2 de março de 2015

Waking Life



Waking Life é um filme de 2001, realizado e escrito por Richard Linklater, cuja característica mais distintiva é o uso da técnica de animação por rotoscópio, com base em imagens de actores de carne e osso. Esta técnica, que aliás viria ser novamente usada por Linklater em A Scanner Darkly (2006), confere ao filme uma natureza visualmente ambígua que se adequa aos temas explorados. O protagonista anónimo sofre um atropelamento que o projecta para uma sucessão de sonhos encastrados uns nos outros. Nesses sonhos, é o destinatário mais ou menos passivo das conversas e dos depoimentos de numerosas personagens (mas também personalidades da vida real, como o realizador Steven Soderbergh e o filósofo Louis H. Mackey) com quem se cruza ou que vê na televisão. É quando se leva menos a sério que o filme funciona melhor: como um desfile deliberadamente desconexo de achados visuais e conceptuais e de especulações sobre temas como o sonho, o livre-arbítrio e o papel do indivíduo na sociedade, temas, aliás, que Linklater aborda noutros filmes. Falta dizer que este filme foi visto em DVD, enquanto se espera por boas novas no panorama de estreias.

Ida



Existem muitos motivos óbvios que podem ajudar a perceber, a um nível superficial, o acolhimento favorável recebido por Ida (2013), de Pawel Pawlikowski, incluindo a presença em várias listas dos melhores de 2014 e o recente Óscar para melhor filme de língua estrangeira: a referência aos horrores da guerra e aos anos sombrios da hegemonia comunista na Polónia, a sobriedade das imagens, o rigor dos planos, um ritmo pontuado por pequenas elipses que se adequa perfeitamente à viagem da jovem Anna/Ida em busca do seu passado. Felizmente, o filme consegue ser mais do que um agregado de mais-valias universalmente bem acolhidas e oferece momentos ricos em intensidade, como a descoberta do vitral no estábulo e a excursão à floresta para assistir à exumação dos ossos dos pais pelo próprio homem que os assassinara. Sai-se da sala a desejar que o filme tivesse sabido explorar de forma menos óbvia algumas das questões e dicotomias que traz a terreiro, mas na posse de imagens e sons demasiado fortes para não perdurarem.

23 de fevereiro de 2015

Inherent Vice



As razões que levaram Paul Thomas Anderson a adaptar um romance menor de Thomas Pynchon são difíceis de penetrar. Pode-se conjecturar que, depois de tratar personagens maiores que a vida em There Will Be Blood (2007) e no magnífico The Master (2012), o realizador e argumentista se sentiu atraído pela abundância de personagens insignificantes em Inherent Vice (2014), à cabeça dos quais surge o protagonista, “Doc” Sportello. O filme reconstitui fielmente o ambiente de ressaca psicadélica da América de 1970, a incoerência do enredo e o ambiente de paranóia tipicamente pynchoniano, sem nunca acrescentar ao livro algo de verdadeiramente ousado ou distintivo. O facto de a incoerência e inverosimilhança serem completamente deliberadas não redime este esforço de Anderson, que dificilmente ficará para a História como um ponto alto da sua carreira. Procurem-se antes os pontos positivos na interpretação de Joaquin Phoenix, numa ou noutra cena hilariante como a devolução dos pacotes de droga aos membros do cartel («How long have you been working for the Golden Fang?»)  ou na escolha de Joanna Newsom como narradora.

16 de fevereiro de 2015

The Future

Miranda July, de quem se tem falado muito ultimamente a propósito da publicação do seu primeiro romance (The First Bad Man), é daqueles raros casos de talento que se estende à literatura, à performance, à realização, à interpretação e à música com doses comparáveis de dedicação e apreciação crítica. Aproveitando mais uma semana de vacas magras no que respeita a estreias, o Cinéfilo Preguiçoso viu em DVD The Future (2011), a segunda longa-metragem desta artista. Neste filme, protagonizado pela própria realizadora e por Hamish Linklater, o medo do futuro é explorado em níveis muito diversos que coexistem sem se contaminar: o metafórico, o literal, o lúdico e o trivial combinam-se para exprimir as inquietações e interrogações de um casal suscitadas pela decisão, aparentemente banal, de adoptar um gato (cuja voz antropomorfizada pontua de forma tocante e cómica todo o filme). Alguns elementos que vão talvez longe de mais na escala da gratuitidade não comprometem uma obra poderosa e inteligente. Na sua falsa ingenuidade, The Future suscita a reflexão na mesma medida em que tantos filmes supostamente com mensagem nos deixam indiferentes.

9 de fevereiro de 2015

Topsy-Turvy



(O Cinéfilo Preguiçoso agradece ao inventor do DVD o rasgo de génio que permitiu a tantos cinéfilos desfrutarem do cinema em casa nos fins-de-semana frios de Inverno.) Ao contrário do que acontece no recente Mr Turner (2014), em Topsy-Turvy (1999) Mike Leigh explora o processo colectivo de criação (neste caso, a ópera The Mikado de Gilbert e Sullivan, estreada em 1885) em vez do esforço de um único indivíduo. Fazendo lembrar obras como La Nuit Américaine (François Truffaut, 1973) ou State and Main (David Mamet, 2000), o filme desloca o seu foco de personagem para personagem ao sabor dos caprichos e conflitos entre estas. Além das componentes técnicas (óscares para guarda-roupa e maquilhagem), previsivelmente irrepreensíveis, Topsy-Turvy vale em grande medida pela maneira como gere o fluxo de diálogos, ensaios, choques de personalidades e números musicais, deixando sempre espaço para momentos de revelação de dimensões e profundidades inesperadas das personagens.

2 de fevereiro de 2015

The Theory of Everything



Numa das obras anteriores do realizador James Marsh (Man on Wire, 2008), documentário sobre o funâmbulo francês Philippe Petit, o longo trabalho de preparação de um acto criativo (a caminhada sobre um cabo suspenso entre as Torres Gémeas do World Trade Center) é mostrado com uma mistura fascinante de rigor e lirismo. Em The Theory of Everything (2014), muito pelo contrário, os processos de investigação e de criação são ignorados em benefício de um tratamento sentimental e superficial da vida do físico Stephen Hawking. Sendo o filme uniformemente convencional e carente de interesse, justifica-se destacar a odiosa montagem paralela entre o colapso de Hawking na ópera e a infidelidade cometida pela mulher com o professor de música. O facto de The Theory of Everything ter sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme diz muito pouco sobre o filme, mas muito sobre os Óscares.

26 de janeiro de 2015

O Jogo da Imitação | Debaixo da Pele



Em O Jogo da Imitação (Morten Tyldum, 2014), o contexto parece invadir o filme e expulsar tudo o resto. A segunda guerra mundial, as leis contra a homossexualidade e a batalha contra o tempo para decifrar as mensagens criptografadas do estado-maior nazi deixam pouco espaço para o desenvolvimento da singularíssima personagem de Alan Turing. Consegue salvar-se, vá lá saber-se como, a interpretação de Benedict Cumberbatch que, apesar de ter de representar uma personalidade semelhante à de Sherlock Holmes, consegue compor uma personagem que se distingue. Em Debaixo da Pele (Jonathan Glazer, 2013, visto pelo Cinéfilo Preguiçoso em DVD), pelo contrário, a ausência absoluta de contexto é parte do contrato que o realizador tenta estabelecer com o espectador, com ou sem sucesso. Ninguém sabe de onde vem Laura (Scarlett Johansson), ou o que a leva a interpelar e seduzir homens solitários nas terras frias da Escócia. Nem parece importante sabê-lo.

19 de janeiro de 2015

Sono de Inverno



Embora esteja bem ciente de que o mundo em que vive é um mundo injusto, o Cinéfilo Preguiçoso não pôde evitar o espanto ao constatar que Sono de Inverno (2014), de Nuri Bilge Ceylan, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, ao passo que o infinitamente mais rico e complexo Era Uma Vez na Anatólia (2011) se ficou pelo Grande Prémio do Júri. Não é na duração (mais de três horas) nem no ritmo lentíssimo, coisas que não assustam o Cinéfilo Preguiçoso, que residem os problemas de Sono de Inverno; os aspectos mais irritantes são a insistência em sondar as profundezas psicológicas de personagens sem densidade e a ambição falhada de emular Bergman nas cenas de discussão do casal. O número surpreendente de pessoas que aguardavam no Nimas para assistir à sessão das 17h00 num sábado de chuva sugere que esta opinião é minoritária e que a obra de Ceylan está a fazer furor nos meios cinéfilos, nas redes sociais e noutros locais onde se faz e desfaz a sorte de um filme.

12 de janeiro de 2015

Adeus à Linguagem



Godard em 3D!!! E eis que o Cinéfilo Preguiçoso se vê compelido a vasculhar as gavetas da cómoda em busca dos óculos que usou para ver Pina, de Wim Wenders (2011). Adieu au Langage é um filme denso, exasperante e genial como qualquer outro que Godard tenha realizado desde que Jean-Paul Belmondo resmoneou «Allez vous faire foutre!» ao volante de um carro roubado – mas diferente de qualquer outro e radicalmente singular, como é próprio de alguém que sempre se soube pioneiro e que sabe que não deixará seguidores. (Vale a pena falar da extraordinária beleza plástica do filme – e de como esta vertente tem sido negligenciada nas análises à obra de JLG?) Em vez dos 70 minutos anunciados, fica-se sem a certeza de que a projecção tenha terminado, a julgar pela maneira como certas imagens e frases perduram: «Moi je suis là pour autre chose. Je suis là pour vous dire non et pour mourir. Pour vous dire non et pour mourir.»



5 de janeiro de 2015

Mr. Turner


O tema de Mr. Turner (2014), realizado por Mike Leigh, é menos a pulsão criadora e o génio do que um homem (por acaso genial) e a sociedade em que este se movia, neste caso a Londres da primeira metade do século XIX. A reconstituição histórica é excelente, a direcção artística é notável, os diálogos são fluidos, o humor é abundante. O principal mérito do filme, no entanto, é retratar um Joseph Turner imensamente humano, complexo e singular, mas ao mesmo tempo tão fruto da sua época e do seu meio como qualquer outro dos seus contemporâneos. Os méritos de Timothy Spall no papel principal já foram devidamente elogiados, mas não seria decente deixar de chamar a atenção para os desempenhos de Marion Bailey, Paul Jesson e Martin Savage. Fortemente recomendado.