16 de junho de 2024

A Quimera

Na primeira cena de A Quimera (Alice Rohrwacher, 2023), Arthur (Josh O’Connor) acorda num compartimento de comboio que partilha com umas personagens femininas de ar invulgar, que lhe lembram efígies etruscas. A suspeita sobre a vertente fantasmagórica do protagonista instala-se logo aqui. Não sabemos bem se Arthur está vivo; nunca está parado; não encaixa bem em lado nenhum. É um arqueólogo com um talento sobrenatural para identificar a localização de túmulos etruscos subterrâneos em que os mortos têm uma espécie de enxoval que os acompanhará na outra vida. Quando Arthur sente o mal-estar que indica a presença de um túmulo, a imagem vira-se ao contrário, como se os espectadores tivessem acesso ao seu modo de ver. As aventuras de Arthur com o grupo de ladrões de túmulos de que faz parte são entrecortadas por recordações de Beniamina, sua parceira desaparecida. A Quimera não é um filme narrativo. Depois da morte, não há narrativa, só ausência de coordenadas temporais. Se há histórias neste filme, terão de ser os espectadores a compô-las a partir do caos das conversas circunstanciais, das expressões das personagens, de pormenores inesperados, dos frescos desmaiados nas casas, das folhas caídas nas florestas, dos objectos roubados e das canções através das quais o grupo de ladrões se retrata. Em muitos momentos, sentimos uma espécie de sobrepovoamento dos planos, com um excesso de sons e detalhes. Rohrwacher compara Arthur com um herói mitológico, na medida em que, em vez de psicologia, tem um destino – talvez os espectadores que o acompanhem no seu imprevisível percurso em direcção às trevas possam aprender com ele alguma coisa sobre si próprios. Com ele, a realizadora leva a cabo o seu próprio percurso pelo cinema italiano e pela história do seu país, não hesitando em apropriar-se de certos elementos arqueológicos do cinema de Fellini, Rossellini e até Pasolini, para realizar um filme sombrio e absolutamente pessoal e único. Já se falou da possibilidade de A Quimera formar uma espécie de trilogia com os anteriores O País das Maravilhas (2014) e Feliz como Lázaro (2018), mas a realizadora prefere compará-los com o tríptico  de um altar. Os três filmes têm em comum o retrato de um grupo ou família, que, à margem da sociedade, se entrega a actividades invulgares. O Cinéfilo Preguiçoso escreveu sobre os filmes anteriores de Rohrwacher em tom de elogio convicto, mas é preciso dizer que A Quimera se distingue pela riqueza visual e pela liberdade com que segue o percurso errático de Arthur e das outras personagens, entre as vicissitudes do quotidiano, as numerosas camadas de história e a memória cinéfila.

9 de junho de 2024

Showing Up

Numa entrevista, Kelly Reichardt declarou que gosta de encarar cada filme como um novo desafio, sem preocupações de continuidade estilística ou temática com os anteriores, apesar de se manter fiel à sua equipa de colaboradores, com destaque para o argumentista Jon Raymond. Isto reflecte-se na sua filmografia, na qual seria difícil encontrar uma linha condutora ou temas dominantes. Uma das expressões que o Cinéfilo Preguiçoso usou em artigos sobre filmes anteriores de Reichardt foi “tom menor”. A recusa de pontos altos e da grandiloquência – provavelmente o traço mais distintivo desta cineasta – é mais evidente do que nunca em Showing Up (2022). A personagem principal, Lizzy (Michelle Williams), é uma escultora que prepara uma exposição, enquanto tem de lidar com uma miríade de problemas, alguns bastante comezinhos: o trabalho administrativo numa escola artística dirigida pela mãe, o bizarro casal que ocupa a casa do pai, a saúde mental do irmão, a falta de água quente e a saúde de um pombo que foi atacado pelo seu próprio gato. No meio das peripécias mais ou menos cómicas que estes problemas suscitam, o trabalho artístico de Lizzy é mostrado com uma discrição extraordinariamente bem conseguida. Os gestos de moldar, pintar e cozer as figuras de barro são intercalados com os gestos da vida quotidiana. Apesar da fluidez do trabalho de câmara e do argumento, nunca deixamos de sentir que a fronteira entre estes dois domínios existe e se mantém graças à força de vontade e ao autodomínio da protagonista. Showing Up está nos antípodas dos filmes que mostram os artistas como génios turbulentos que cortam as amarras que os ligam ao mundo e ficam à espera de que a inspiração os visite. O mundo está demasiado presente na vida de Lizzy e há demasiadas coisas a solicitarem os seus cuidados para que ela se possa dar a esse luxo. As estatuetas que cria nunca são filmadas de forma glamorosa, com a reverência devida a uma obra de arte: limitam-se a ocupar as porções de plano que lhe competem, entre os corpos e os movimentos daqueles que se aproximam delas. Há até uma que, por ter ficado demasiado tempo no forno, está queimada de um dos lados, mas não deixa por isso de integrar a exposição. Graças a essa materialidade, sugerida com tanto comedimento e desassombro, as peças adquirem um grande poder dramático nas cenas finais: à falta de manifestações de satisfação por parte de Lizzy, demasiado ocupada com os problemas da família, é a obra feita que exprime o sucesso do seu trabalho. Por se tratar de uma realizadora dada a recomeços, parece pouco razoável tentar descrever Showing Up como o culminar de um percurso, apesar de, provavelmente, ser o filme mais conseguido de Reichardt. Adivinha-se que a sua carreira futura continuará a registar passos em falso e momentos de excelência e que cada novo filme será como um território virgem que o espectador é convidado a explorar.
 
Outros filmes de Kelly Reichardt no Cinéfilo Preguiçoso: Certain Women (2016), First Cow (2019).

19 de maio de 2024

Um Casal

O argumento de Um Casal (Frederick Wiseman, 2022) foi preparado com o realizador, a partir dos diários de Sofia Tolstói e das cartas de Lev Tolstói, pela actriz Nathalie Boutefeu, que também desempenha o papel de protagonista. Wiseman costuma realizar documentários sobre instituições (como a National Gallery, ou a New York Public Library, para referir dois exemplos abordados no Cinéfilo Preguiçoso), contando histórias a partir das pessoas que delas fazem parte. Tendo em conta que se baseia em textos de pessoas reais, Um Casal quase podia ser um documentário sobre a instituição do casamento, só que com apenas uma pessoa, uma mulher de meia-idade, que, recordando que, aos dezoito anos, se casou com um escritor com o dobro da idade dela, descreve os problemas desta relação desigual, em que o marido vive dentro da sua própria cabeça, nada fazendo para cuidar da família, inteiramente a cargo dela, que, além disso, o ajuda a organizar a sua obra. Como a figura masculina nunca aparece, o filme depende das palavras da protagonista, do modo como se comporta quando descreve a situação, e do espaço em que se situa. Um Casal foi filmado num jardim com vista para o mar de uma ilha da Bretanha. A solidão e o isolamento da protagonista e a intensidade e revolta dos sentimentos que verbaliza criam uma atmosfera que, sob uma superfície bucólica, se torna quase gótica. O isolamento da protagonista/narradora no cenário natural, assim como o facto de a acção se circunscrever às palavras, lembram os filmes de Straub-Huillet, por exemplo Operai, Contadini (2001) e Quei Loro Incontri (2006). Existem, contudo, diferenças de tom: Sofia distingue-se por protestar de um modo quase adolescente, como se a situação a que está condenada não a tivesse deixado crescer. A sua voz não é um veículo para palavras alheias (Vittorini, Pavese): são as palavras da sua vida, escritas por si ou pelo marido. Nathalie Boutefeu, que passou despercebida aos olhos do Cinéfilo Preguiçoso em filmes de Bonitzer, Assayas e Desplechin, mantém ao longo do filme um registo de queixa que pode ser também uma exortação – mas dirigida a quem? Um Casal não apela à piedade nem à compreensão do espectador. A principal preocupação de Wiseman sempre foi mostrar como as pessoas vivem e se relacionam, seja no seio de uma instituição grande e complexa ou na intimidade de um casal. Não é, porém, um filme fácil, na medida em que confronta o espectador com uma mulher sem saída.

12 de maio de 2024

Benediction

Terence Davies, um dos maiores realizadores britânicos de sempre, morreu em Outubro do ano passado. Depois de ter esperado em vão pela estreia em sala da sua última obra, Benediction (2021), o Cinéfilo Preguiçoso decidiu comprar o DVD. Debruçando-se sobre a vida e obra do poeta inglês Siegfried Sassoon (1886-1967), é inevitável que Benediction evoque o filme imediatamente anterior deste realizador, em que Emily Dickinson era a figura central, e sobre o qual escrevemos: «em A Quiet Passion a vida é feita de literatura.» No caso de uma escritora como Dickinson, que viveu uma vida recatada e com poucos acontecimentos dignos de nota, qualquer abordagem biográfica é inevitavelmente uma abordagem à obra. Sassoon, pelo contrário, viveu peripécias com interesse intrínseco. Durante a Primeira Guerra Mundial, recebeu uma medalha por actos de bravura e escreveu uma carta de protesto contra a estratégia de condução deste conflito que lhe valeu o internamento num hospital militar, para tratamento de suposta neurastenia. Depois da guerra, teve numerosas ligações amorosas com homens, incluindo com o famoso actor e compositor Ivor Novello, antes de se decidir a casar (com uma mulher); mais tarde, retirou-se para uma casa no campo e converteu-se ao catolicismo. No filme de Davies, a guerra de 1914-1918 é tratada como a fase decisiva da vida de Sassoon, devido não só ao já referido acto de rebeldia, mas também à morte do poeta Wilfred Owen, de quem era próximo, e à importância que a experiência de combate teve nos seus poemas, que denunciam os horrores das trincheiras e o absurdo do conflito armado. O resto da vida parece um longo anticlímax: as ligações sentimentais sucedem-se, sem nunca conduzirem à felicidade; o casamento aparece como uma solução insatisfatória; o sentimento de que o mundo avança, deixando Sassoon à margem, torna-o amargo. Embora estes episódios biográficos, narrados cronologicamente (com algumas prolepses súbitas e inesperadas), não digam respeito directamente à obra poética, contribuem para caracterizar o biografado nas suas diversas facetas – ao contrário do que sucedia em Dança Primeiro (2023), onde a componente biográfica era estéril, além de mal servida por diálogos frouxos e por um argumento pouco imaginativo. Por fim, mencione-se a maneira como Davies usa a música e as canções como elemento narrativo: são não só um meio para nos situar num certo tempo e numa certa atmosfera, mas também, e sobretudo, momentos de partilha, factores de coesão social e fonte de memórias para o futuro. Benediction é um filme que, apesar de algum excesso de sentimentalismo e de não reproduzir a originalidade e o rigor formal de alguns dos seus filmes de início de carreira, ajuda a perceber a enormidade da perda representada pelo desaparecimento de Terence Davies.

5 de maio de 2024

Challengers

Em entrevistas, Luca Guadagnino, realizador de Challengers (2024), tem explicado que não costuma ver partidas de ténis na televisão porque as acha entediantes. Ao mesmo tempo, Justin Kuritzkes, argumentista do filme, não se descreve como verdadeiro aficionado deste desporto. Um dia, porém, enquanto assistia a um famoso jogo de 2018 entre Naomi Osaka e Serena Williams em que a segunda foi penalizada por receber instruções do treinador, Kuritzkes deu por si a pensar não só em tudo o que, para lá do ténis e sem o público saber, poderia estar em jogo entre as duas adversárias, mas também nas formas de explorar uma situação semelhante no cinema. Challengers começa com uma partida de ténis entre Art (Mike Faist) e Patrick (Josh O’Connor). Ao longo do filme, este desafio é articulado com flashbacks que revelam gradualmente a relação entre estes dois jogadores, afinal amigos de longa data, e um terceiro elemento (Tashi/Zendaya), que assiste ao jogo na bancada. Através da lente do ténis, esta relação é vista e filmada como um jogo, acompanhado por uma banda sonora (composta por Trent Reznor e Atticus Ross) que acentua a vertente deliberadamente esquemática e técnica de Challengers. É um filme sobre forças em confronto – Guadagnino diz que a energia, a fúria e a dinâmica de A Cor do Dinheiro (1986) e Life Lessons (1989, integrado em Histórias de Nova Iorque), de Martin Scorsese, foram influências. Não surpreenderia se tivesse citado outro Scorsese: Touro Enraivecido (1980), obra-prima sobre um pugilista, realizada por um cineasta que não se interessava por boxe. Num filme menos intenso e mais convencional, o argumento prestaria atenção à vida familiar e aos antecedentes das personagens, mas aqui esses aspectos são abordados de passagem. Os protagonistas só se interessam por ténis e não falam sobre mais nada – a ponto de pensarem que falam sobre ténis quando, na verdade, estão a falar sobre outros assuntos, e de não se perceber quando estão ou não a jogar, se é que alguma vez deixam de o fazer. Ainda assim, apesar de as personagens parecerem não ter vida para lá do desporto que praticam, Challengers podia ser sobre personagens com o mesmo interesse obsessivo por outra actividade qualquer, na medida em que é uma história sobre a paixão que alguns de nós têm por aquilo que fazem, sobre as dificuldades de manter viva essa paixão, e também sobre as dinâmicas entre as pessoas que se dedicam à mesma actividade com energia equivalente. A relação triangular do filme é decisiva para a noção de jogo constante. (Claro que já muita gente chamou a atenção para o facto de o argumentista do filme ser casado com Celine Song, realizadora de Vidas Passadas, um filme em que também há um triângulo amoroso.) Em Challengers, no entanto, o triângulo torna-se particularmente significativo porque nunca se esclarece qual é a relação mais importante. Não é certo que o interesse que as personagens masculinas (ambas, à sua maneira, manipuladoras) partilham pela personagem feminina seja o mais forte. Em muitos momentos, suspeitamos que a relação entre Patrick e Art (fogo e gelo, como a dada altura são descritos) é o factor que domina e dá vida aos outros. Numa entrevista, Guadagnino descreve os actores, em geral, como «maquinazinhas de vaidade que se tornam tanto mais interessantes quanto mais tentam resistir a essa vaidade» e esta descrição assenta na perfeição a O’Connor e Faist, intérpretes que brilham por acrescentarem uma dimensão subtil de introversão a estas personagens. Na verdade, contudo, todos os elementos deste filme supostamente despretensioso se combinam com máxima eficiência para produzir um resultado que cada vez parece mais difícil de encontrar: um filme simultaneamente inteligente e divertido. Desde A Rede Social (David Fincher, 2010) que o Cinéfilo Preguiçoso não se divertia tanto no cinema.

Outros filmes de Luca Guadagnino no Cinéfilo Preguiçoso: The Staggering Girl (2019); Mergulho Profundo (2015); Chama-me pelo Teu Nome (2017); Suspiria (2018).