lisboa ao fim de uma longa espera e de inúmeros falsos alarmes, foi adaptado livremente do conto «The New Girlfriend», de Ruth Rendell, num tom e num espírito deliberadamente próximos dos da série Alfred Hichcock Presents. Dentro da obra de Hitchcock, talvez o filme Vertigo/A Mulher que Viveu Duas Vezes (1958) seja uma referência ainda mais importante do que a série televisiva. Tal como Madeleine Elster/Judy Barton (Kim Novak) encarna a figura da amante morta de Scottie (James Stewart) em Vertigo, também David/Virginia (Romain Duris) encarna Laura, a amiga morta de Claire (Anaïs Demoustier), em Uma Nova Amiga. A atmosfera onírica das recordações do passado das amigas na casa de infância de Laura e o quadro que representa Laura recordam igualmente Vertigo. David/Virginia é um homem que se sente melhor com a aparência feminina ou uma mulher num corpo de homem? Claire aproxima-se de David/Virginia simplesmente porque ele substitui a sua amiga morta e lhe permite consumar uma relação que nunca teve com ela, ou porque se sente atraída tanto por David como por Virginia? Em todos os seus filmes, Ozon esteve atento à ambiguidade sexual das personagens e ao modo como os papéis associados ao género podem ser simplistas e enganadores. Uma Nova Amiga não tenta resolver estas dificuldades: o seu objectivo parece consistir em retratar a circulação de afectos, desejos e memórias, sem deixar entrever soluções. No livro The Argonauts (2015), que aborda um tema próximo deste filme, Maggie Nelson sugere que tentar definir a identidade sexual das pessoas é menos importante do que deixá-las serem quem são, sem terem de se explicar permanentemente. A questão mais importante deste filme de Ozon é precisamente esta liberdade, defendida por Nelson, de se ser como se é. A concessão dessa liberdade a David/Virginia é o factor que o faz (muito melodramaticamente) despertar de um coma e que abre caminho para um final idílico. Só na aparência este final faz concessões ao sentimentalismo: mostrar a felicidade no final dos percursos tão acidentados destas personagens é um acto quase revolucionário.